Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184625
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2023
Cargo
Arqueo (Sorocaba)

Quando eu tinha a tua idade

 

Ai, Senhor, não nos deixe cair na tentação de dizer ao nosso filho ou à nossa filha qualquer coisa que comece com “Quando eu tinha a tua idade...”

 

Dificilmente haverá, nas sempre difíceis relações entre pais e filhos, frase mais perigosa. Para começar, ela alarga o gap entre as gerações, este fosso que separa adultos de crianças ou adolescentes, e cuja largura, nesta era de rápidas transformações, se mede em anos-luz. No entanto, os pais a usam, é uma coisa automática. Olhamos o quarto desarrumado e observamos: “Quando eu tinha a tua idade, fazia a cama sozinho”. Examinamos a redação feita para a escola e sacudimos a cabeça: “Quando eu tinha a tua idade, não cometia esses erros de ortografia. E a minha letra era muito melhor”.

 

Sim, a nossa letra era melhor. Sim, íamos sozinhos até o centro da cidade. Sim, aos dez anos já trabalhávamos e sustentávamos toda a família. Sim, éramos mais cultos, mais politizados, mais atentos. Conhecíamos toda a obra de Balzac, entoávamos todas as sinfonias de Beethoven. Éramos o máximo.

 

Mas éramos mesmo? Se entrássemos na máquina do tempo e recuássemos algumas décadas, será que teríamos a mesma impressão? Sim, íamos até o centro da cidade, mas a cidade era menor, mais fácil de ser percorrida. Sim, trabalhávamos – mas havia outra alternativa?

 

Cada geração recorre às habilidades de que necessita. Sabíamos usar um martelo ou consertar um abajur, mas eles dedilham um computador com a destreza de um virtuose. Nós jogávamos futebol na várzea, mas agora que a febre imobiliária acabou com os terrenos baldios, os garotos fazem prodígios com o skate nuns poucos metros quadrados.

 

Bem, mas então não podemos falar aos nossos filhos sobre a nossa infância? Longe disso. Há uma coisa que podemos compartilhar com eles; os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (ai, as limitações da condição humana), jazem intactos, num cantinho da nossa alma. São estes sonhos que devemos mobilizar como testemunhas de nosso diálogo com os jovens.

 

Fale a uma criança sobre aquilo que você esperava ser; fale de suas fantasias:

 

– Quando eu tinha a tua idade, meu filho, eu era criança como tu. E era bom.

 

(Coleção melhores crônicas: Moacyr Scliar. Org. Luís Augusto Fischer. Global Editora. Adaptado)

Leia a crônica de Moacyr Scliar para responder a questão.     Pela leitura do texto, pode-se concluir corretamente que, para o cronista, os pais devem
  1. Acompartilhar com os filhos os projetos que não conseguiram realizar, de maneira a incentivar os últimos a concretizá-los pelos genitores.
  2. Bomitir fatos de sua própria infância e adolescência, pois se comprovou que eles nada acrescentam para a formação das novas gerações.
  3. Cmostrar aos filhos que, há algumas décadas, os jovens rapidamente adquiriam autonomia, pois eram mais decididos a transformar fantasias em realidade.
  4. Dconstruir uma relação com os filhos pautada na cumplicidade e na franqueza acerca dos sucessos e dos fracassos.
  5. Ereconhecer o talento dos filhos, porém ainda preferir o autoritarismo ao total permissivismo no processo educativo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — construir uma relação com os filhos pautada na cumplicidade e na franqueza acerca dos sucessos e dos fracassos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A tese do cronista sobre a relação entre pais e filhos

Gabarito: letra D. Para o cronista, os pais devem construir uma relação com os filhos pautada na cumplicidade e na franqueza acerca dos sucessos e dos fracassos — é o que se depreende do trecho final, em que ele propõe compartilhar os sonhos (inclusive os irrealizados) como testemunhas do diálogo com os jovens. A alternativa D é a única que sintetiza essa proposta sem acrescentar nada de fora do texto.

O comando pede uma conclusão a partir da leitura — ou seja, uma inferência ancorada no que o autor defende, não uma informação literal. A tese do cronista está no desfecho: depois de criticar a frase “Quando eu tinha a tua idade...” e de relativizar as comparações entre gerações, ele afirma que há algo que os pais podem compartilhar: os sonhos que tiveram, mesmo os não realizados. É essa a base da resposta.

O texto caminha em três movimentos: (1) critica a frase que abre com “Quando eu tinha a tua idade...”, porque alarga o fosso entre gerações; (2) mostra que as comparações são injustas, pois cada geração tem suas habilidades; (3) propõe o que realmente importa: falar dos sonhos, das fantasias, da própria infância com honestidade. A alternativa D captura exatamente esse terceiro movimento.

A armadilha central da questão é a extrapolação: várias alternativas pegam uma ideia do texto e a levam além do que ele diz. A letra A, por exemplo, fala em “incentivar os filhos a concretizar os sonhos dos pais” — o texto não diz isso; ele diz apenas para compartilhar os sonhos como testemunhas do diálogo. A letra B fala em “omitir fatos da infância” — o texto não defende omissão, mas sim uma nova forma de falar. A letra C atribui aos jovens de antigamente uma “autonomia” e “decisão” que o texto relativiza. A letra E introduz “autoritarismo” e “permissivismo”, termos que não aparecem no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, a letra A parece plausível porque o texto menciona “sonhos irrealizados”, mas ela acrescenta a ideia de “incentivar os filhos a concretizá-los pelos genitores” — isso não está no texto. Desconfie sempre de alternativas que completam o raciocínio do autor com informações de fora.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os pais devem compartilhar os projetos não realizados “de maneira a incentivar os últimos a concretizá-los pelos genitores”. O texto diz apenas que os sonhos devem ser “mobilizados como testemunhas de nosso diálogo com os jovens” — não há nenhuma menção a incentivar os filhos a realizar os sonhos dos pais. Isso é uma extrapolação: acrescenta uma finalidade que o autor não menciona.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa propõe “omitir fatos de sua própria infância e adolescência”. O texto não defende omissão; pelo contrário, sugere que os pais devem falar de seus sonhos e fantasias: “Fale a uma criança sobre aquilo que você esperava ser; fale de suas fantasias”. A ideia de omitir contradiz o texto, que valoriza o compartilhamento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os jovens de antigamente “rapidamente adquiriam autonomia, pois eram mais decididos a transformar fantasias em realidade”. O texto relativiza essa visão: “Sim, íamos até o centro da cidade, mas a cidade era menor, mais fácil de ser percorrida” — ou seja, a autonomia era relativa ao contexto. Além disso, a ideia de “transformar fantasias em realidade” não aparece no texto. É uma extrapolação com base em uma leitura superficial.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa sintetiza a proposta do cronista: cumplicidade e franqueza acerca dos sucessos e dos fracassos. O texto sustenta isso ao afirmar que os pais devem compartilhar os sonhos — inclusive os “na maioria irrealizados” — como forma de diálogo. A passagem decisiva é:

“Há uma coisa que podemos compartilhar com eles; os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (ai, as limitações da condição humana), jazem intactos, num cantinho da nossa alma. São estes sonhos que devemos mobilizar como testemunhas de nosso diálogo com os jovens.”

Aqui, o autor propõe uma relação baseada na franqueza (falar dos sonhos, inclusive dos fracassos) e na cumplicidade (compartilhar algo íntimo). A alternativa D é uma paráfrase fiel dessa ideia, sem acrescentar nada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em “reconhecer o talento dos filhos, porém ainda preferir o autoritarismo ao total permissivismo”. O texto não menciona autoritarismo nem permissivismo; esses termos são tangentes ao tema, mas não estão no texto. A discussão do cronista é sobre como falar da própria infância, não sobre métodos educativos autoritários ou permissivos. É uma fuga ao tema.

Conclusão: a resposta correta é a letra D, pois é a única que se ancora diretamente na proposta do cronista de compartilhar sonhos e fracassos com franqueza e cumplicidade. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o texto. Lembre-se: em questões de interpretação, a resposta mora no texto — se a alternativa exigir que você acrescente algo de fora, ela está errada.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/vu184625