Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184615
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sertãozinho SP
Ano
2023
Cargo
CB (Sertãozinho)
Para ler ao som de Vinicius de Moraes
Conheci o Rio de Janeiro em 1968. Tarde demais, pensei na época. Já não havia o Cassino da Urca, estrelas de cinema deixando o decote cair nos bailes do Copa ou reuniões de bossa nova na rua Nascimento e Silva cento e sete cantadas por Vinicius de Moraes.
O que eu não sabia nem poderia saber – em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro – é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! E quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt, largar roupas e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes – e limpas – do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.
Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo, portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema novo deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a deteriorar-se irremediavelmente.
Irremediável – eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal – irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal.
(Caio Fernando de Abreu, Pequenas epifanias. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão. Na passagem – Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! –, a seleção vocabular e a pontuação indicam que o narrador relata a situação com
Airreverência, recorrendo a informações que exemplificam a ideia de que era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
Bironia, recorrendo a informações que questionam a ideia de que era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
Cadmiração, recorrendo a informações que corroboram a ideia de que não era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
Ddescaso, recorrendo a informações que justificam a ideia de que não era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
Esofreguidão, recorrendo a informações que retificam a ideia de que não era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
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GabaritoC — admiração, recorrendo a informações que corroboram a ideia de que não era tarde para ter conhecido o Rio de Janeiro.
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Admiração e a descoberta de que era cedo
Gabarito: letra C. A seleção vocabular e a pontuação do trecho indicam admiração, e as informações enumeradas corroboram a ideia de que não era tarde para conhecer o Rio — exatamente o que o narrador afirma no 2º parágrafo: "embora parecesse tarde, era ainda cedo". A passagem citada no enunciado é a prova viva dessa tese: o narrador desfia um rosário de encantos da cidade com exclamações e interjeições de espanto positivo, não de lamento ou ironia.
O comando pede que você identifique o efeito de sentido produzido pela escolha de palavras e pela pontuação — uma tarefa de interpretação (inferir o tom), não de localização literal. Para resolvê-la, é preciso cruzar duas pistas: (1) o que as palavras e os sinais de pontuação expressam por si mesmos; (2) a função argumentativa que esse trecho cumpre dentro do texto — e é aqui que mora a pegadinha.
O texto todo é construído sobre uma virada: o narrador começa achando que chegou tarde ao Rio ("Tarde demais, pensei na época"), mas logo descobre que estava enganado. A tese central está explícita no 2º parágrafo:
"é que embora parecesse tarde, era ainda cedo"
O trecho do enunciado — "Que paraíso aquela cidade maravilhosa, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão!" — é a materialização dessa descoberta. As palavras "paraíso" e "maravilhosa" são elogios absolutos; as interjeições "nossa", "olha", "meu Deus" e o ponto de exclamação final traduzem encantamento, espanto admirado. Não há ironia (não há inversão de sentido), não há descaso (há envolvimento emocional), não há sofreguidão (não há pressa ou ansiedade). Há admiração — e tudo o que é enumerado serve para confirmar que era cedo, não tarde.
A técnica decisiva: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza. A alternativa correta é a única em que o sentimento nomeado (admiração) e a função argumentativa (corroborar a tese de que não era tarde) estão ambos ancorados no texto. As distratoras erram em um dos dois eixos — ou o sentimento não bate, ou a função está invertida.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura os dois eixos da questão — o tom (admiração/ironia/descaso) e a função argumentativa (corroborar/retificar/questionar). A alternativa B, por exemplo, acerta a função (questionar a ideia de que era tarde) mas erra o tom (não há ironia). A alternativa E acerta o tom? Não — e ainda troca "corroborar" por "retificar".
Efeito de sentido do trecho: Tom (sentimento expresso) (Admiração (palavras e pontuação), Não é ironia (sem inversão), Não é descaso (há envolvimento), Não é sofreguidão (sem pressa)); Função argumentativa (Corrobora a tese "era cedo", Não questiona nem retifica); Pegadinha da banca (Mistura tom × função, B acerta função, erra tom)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (função invertida). A alternativa diz que as informações "exemplificam a ideia de que era tarde" — mas o trecho faz exatamente o oposto: ele exemplifica a ideia de que era cedo. O narrador enumera as maravilhas do Rio justamente para mostrar que "embora parecesse tarde, era ainda cedo". Além disso, o tom de "irreverência" não se sustenta: as exclamações e interjeições expressam admiração, não deboche ou desrespeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (tom errado). A função argumentativa está correta — as informações de fato "questionam a ideia de que era tarde" (elas mostram que era cedo). Mas o tom de ironia não existe no trecho. Ironia é dizer o contrário do que se quer significar; aqui, o narrador diz exatamente o que sente: "Que paraíso", "cidade maravilhosa", "meu Deus" — tudo é elogio sincero, sem inversão de sentido. A banca oferece esta alternativa para seduzir quem percebeu a função correta mas não atentou para o tom.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única inteiramente sustentada. O tom de admiração está nas palavras e na pontuação: "Que paraíso", "cidade maravilhosa", as interjeições "nossa", "olha", "meu Deus" e o ponto de exclamação final — tudo expressa encantamento. E a função argumentativa está correta: as informações corroboram (confirmam, reforçam) a ideia de que não era tarde, pois o narrador descreve com entusiasmo as experiências que viveu no Rio, mostrando que chegou em boa hora. A passagem que ancora a tese é o 2º parágrafo: "embora parecesse tarde, era ainda cedo".
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (tom errado). "Descaso" é indiferença, falta de interesse — o oposto do que o trecho expressa. O narrador se envolve emocionalmente com a lembrança, usa exclamações e interjeições de espanto positivo. Não há nenhuma marca de desprezo ou desinteresse. A função argumentativa (justificar que não era tarde) até se aproxima, mas o tom invalida a alternativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (função errada). "Sofreguidão" é avidez, pressa, ansiedade — não é o que as exclamações transmitem (transmitem admiração). E "retificar" significa corrigir algo que estava errado; o narrador não está corrigindo a ideia de que não era tarde — ele está confirmando essa ideia, que é a tese que ele mesmo defende. O verbo correto seria "corroborar", como na alternativa C.
Conclusão: a questão ensina a separar tom (o sentimento expresso) de função argumentativa (o papel do trecho na defesa da tese). A alternativa correta precisa acertar os dois. Teste sempre: o texto autoriza este sentimento? E este trecho confirma ou contradiz a tese central? Aqui, a tese é "era cedo" e o trecho a confirma com admiração — letra C.