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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — VUNESP 2023

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
vu184552
Banca
VUNESP
Órgão
TCM SP
Ano
2023
Cargo
ATCE ( )

Dialética erística é a arte de discutir, mais precisamente a arte de discutir de modo a vencer, e isso per fas et per nefas (por meios lícitos ou ilícitos). De fato, é possível ter razão objetivamente no que diz respeito à coisa mesma, e não tê-la aos olhos dos presentes e inclusive aos próprios olhos.

 

Assim ocorre, por exemplo, quando o adversário refuta minha prova e isso é tomado como uma refutação da tese mesma, em cujo favor se poderiam aduzir outras provas. Neste caso, naturalmente, a situação do adversário é inversa àquela que mencionamos: ele parece ter razão, ainda que objetivamente não a tenha. Por conseguinte, são duas coisas distintas a verdade objetiva de uma proposição e sua validade na aprovação dos contendores e ouvintes. A esta última é que a dialética se refere.

 

Donde provém isso? Da perversidade natural do gênero humano. Se esta não existisse, se no nosso fundo fôssemos honestos, em todo debate tentaríamos fazer a verdade aparecer, sem nos preocupar com que ela estivesse conforme à opinião que sustentávamos no começo ou com a do outro; isso seria indiferente ou, em todo caso, de importância muito secundária. No entanto, é isso o que se torna o principal.

 

Nossa vaidade congênita, especialmente suscetível em tudo o que diz respeito à capacidade intelectual, não quer aceitar que aquilo que num primeiro momento sustentávamos como verdadeiro se mostre falso, e verdadeiro aquilo que o adversário sustentava. Portanto, cada um deveria preocupar-se unicamente em formular juízos verdadeiros. Para isso, deveria pensar primeiro e falar depois. Mas, na maioria das pessoas, à vaidade inata associa-se a verborragia e uma inata deslealdade. Falam antes de ter pensado e, quando, depois, se dão conta de que sua afirmativa era falsa e não tinham razão, pretendem que pareça como se fosse ao contrário. O interesse pela verdade, que na maior parte dos casos deveria ser o único motivo para sustentar o que foi afirmado como verdade, cede por completo o passo ao interesse da vaidade.

 

O verdadeiro tem de parecer falso e o falso, verdadeiro.

 

(Arthur Schopenhauer. Como vencer um debate sem precisar ter razão)

Assinale a alternativa que identifica, correta e respectivamente, as relações coesivas estabelecidas entre os enunciados pelas expressões destacadas no parágrafo.
  1. AApresentação de nova ideia; oposição; conclusão.
  2. BReconsideração de afirmação anterior; condição; explicação.
  3. CSeleção de trecho mencionado; contestação; dedução.
  4. DRetomada de ideia anterior; concessão; consequência.
  5. EAntecipação de informação; discordância; inferência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Retomada de ideia anterior; concessão; consequência.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relações coesivas: anáfora, concessão e consequência

Gabarito: letra D. A questão pede que você identifique, correta e respectivamente, as relações coesivas estabelecidas pelas expressões destacadas no parágrafo. A alternativa D acerta ao classificar a primeira expressão como retomada de ideia anterior (anáfora), a segunda como concessão (embora) e a terceira como consequência (portanto). A pista decisiva está no valor semântico de cada conectivo: "isso" retoma o que foi dito antes; "embora" introduz uma ressalva (concessão); "portanto" introduz uma conclusão que é também consequência lógica do que foi exposto.

O comando: identificar relações coesivas

O verbo "identifica" indica que a tarefa é de reconhecimento — você deve nomear a função coesiva de cada expressão destacada, não interpretar o conteúdo do texto. Isso exige domínio de dois tipos de coesão:

  • Coesão referencial: quando um termo retoma (anáfora) ou antecipa (catáfora) outro, evitando repetição. Ex.: "isso" retoma a ideia anterior.

  • Coesão sequencial: quando um conectivo estabelece relação lógica entre enunciados (causa, consequência, oposição, concessão, etc.). Ex.: "embora" marca concessão; "portanto" marca consequência/conclusão.

A banca mistura os nomes das relações para confundir: "oposição" (mas) não é o mesmo que "concessão" (embora), e "conclusão" (logo) não é exatamente "consequência" (portanto), embora sejam próximas.

O texto: onde mora a resposta

No parágrafo em questão, as expressões destacadas são:

  1. "isso" — pronome demonstrativo que retoma a ideia anterior: a distinção entre verdade objetiva e validade na aprovação dos contendores. É uma anáfora (retomada de ideia anterior).

  1. "embora" — conjunção concessiva. No trecho "embora objetivamente não a tenha", introduz uma ressalva (concessão): reconhece que o adversário parece ter razão, mas não a tem de fato.

  1. "portanto" — conjunção conclusiva. Em "Portanto, cada um deveria preocupar-se unicamente em formular juízos verdadeiros", introduz uma consequência lógica do que foi dito antes (a vaidade nos impede de aceitar que estávamos errados).

A técnica: distinguir concessão de oposição, consequência de conclusão

A pegadinha central é a troca de termos:

  • Concessão (embora, ainda que, mesmo que) expressa um fato que poderia impedir a ação, mas não impede. Ex.: "Embora chova, sairei." Há uma ressalva, não um contraste direto.

  • Oposição (mas, porém, contudo) expressa contraste direto entre duas ideias. Ex.: "Quero sair, mas está chovendo."

No texto, "embora objetivamente não a tenha" é concessão: o adversário parece ter razão, apesar de não ter. Não é um "mas" que opõe duas afirmações equivalentes.

  • Consequência (portanto, logo, por isso) expressa um efeito que decorre de uma causa. Ex.: "Estudou muito, portanto passou."

  • Conclusão (logo, pois, portanto) é um tipo de consequência, mas a banca distingue: "consequência" é o efeito lógico; "conclusão" é o fechamento de um raciocínio. Aqui, "portanto" conclui o raciocínio sobre a vaidade, mas o efeito é uma consequência prática (deveria pensar antes de falar).

Análise das alternativas

Coesão referencial
  • 1Anáfora (retoma)
    • "isso"
  • 2Catáfora (antecipa)
  • 3Coesão sequencial
    • Concessão (embora)
      • Ressalva que não impede
    • Consequência (portanto)
      • Efeito lógico
    • Oposição (mas)
      • Contraste direto
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Apresentação de nova ideia; oposição; conclusão.

Erro: "isso" não apresenta ideia nova — retoma ideia anterior (anáfora). "Embora" não é oposição, é concessão. "Portanto" pode ser conclusão, mas a banca pede a relação correta e respectiva; como as duas primeiras estão erradas, a alternativa cai.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Reconsideração de afirmação anterior; condição; explicação.

Erro: "isso" não é reconsideração, é retomada. "Embora" não expressa condição (se), expressa concessão. "Portanto" não explica, conclui.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Seleção de trecho mencionado; contestação; dedução.

Erro: "isso" não seleciona, retoma. "Embora" não contesta, faz ressalva. "Portanto" não é dedução (inferência), é consequência.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Retomada de ideia anterior; concessão; consequência.

Correta: "isso" retoma a ideia anterior (anáfora); "embora" introduz concessão; "portanto" introduz consequência. Tudo ancorado no texto:

"ele parece ter razão, ainda que objetivamente não a tenha" — "ainda que" é sinônimo de "embora", marcando concessão.

"Portanto, cada um deveria preocupar-se unicamente em formular juízos verdadeiros." — consequência do raciocínio anterior.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Antecipação de informação; discordância; inferência.

Erro: "isso" não antecipa (catáfora), retoma (anáfora). "Embora" não discorda, faz concessão. "Portanto" não é inferência (dedução), é consequência.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de nomear com precisão as relações coesivas. A regra de ouro: anáfora retoma o que veio antes; concessão (embora) faz ressalva; consequência (portanto) expressa efeito. Não confunda concessão com oposição, nem consequência com inferência.

Gabarito: letra D

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