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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184613
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sertãozinho SP
Ano
2023
Cargo
CB (Sertãozinho)

Para ler ao som de Vinicius de Moraes

 

Conheci o Rio de Janeiro em 1968. Tarde demais, pensei na época. Já não havia o Cassino da Urca, estrelas de cinema deixando o decote cair nos bailes do Copa ou reuniões de bossa nova na rua Nascimento e Silva cento e sete cantadas por Vinicius de Moraes.

 

O que eu não sabia nem poderia saber – em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro – é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! E quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt, largar roupas e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes – e limpas – do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.

 

Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo, portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema novo deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a deteriorar-se irremediavelmente.

 

Irremediável – eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal – irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal.

 

(Caio Fernando de Abreu, Pequenas epifanias. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.     Ao retratar o Rio de Janeiro dos seus 20 anos, o narrador enfatiza
  1. Aa imoralidade dos artistas, que o fizera abandonar a vida cultural.
  2. Bo próprio saudosismo, que se opõe ao descaso que nutria pela cidade.
  3. Ca decadência social, que a cidade absorvia com intensidade na época.
  4. Da vida boêmia na cidade, que se fortalecia com as belezas naturais.
  5. Eo ufanismo dos cariocas, que faziam a miséria tornar-se glamurosa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — a vida boêmia na cidade, que se fortalecia com as belezas naturais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O que o narrador enfatiza ao retratar o Rio de Janeiro dos seus 20 anos

Gabarito: letra D. Ao retratar o Rio de Janeiro dos seus 20 anos, o narrador enfatiza a vida boêmia na cidade, que se fortalecia com as belezas naturais. Essa é a síntese fiel do segundo parágrafo, em que ele descreve noites de chope, encontros com artistas, mergulhos no mar e a beleza das ondas verdes e limpas do Leblon. As demais alternativas ou extrapolam o texto (A, C, E) ou o contradizem (B).

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique o que o narrador enfatiza ao retratar o Rio de Janeiro dos seus 20 anos. Isso é uma questão de compreensão (localizar e sintetizar a informação central), não de inferência profunda. A resposta deve estar ancorada no texto, sem acrescentar opiniões ou julgamentos que o autor não expressou. A banca quer que o candidato perceba o tom nostálgico e descritivo do narrador, que exalta a boemia e a natureza da cidade.

O texto e a ênfase do narrador

O texto é uma crônica memorialista de Caio Fernando de Abreu. O narrador, ao lembrar do Rio de 1968, descreve um cenário de vida boêmia intensa: bares, encontros com artistas, madrugadas em Copacabana, e a beleza natural da cidade. Veja o trecho central:

"Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! E quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt, largar roupas e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes – e limpas – do Leblon."

Aqui, o narrador enumera atividades boêmias (beber chope, ver artistas, fumar no murinho, varar madrugadas) e as associa às belezas naturais (as ondas verdes e limpas do Leblon). A ênfase não está na decadência, na imoralidade ou no ufanismo, mas na vida boêmia que se fortalece com a natureza.

A técnica: compreensão vs. extrapolação

A questão é de compreensão — o que está explícito no texto. A alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel do que o narrador enfatiza. As incorretas, em geral, extrapolam (acrescentam ideias que não estão no texto) ou contradizem (invertem o sentido).

Dica: grife as palavras-chave do enunciado ("enfatiza") e busque no texto o trecho que sintetiza essa ênfase. Desconfie de alternativas que tragam julgamentos morais (imoralidade, ufanismo) ou generalizações (decadência social) que o autor não faz.

Alternativa A — ❌ Incorreta

a imoralidade dos artistas, que o fizera abandonar a vida cultural.

O texto não fala em imoralidade, nem em abandono da vida cultural. O narrador descreve os artistas com admiração ("olha, meu Deus, a Nara Leão!") e não menciona ter abandonado nada. A alternativa extrapola ao atribuir um julgamento moral que não existe no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

o próprio saudosismo, que se opõe ao descaso que nutria pela cidade.

O narrador não nutria descaso pela cidade; pelo contrário, ele a exalta ("Que paraíso aquela cidade maravilhosa"). A alternativa contradiz o texto ao afirmar que havia descaso, quando há clara admiração e saudade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

a decadência social, que a cidade absorvia com intensidade na época.

O texto não fala em decadência social na época dos 20 anos do narrador. A decadência é mencionada apenas em relação ao presente ("aquele Rio a este de agora"), não ao passado retratado. A alternativa extrapola ao transferir a decadência atual para o passado.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

a vida boêmia na cidade, que se fortalecia com as belezas naturais.

Esta é a síntese fiel do segundo parágrafo. O narrador descreve a vida boêmia (bares, artistas, madrugadas) e a associa às belezas naturais ("ondas verdes – e limpas – do Leblon"). A alternativa parafraseia o texto sem acrescentar nada de fora.

Alternativa E — ❌ Incorreta

o ufanismo dos cariocas, que faziam a miséria tornar-se glamurosa.

O texto não fala em ufanismo dos cariocas, nem em miséria glamourizada. A menção à "poetização da miséria" é uma crítica do narrador ao cinema novo, não uma exaltação. A alternativa extrapola ao inverter o sentido crítico do trecho.

Conclusão

A questão exige compreensão — identificar a ênfase do narrador sem extrapolar. A alternativa D é a única que sintetiza o que o texto realmente enfatiza: a vida boêmia fortalecida pelas belezas naturais. As demais ou acrescentam ideias (A, C, E) ou contradizem o texto (B).

PEGA ESSA DICA!

Ao responder "o que o texto enfatiza", busque o trecho-síntese — geralmente no início ou no fim do parágrafo. Desconfie de alternativas que tragam julgamentos (imoralidade, ufanismo) ou generalizações (decadência) que o autor não faz.

Gabarito: letra D

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