Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184555
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Marília
Ano
2023
Cargo
Ass (Araçatuba)

Repetir histórias

 

Se você convive com alguém há algum tempo, sabe que ouvirá, pelo menos algumas vezes, narrativas repetidas. Casar ou ter amigos de anos implica a consequência necessária da duplicidade. Aceite que dói menos.

 

Ninguém leva uma vida sendo sempre original. Não existe humorista profissional que consiga, todas as noites no palco, contar coisas engraçadas 100% novas.

 

Viajou, houve um perrengue que visto a distância ficou divertido? Perfeito: fará parte do seu repertório. Um conservador senhor de meia-idade que foi comigo ao Japão em um grupo contou-me que, ao abrir sua mala em busca de blazers escuros e calças tradicionais com meias pretas, encontrou farto sortimento de calcinhas de renda delicada. Ele abriu a mala (não deu detalhes de como isso ocorreu com uma que não lhe pertencia) e, estupefato, viu emergir aquele festival de intimidades de uma mulher (ou de outro homem) ... A mala trocada foi trazida no dia seguinte. O ocorrido foi contado ao grupo no café da manhã e a sisudez do nosso companheiro tradicionalista tornava tudo muito mais saboroso. Mais de uma alma zombeteira deve ter imaginado se ele teria tocado o conteúdo, quiçá inclusive experimentado algo... Bem, deixemos a picardia* de lado.

 

Histórias de viagens são boas. Claro, não são novas sempre... Pode ser que, em alguma festa, o público seja novo e o fato cômico seja recebido com receptividade alegre. O provável, também, é que sua esposa olhe para cima resignada diante da sua tentativa de stand-up*. Sim, foi dito o sim ao amor “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza” no altar; ninguém falou “na repetição incessante e tediosa de tudo”.

 

Darei uma pista boa de psicanálise. Alguém que ouve um paciente nunca deve dizer: “Você já contou esta”. Se uma pessoa insiste na mesma narrativa, provavelmente, tem algum motivo para isso. Mais importante: a cada nova recitação um detalhe muda e se torna, em si, uma pista do que está ocorrendo naquele momento. Ouvir de novo deveria aguçar seu ouvido para sutilezas e fornecer novas inspirações para conhecer alguém. Lute, com esperança, pelo seu casamento. Amar também é ouvir.

 

(Leandro Karnal. O Estado de S. Paulo, 11 de maio de 2022. Adaptado)

 

picardia: ato próprio de quem faz caçoada, zombaria.

 

stand-up: ficar de pé, tentativa de fazer graça, obter sucesso com o fato cômico contado.

Texto

   

A ideia principal apresentada e defendida pelo autor é a de que

  1. Aa repetição de histórias se dá intencionalmente pelas pessoas por falta de novidades atraentes e para fazer amigos.
  2. Bpessoas casadas que enfrentam situações cômicas em suas viagens conseguem ser originais em suas narrativas.
  3. Cassim como um psicanalista o faz, saber ouvir propicia a oportunidade de melhor conhecer e entender as pessoas.
  4. Dgrupos de amigos contam repetidamente as mesmas histórias alterando alguns detalhes a fim de proporcionar boas conversas.
  5. Eas esposas pretendem acrescentar ao juramento do casamento os votos de aceitação da repetição de histórias dos maridos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — assim como um psicanalista o faz, saber ouvir propicia a oportunidade de melhor conhecer e entender as pessoas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A ideia principal do texto: saber ouvir como caminho para conhecer o outro

Gabarito: letra C. A tese defendida pelo autor é que saber ouvir — como faz o psicanalista — permite conhecer e entender melhor as pessoas, ideia que se explicita no último parágrafo: “Ouvir de novo deveria aguçar seu ouvido para sutilezas e fornecer novas inspirações para conhecer alguém. Lute, com esperança, pelo seu casamento. Amar também é ouvir.” As demais alternativas ou citam elementos periféricos do texto (repetição de histórias, casamento, viagens) ou extrapolam o que está escrito.

O comando: o que a questão pede

O enunciado pergunta pela “ideia principal apresentada e defendida pelo autor”. Isso é uma questão de compreensão global: você precisa identificar a tese — o que o autor quer defender — e não apenas um detalhe ou um exemplo. A tese costuma aparecer na introdução ou na conclusão. Aqui, o texto começa falando da repetição de histórias como algo inevitável, mas o foco argumentativo se desloca: o autor não está apenas constatando que repetimos histórias; ele está defendendo uma postura diante disso — a de ouvir com atenção, porque a repetição revela algo sobre a pessoa.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O tema é a repetição de histórias no convívio humano. O autor desenvolve o assunto com exemplos (a mala trocada no Japão, a esposa que ouve o marido repetir a mesma piada) e, no último parágrafo, dá a pista de psicanálise: quem repete uma narrativa tem um motivo, e cada nova versão traz um detalhe revelador. A tese está claramente formulada nas frases finais:

“Ouvir de novo deveria aguçar seu ouvido para sutilezas e fornecer novas inspirações para conhecer alguém. Lute, com esperança, pelo seu casamento. Amar também é ouvir.”

É essa a ideia central: ouvir com atenção é um ato de amor e um instrumento para conhecer o outro. Todo o texto caminha para essa conclusão — a repetição não é um defeito a ser evitado, mas uma oportunidade de compreensão.

A técnica: como identificar a tese

Em textos dissertativo-argumentativos, a tese é a opinião do autor sobre o tema. Para encontrá-la, pergunte: “O que o autor quer que eu pense sobre repetir histórias?” A resposta é: “que devemos ouvir com atenção, porque isso nos ajuda a entender as pessoas”. A alternativa C captura exatamente isso, usando a comparação com o psicanalista — que o próprio texto estabelece: “Darei uma pista boa de psicanálise. Alguém que ouve um paciente nunca deve dizer: ‘Você já contou esta’.”

As alternativas erradas cometem erros típicos:

  • A extrapola: o texto não diz que a repetição é intencional “por falta de novidades atraentes” nem que serve “para fazer amigos”.

  • B restringe e distorce: o texto não afirma que pessoas casadas conseguem ser originais; pelo contrário, diz que ninguém é sempre original.

  • D restringe: o texto não diz que os grupos alteram detalhes “a fim de proporcionar boas conversas”; a alteração é apresentada como pista para conhecer a pessoa, não como recurso para animar a conversa.

  • E extrapola com ironia: o texto brinca com a ideia de acrescentar ao juramento a aceitação da repetição, mas isso é uma piada, não a tese defendida.

Tese do texto
  • 1Saber ouvir (como o psicanalista)
    • Conhecer e entender as pessoas
    • Ouvir de novo aguça o ouvido
  • 2Repetição de histórias
    • Inevitável (ninguém é sempre original)
    • Cada versão traz detalhe revelador
  • 3Conclusão
    • Amar também é ouvir
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

“a repetição de histórias se dá intencionalmente pelas pessoas por falta de novidades atraentes e para fazer amigos.”

Erro: extrapolação. O texto diz que a repetição é inevitável (“Ninguém leva uma vida sendo sempre original”), mas não afirma que ela é intencional nem que ocorre “por falta de novidades atraentes”. Também não diz que o objetivo é “fazer amigos”. A palavra “intencionalmente” e a causa “falta de novidades” não têm apoio no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“pessoas casadas que enfrentam situações cômicas em suas viagens conseguem ser originais em suas narrativas.”

Erro: contradiz o texto. O autor afirma o oposto: “Ninguém leva uma vida sendo sempre original” e “não são novas sempre”. A alternativa sugere que há originalidade, o que contraria a tese central. Além disso, restringe a situações cômicas em viagens, que são apenas exemplos, não a regra.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“assim como um psicanalista o faz, saber ouvir propicia a oportunidade de melhor conhecer e entender as pessoas.”

Correta. O texto compara explicitamente o ouvinte atento ao psicanalista: “Alguém que ouve um paciente nunca deve dizer: ‘Você já contou esta’.” E conclui: “Ouvir de novo deveria aguçar seu ouvido para sutilezas e fornecer novas inspirações para conhecer alguém.” A alternativa é uma paráfrase fiel da tese.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“grupos de amigos contam repetidamente as mesmas histórias alterando alguns detalhes a fim de proporcionar boas conversas.”

Erro: restringe e distorce. O texto menciona que “a cada nova recitação um detalhe muda”, mas isso é apresentado como pista para conhecer a pessoa, não como estratégia para “proporcionar boas conversas”. A finalidade atribuída pela alternativa não está no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“as esposas pretendem acrescentar ao juramento do casamento os votos de aceitação da repetição de histórias dos maridos.”

Erro: extrapolação com ironia. O texto brinca: “ninguém falou ‘na repetição incessante e tediosa de tudo’”. Isso é uma piada, não uma proposta séria. A alternativa toma a ironia ao pé da letra e a transforma em tese, o que é um erro clássico de interpretação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura elementos reais do texto (repetição, casamento, viagens) em alternativas que não correspondem à tese. A correta é a única que sintetiza a conclusão do autor.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a tese, procure a frase que responde “o que o autor quer defender?” — geralmente na introdução ou conclusão. Aqui, a resposta está no último parágrafo.

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/vu184555