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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184569
Banca
VUNESP
Órgão
DPE SP
Ano
2023
Cargo
ODP ( )

Casas amáveis

 

Vocês me dirão que as casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

 

Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ser humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

 

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

 

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia- -se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade.

 

Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

 

Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas — flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas — e suas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril.

 

Afinal, tudo serão arranha-céus.

 

E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas, que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes. Casas amáveis.

 

(Cecília Meireles. Escolha o seu Sonho. Adaptado)

 

Vocabulário:

  • Platibandas: espécies de mureta construída na parte mais alta das paredes externas de uma construção, para proteger e ornamentar a fachada.
  • Compoteiras: elementos ornamentais parecidos com vasos.
  • Monogramas: siglas formadas por uma ou várias letras, conjuntas ou entrelaçadas, significando um símbolo ou a inicial, ou iniciais, de um nome.
  • Cariátides: suportes arquitetônicos, originários da Grécia antiga, que se apresentavam quase sempre com a forma de uma estátua feminina e cuja função era sustentar um entablamento.
Leia o texto para responder à questão.     Nessa crônica, o narrador pondera que as casas antigas são
  1. Arelíquias urbanas que foram mais valorizadas com o advento dos arranha-céus.
  2. Bmarca de um tempo sem brilho e apelo de gentileza, ao contrário dos arranha-céus.
  3. Cvigorosas e resistentes ao tempo, capazes de se impor plenamente aos arranha-céus.
  4. Dresquícios de um tempo que, como os arranha-céus, traz tristezas e sofrimentos.
  5. Emelhores esteticamente que os arranha-céus, que se impuseram no cenário citadino.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — melhores esteticamente que os arranha-céus, que se impuseram no cenário citadino.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Casas amáveis: a valorização estética das casas antigas

Gabarito: letra E. O narrador pondera que as casas antigas são melhores esteticamente que os arranha-céus, que se impuseram no cenário citadino. A passagem que ancora essa leitura está no 5º parágrafo, quando o autor descreve os arranha-céus como "vitoriosos, frios e monótonos", em contraste com as casas antigas, que eram "expressivas, comunicantes" e "amáveis". A alternativa E é a única que captura essa oposição estética central do texto.

O comando pede uma compreensão do texto: "o narrador pondera que as casas antigas são". Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia explicitamente defendida pelo autor, sem deduções ou acréscimos. A tarefa é localizar a tese sobre as casas antigas e compará-la com o que cada alternativa afirma.

O texto de Cecília Meireles é uma crônica nostálgica que contrapõe dois cenários urbanos: as casas antigas, cheias de "mensagens amáveis", "gentileza" e "expressão", e os arranha-céus modernos, descritos como "frios e monótonos". A tese central é a superioridade estética e humana das casas antigas, que estão desaparecendo. O autor lamenta essa perda, como se vê no trecho final: "as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas".

A técnica para resolver é identificar o juízo de valor que o narrador faz sobre cada elemento. As casas antigas recebem adjetivos positivos e afetivos ("amáveis", "expressivas", "comunicantes", "alegria", "festa"), enquanto os arranha-céus recebem adjetivos negativos ("frios", "monótonos", "ausência de gentileza"). A alternativa correta precisa reproduzir essa valoração, e a letra E o faz ao afirmar que as casas são "melhores esteticamente".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão de valores. As alternativas B e D tentam fazer você acreditar que o narrador vê as casas antigas de forma negativa ("sem brilho", "tristezas"), quando na verdade o texto as enaltece. A pegadinha está em trocar o polo da valoração: o que é elogiado vira criticado.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as casas antigas foram "mais valorizadas com o advento dos arranha-céus". O texto diz exatamente o oposto: os arranha-céus estão substituindo as casas, que estão "sendo derrubadas". Não há qualquer menção a uma valorização das casas por causa dos arranha-céus. A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação entre os dois elementos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que as casas antigas são "marca de um tempo sem brilho e apelo de gentileza". O texto afirma o contrário: as casas antigas tinham "expressão de gentileza" e enchiam as ruas de "mensagens amáveis". O erro está em trocar o sinal da avaliação: o que o autor elogia (gentileza, expressão) é apresentado como ausente. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as casas antigas são "vigorosas e resistentes ao tempo, capazes de se impor plenamente aos arranha-céus". O texto mostra o contrário: as casas estão "sendo derrubadas" e os arranha-céus "se impuseram". A palavra "plenamente" é um exagero que extrapola o texto, que não sugere nenhuma capacidade de resistência das casas. A alternativa contradiz o texto e generaliza.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as casas antigas são "resquícios de um tempo que, como os arranha-céus, traz tristezas e sofrimentos". O texto não atribui tristezas ou sofrimentos às casas antigas; pelo contrário, elas são "alegria", "festa" e "gentileza". A tristeza é atribuída às ruas que ficarão sem as casas, não às casas em si. A alternativa contradiz o texto ao atribuir um sentimento negativo a algo que o autor valoriza positivamente.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que as casas antigas são "melhores esteticamente que os arranha-céus, que se impuseram no cenário citadino". Isso é uma paráfrase fiel da tese do texto. O autor descreve os arranha-céus como "frios e monótonos" e as casas como "expressivas, comunicantes" e "amáveis". A superioridade estética é evidente na linguagem valorativa. Além disso, o texto confirma que os arranha-céus "se impuseram" ao dizer que "os andaimes sobem" e que "tudo serão arranha-céus". A alternativa sintetiza a oposição central do texto sem acrescentar nada de fora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que invertem o polo da valoração. Se o autor elogia algo, a alternativa correta deve manter o elogio; se critica, deve manter a crítica. Palavras como "sem brilho", "tristezas" e "sofrimentos" são sinais de que a banca tentou inverter o sentido.

Gabarito: letra E. A resposta mora na oposição estética entre casas antigas ("expressivas, comunicantes") e arranha-céus ("frios e monótonos"), que a alternativa E reproduz com precisão.

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