Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
- Código
- vu184587
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- SAME FM
- Ano
- 2023
- Cargo
- Farm ( )
Meninos e gibis
Fomos uma geração de bons meninos. E acreditem: em boa parte por causa dos heróis dos quadrinhos. Éramos viciados em gibis. Nosso ideal do bem pode ser creditado ao Batman & Cia. Os heróis eram o exemplo máximo de bravura, doação e virtude.
Gibis abasteciam de ética o vasto campo da fantasia infantil, sem cobrar pela lição. Não era só por exigência da família, da escola ou da religião que os meninos tinham de ser bons e retos: eles queriam ser retos e bons – como os heróis.
Viviam o bem na imaginação, porque o bem era a condição do herói. A lei e a ordem eram a regra dentro da qual eles transitavam. Eram o lado certo que combatia o lado errado.
Atualmente não sei. Parei de ler gibis, só pego um ou outro da seção nostalgia. Nos anos 70 e 80, ainda surgiram heróis interessantes, mas alguns parecem cheios de ódio, como o Wolverine, ou vítimas confusas sem noção de bem e mal, como o Hulk. Complicou-se a simplicidade do bem. Na televisão, os heróis urram, gritam, destroem, torturam, estridentes como os arqui-inimigos maléficos. Não são simples e afinados com seus dons, como os heróis clássicos, são complexos, dramáticos e ambíguos, como ficou o mundo.
E a generosidade e a renúncia? Ah, os heróis antigos abriam mão de necessidades pessoais: atividades particulares, noivas, afetos, bens – tudo ficava em segundo plano. E a modéstia? Muitos tinham uma identidade secreta, não visavam ao aplauso pessoal. Longe deles a pretensão do brilho e a tentação das revistas de celebridades. E a coragem? Nada havia que os intimidasse. Não conheço ninguém assim, mas acalento a expectativa otimista de que essa generosidade um dia se manifeste não em mim (modesto de santidade e preguiçoso de ações), mas em alguém.
É difícil avaliar quanto dessas virtudes resistiu dentro de nós, mas as habilidades e os superpoderes certamente convivem conosco no campo dos sonhos e delírios.
(Ivan Angelo. https://vejasp.abril.com.br/cidades/meninos-gibis. Adaptado)
- AO autor declara que pertenceu a uma geração de bons meninos, porque consumia largamente gibis devido às limitadas opções de diversão.
- BOs gibis publicados à época em que o autor era um garoto preenchiam o imaginário infantil com modelos de heróis calcados na ética e na retidão.
- CAs crianças dos anos 70 e 80 espelhavam-se nas personagens dos gibis em decorrência da educação moralizante vinda da família e da escola.
- DOs enredos das histórias em quadrinhos tornaram-se mais complexos e cheios de violência, evidenciando uma discrepância em relação à sociedade atual.
- EPersonagens mais recentes, como Wolverine e Hulk, não cativam o interesse do autor, pois eles não têm a coragem e a generosidade dos heróis clássicos.