Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184564
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Marília
Ano
2023
Cargo
Prof ( )
23 DE JUNHO Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife. Os preços era 24 e 28. Fiquei nervosa com a diferença dos preços. O açougueiro explicou-me que o filé é mais caro. Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais, gosta de sal mas o homem não dá porque custa caro. Depois de morta é dividida. Tabelada e selecionada. E morre quando o homem quer. Em vida dá dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada com estas desorganizações.
(Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada)
Texto
Ao refletir sobre a situação da vaca, a narradora do texto pondera que
Ao homem branco vive acumulando riquezas com a exploração do animal.
Ba boa vida do homem branco se desfaz quando cessa a vida do animal.
Ca busca desenfreada pelo lucro é de todo homem, independentemente de raça.
Do mundo vive de desorganizações cujas responsabilidades são desconhecidas.
Ea escravidão de um animal acaba, por fim, favorecendo a vida de todas as raças.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — o homem branco vive acumulando riquezas com a exploração do animal.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Interpretação: a exploração da vaca e a crítica social
Gabarito: letra A. Ao refletir sobre a situação da vaca, a narradora pondera que o homem branco vive acumulando riquezas com a exploração do animal — ideia sustentada diretamente no trecho final do texto: "Em vida dá dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer." A alternativa A é a única que parafraseia fielmente essa passagem, sem acrescentar, restringir ou contradizer o que está escrito.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique o que a narradora pondera (reflete, considera) ao pensar na vaca. Isso é uma questão de compreensão/recorrência: a resposta está explícita no texto, não exige inferência profunda. A banca quer que você localize a passagem em que a narradora conclui sua reflexão sobre a vida e a morte do animal e a relacione com a estrutura social que ela critica.
O texto e o movimento argumentativo
O texto é um diário (gênero narrativo) em que Carolina Maria de Jesus registra uma cena cotidiana: a compra de carne. A partir da diferença de preços entre cortes, a narradora personifica a vaca e a descreve como "a escrava do homem" — um ser que "passa a existência no mato", "se alimenta com vegetais", mas é privada até do sal porque "custa caro". A reflexão culmina na constatação da exploração total: o animal serve ao homem em vida (dá dinheiro) e depois de morta (enriquece o homem). A frase final — "Enfim, o mundo é como o branco quer" — amarra essa exploração à dominação racial: é o homem branco quem organiza o mundo em seu benefício.
A técnica que decide a questão
A chave está em não extrapolar. O texto diz, explicitamente, que a vaca "em vida dá dinheiro ao homem" e "morta enriquece o homem". A alternativa A apenas reescreve isso: "o homem branco vive acumulando riquezas com a exploração do animal". Note que "acumulando riquezas" é uma paráfrase de "dá dinheiro" + "enriquece", e "exploração" resume toda a descrição da vaca como "escrava do homem". As demais alternativas ou invertem o sentido (B), ou generalizam indevidamente (C), ou tangenciam o tema (D), ou acrescentam informação ausente (E).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que exigem acrescentar informações que o texto não traz (como a ideia de que "todas as raças" são favorecidas, ou que a "boa vida" do branco depende da vida do animal). A correta é a que não sai do texto.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. A passagem decisiva é:
"Em vida dá dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer."
A narradora afirma que a vaca, viva, "dá dinheiro ao homem" e, morta, "enriquece o homem". Isso é exatamente "acumular riquezas com a exploração do animal". O complemento "o mundo é como o branco quer" identifica o homem branco como o beneficiário dessa exploração. A alternativa A parafraseia o trecho sem acrescentar nada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que "a boa vida do homem branco se desfaz quando cessa a vida do animal". O texto afirma o contrário: é justamente depois de morta que a vaca "enriquece o homem". A morte do animal não desfaz a boa vida do branco; ela a consolida. A banca troca o sentido da relação: no texto, a morte é fonte de riqueza, não de perda.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida (extrapolação). A alternativa afirma que "a busca desenfreada pelo lucro é de todo homem, independentemente de raça". O texto não diz isso. A narradora é específica: "o mundo é como o branco quer". Ela atribui a exploração ao homem branco, não a "todo homem". A alternativa generaliza o alcance da crítica, transformando uma afirmação particular (o branco) em universal (todo homem). Além disso, "busca desenfreada pelo lucro" é um juízo que o texto não externa — a narradora descreve a exploração, mas não a qualifica como "desenfreada".
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: tangencia o tema (fuga ao texto). A alternativa diz que "o mundo vive de desorganizações cujas responsabilidades são desconhecidas". O texto não fala em "desorganizações" nem em "responsabilidades desconhecidas". Pelo contrário: a narradora sabe quem é o responsável — "o mundo é como o branco quer". A palavra "desorganizações" é uma distorção do que ela chama de exploração, e a ideia de responsabilidade desconhecida contradiz a atribuição explícita ao homem branco. A alternativa foge ao que o texto realmente afirma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação com opinião embutida. A alternativa afirma que "a escravidão de um animal acaba, por fim, favorecendo a vida de todas as raças". O texto não diz isso em nenhum momento. A narradora diz que a vaca "enriquece o homem" — e especifica que o mundo é "como o branco quer". Não há qualquer menção a "todas as raças" sendo favorecidas. A alternativa acrescenta uma informação que não está no texto e ainda embute uma opinião (a de que a exploração "favorece" alguém) que a autora não externou. É o clássico distrator que parece "bonito" mas não tem base textual.
Conclusão
A questão se resolve com uma pergunta simples: o texto autoriza esta afirmação, ou exige que eu acrescente algo de fora? A alternativa A é a única que não sai do texto — ela apenas reescreve, com outras palavras, a passagem em que a narradora conclui que a vaca, viva e morta, enriquece o homem branco. As demais ou invertem o sentido (B), ou generalizam (C), ou tangenciam (D), ou extrapolam (E).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ("todo", "todas", "sempre") ou que introduzem ideias novas ("desorganizações", "favorecendo todas as raças"). A resposta correta é sempre a que parafraseia o texto, sem acrescentar nem restringir.