Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184551
Banca
VUNESP
Órgão
TCM SP
Ano
2023
Cargo
ATCE ( )
O senso comum propala que há poucos ingênuos na sociedade contemporânea. Acresce de forma provocadora que as honrosas exceções, tão merecedoras de admiração, confirmam a regra de que “todo mundo tem um preço”. A generalização, porém, é abusiva. Por quê? Porque supõe que corromper-se seja um traço congênito dos homens. Ora, se muitos prevaricam, o mesmo não pode ser dito de todos. Afinal, as condições históricas não propiciam iguais tentações a cada um de nós. De um lado, nem todas as sociedades humanas instigam seus agentes a transgredir os padrões morais com a mesma intensidade; de outro, nem todas as pessoas estão à mercê das mesmas tentações para se corromper. Nesse sentido, ao incitar ambições e ao aguçar apetites, as sociedades em que prevalecem relações mercantis abrigam mais seduções do que as sociedades não mercantis. Resumidamente: expõem mais as consciências à prova e, em consequência, contabilizam mais violações dos códigos morais.
Ademais, ainda que se aceite que todo mundo tenha um “preço”, a pressuposição só faz sentido em termos virtuais. Afinal, nem todos estão ao alcance do canto das sereias. Dizendo sem rodeio: muitos não são corrompidos porque não vale a pena suborná-los!
E isso coloca em xeque a anedota desesperançada do filósofo Diógenes, que se achava exilado em Atenas: munido de uma lanterna em plena luz do dia, procurou em vão um homem honesto. Ora, convenhamos: será que ninguém naquela cidade-estado, absolutamente ninguém, merecia crédito? Não parece lógico; é uma fábula que não deve ser levada ao pé da letra. Qual então o seu mérito? Denunciar a depravação moral que então grassava. De qualquer modo, ponderemos: nem todos os atenienses possuíam cacife o bastante para vender a alma ao diabo.
(Robert H. Srour. Ética empresarial. Adaptado)
Para responder a esta questão, considere o texto de Robert H. Srour e a charge de Lor.
(Lor. Os desmandamentos.)
É correto afirmar que o cotejo desses textos aponta haver entre eles relações de
Ainterdependência, pois ambos expõem objetivamente suas teses.
Banalogia, replicando ideias implícitas e corrigindo desvios de conteúdo.
Cdescontinuidade, centradas na questão do poder ilimitado das corporações.
Dintertextualidade, abordando o aspecto temático de diferentes pontos de vista.
Ecoesão e coerência baseadas no emprego de expressões típicas da lógica textual.
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GabaritoD — intertextualidade, abordando o aspecto temático de diferentes pontos de vista.
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Cotejo entre texto e charge: intertextualidade temática
Gabarito: letra D. A questão pede que se identifique a relação entre o texto de Robert H. Srour e a charge de Lor, e a resposta correta é a intertextualidade, pois ambos abordam o mesmo tema — a corrupção e a honestidade —, mas a partir de pontos de vista diferentes: o texto argumenta racionalmente contra a generalização de que "todo mundo tem um preço", enquanto a charge, intitulada "Os desmandamentos", explora o tema de forma crítica e irônica, provavelmente satirizando a corrupção. A relação entre os textos é de diálogo temático, não de dependência, analogia corretiva, descontinuidade ou mera coesão interna.
O comando: identificar a relação entre textos
O enunciado pede que se coteje (compare) o texto de Srour com a charge de Lor e se identifique a relação existente entre eles. Isso não é uma questão de compreensão literal de um único texto, mas de análise intertextual: perceber como dois textos dialogam, seja por tema, por crítica, por complementaridade ou por oposição. A banca quer que o candidato reconheça o tipo de vínculo que une as duas produções.
O texto: a tese contra a generalização da corrupção
O texto de Srour é um texto dissertativo-argumentativo que refuta a ideia de senso comum de que "todo mundo tem um preço". O autor argumenta que a generalização é abusiva, pois nem todos são corrompidos, e que as condições históricas e sociais não oferecem as mesmas tentações a todos. Ele conclui que muitos não são corrompidos simplesmente porque "não vale a pena suborná-los". O texto é uma defesa racional da existência de pessoas honestas, mesmo em sociedades mercantis. A charge de Lor, por sua vez, intitulada "Os desmandamentos", aborda o mesmo tema — a corrupção —, mas de forma crítica e irônica, provavelmente denunciando a corrupção generalizada no poder. A charge não argumenta; ela satiriza e denuncia por meio da imagem.
A técnica: o que é intertextualidade
Intertextualidade é o diálogo entre textos, a relação que um texto estabelece com outro, seja por retomada, por oposição, por paródia, por citação ou por abordagem do mesmo tema. No caso, o texto e a charge não se citam diretamente, mas dialogam tematicamente: ambos tratam da corrupção e da honestidade, cada um à sua maneira. O texto de Srour oferece uma análise racional e a charge oferece uma crítica visual e irônica. São pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tangência e a troca de conceito. Alternativas como "analogia" e "interdependência" parecem plausíveis, mas não descrevem com precisão a relação de diálogo temático entre textos de naturezas diferentes (um argumentativo, outro visual). A alternativa correta exige reconhecer que a relação é de intertextualidade, não de mera semelhança ou dependência.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (tangência). A alternativa afirma que há "interdependência, pois ambos expõem objetivamente suas teses". O texto de Srour expõe uma tese de forma argumentativa, mas a charge não expõe uma tese de forma objetiva; ela satiriza e denuncia por meio da imagem. Não há interdependência, pois um texto não depende do outro para existir ou ser compreendido. A charge não é uma ilustração do texto, nem o texto explica a charge. A relação é de diálogo temático, não de dependência.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa fala em "analogia, replicando ideias implícitas e corrigindo desvios de conteúdo". Não há analogia entre os textos, pois analogia pressupõe uma semelhança estrutural ou de raciocínio. O texto argumenta contra a generalização, enquanto a charge provavelmente denuncia a corrupção, o que pode até ser uma visão mais pessimista. Não há "correção de desvios de conteúdo" — a charge não corrige o texto, nem o texto corrige a charge. A relação é de abordagem temática, não de replicação ou correção.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (tangência). A alternativa fala em "descontinuidade, centradas na questão do poder ilimitado das corporações". O texto de Srour não trata do poder das corporações; trata da corrupção individual e das condições sociais que a propiciam. A charge, embora possa criticar o poder, não é necessariamente sobre corporações. Além disso, "descontinuidade" não é uma relação intertextual; é a ausência de relação. Os textos dialogam pelo tema, logo não há descontinuidade.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Intertextualidade é a relação correta. O texto de Srour e a charge de Lor abordam o mesmo tema — a corrupção e a honestidade —, mas de pontos de vista diferentes: o texto faz uma análise racional e a charge faz uma crítica irônica. Essa é a definição de intertextualidade: o diálogo entre textos que se relacionam tematicamente, sem necessariamente se citarem. A alternativa "intertextualidade, abordando o aspecto temático de diferentes pontos de vista" descreve com precisão essa relação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa fala em "coesão e coerência baseadas no emprego de expressões típicas da lógica textual". Coesão e coerência são propriedades internas de um texto, que garantem sua unidade e sentido. A questão pede a relação entre dois textos, não a qualidade interna de um deles. Além disso, a charge não emprega "expressões típicas da lógica textual", pois é uma produção visual. A alternativa confunde relação intertextual com propriedade textual. Conclusão: a relação entre o texto e a charge é de intertextualidade temática: ambos tratam da corrupção, mas de pontos de vista diferentes — o texto argumenta racionalmente, a charge satiriza. As demais alternativas ou tangenciam o tema, ou trocam o conceito de relação intertextual por outros (interdependência, analogia, descontinuidade, coesão).
PEGA ESSA DICA!
Ao comparar textos, pergunte-se: eles dialogam sobre o mesmo tema? Se sim, há intertextualidade. Se um depende do outro para ser entendido, há interdependência. Se um repete o outro, há paráfrase. Se um critica o outro, há paródia ou ironia. A relação correta é a que descreve o tipo de vínculo entre eles.