Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184627
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2023
Cargo
Arqueo (Sorocaba)

Quando eu tinha a tua idade

 

Ai, Senhor, não nos deixe cair na tentação de dizer ao nosso filho ou à nossa filha qualquer coisa que comece com “Quando eu tinha a tua idade...”

 

Dificilmente haverá, nas sempre difíceis relações entre pais e filhos, frase mais perigosa. Para começar, ela alarga o gap entre as gerações, este fosso que separa adultos de crianças ou adolescentes, e cuja largura, nesta era de rápidas transformações, se mede em anos-luz. No entanto, os pais a usam, é uma coisa automática. Olhamos o quarto desarrumado e observamos: “Quando eu tinha a tua idade, fazia a cama sozinho”. Examinamos a redação feita para a escola e sacudimos a cabeça: “Quando eu tinha a tua idade, não cometia esses erros de ortografia. E a minha letra era muito melhor”.

 

Sim, a nossa letra era melhor. Sim, íamos sozinhos até o centro da cidade. Sim, aos dez anos já trabalhávamos e sustentávamos toda a família. Sim, éramos mais cultos, mais politizados, mais atentos. Conhecíamos toda a obra de Balzac, entoávamos todas as sinfonias de Beethoven. Éramos o máximo.

 

Mas éramos mesmo? Se entrássemos na máquina do tempo e recuássemos algumas décadas, será que teríamos a mesma impressão? Sim, íamos até o centro da cidade, mas a cidade era menor, mais fácil de ser percorrida. Sim, trabalhávamos – mas havia outra alternativa?

 

Cada geração recorre às habilidades de que necessita. Sabíamos usar um martelo ou consertar um abajur, mas eles dedilham um computador com a destreza de um virtuose. Nós jogávamos futebol na várzea, mas agora que a febre imobiliária acabou com os terrenos baldios, os garotos fazem prodígios com o skate nuns poucos metros quadrados.

 

Bem, mas então não podemos falar aos nossos filhos sobre a nossa infância? Longe disso. Há uma coisa que podemos compartilhar com eles; os sonhos que tivemos, e que, na maioria irrealizados (ai, as limitações da condição humana), jazem intactos, num cantinho da nossa alma. São estes sonhos que devemos mobilizar como testemunhas de nosso diálogo com os jovens.

 

Fale a uma criança sobre aquilo que você esperava ser; fale de suas fantasias:

 

– Quando eu tinha a tua idade, meu filho, eu era criança como tu. E era bom.

 

(Coleção melhores crônicas: Moacyr Scliar. Org. Luís Augusto Fischer. Global Editora. Adaptado)

Leia a crônica de Moacyr Scliar para responder a questão.     É correto afirmar que o autor expõe suas ideias na crônica por meio de um tom
  1. Abem-humorado; faz uma análise subjetiva dos fatos e comenta situações ligadas ao cotidiano.
  2. Bsaudosista; usa um vocabulário arcaico e faz um relato respeitando a cronologia dos eventos.
  3. Ccerimonioso; serve-se da linguagem literária e finaliza o texto com uma conclusão marcada pela ambiguidade.
  4. Dde advertência; narra os acontecimentos de forma imparcial e procura interagir com os interlocutores.
  5. Ede indignação; defende suas ideias com argumentos válidos e descreve um acontecimento inusitado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — bem-humorado; faz uma análise subjetiva dos fatos e comenta situações ligadas ao cotidiano.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tom da crônica: bem-humorado e subjetivo

Gabarito: letra A. O autor expõe suas ideias com um tom bem-humorado, faz uma análise subjetiva dos fatos e comenta situações ligadas ao cotidiano. Isso se prova no texto pela ironia com que trata a frase “Quando eu tinha a tua idade” e pela reflexão pessoal sobre as diferenças entre gerações, como se lê no 2º parágrafo: “Dificilmente haverá, nas sempre difíceis relações entre pais e filhos, frase mais perigosa.”

O comando pede que você identifique o tom do texto — ou seja, a atitude do autor diante do assunto. Isso é uma questão de interpretação, pois o tom não está dito explicitamente; você precisa inferi-lo a partir das escolhas de palavras, do humor e da forma como o autor conduz a reflexão. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de perceber a intenção por trás do discurso.

O texto é uma crônica, gênero que costuma partir de situações cotidianas para fazer uma reflexão leve e, muitas vezes, bem-humorada. Aqui, o autor ironiza a mania dos pais de comparar sua infância com a dos filhos, mas logo relativiza essa postura, reconhecendo que cada geração tem suas habilidades. O tom é de bem-humorado porque há exageros cômicos — como “Conhecíamos toda a obra de Balzac, entoávamos todas as sinfonias de Beethoven” — e de subjetivo porque o autor fala em primeira pessoa, expondo suas próprias opiniões e sentimentos, como em “ai, as limitações da condição humana”.

A técnica para resolver questões de tom é observar as marcas linguísticas de subjetividade: pronomes de primeira pessoa, adjetivos avaliativos, interjeições, ironia, exageros. No texto, o autor usa “Ai, Senhor” (interjeição), “frase mais perigosa” (avaliação), “Éramos o máximo” (ironia) e “ai, as limitações da condição humana” (lamento subjetivo). Tudo isso aponta para um tom leve, irônico e pessoal, típico da crônica.

A pegadinha da banca está em oferecer tons que parecem plausíveis, mas que não correspondem ao texto. Por exemplo, “saudosista” (B) parece tentador porque o autor fala da infância, mas ele não a idealiza — pelo contrário, desmonta a idealização. “Cerimonioso” (C) não combina com a linguagem coloquial e irônica. “Advertência” (D) e “indignação” (E) são tons fortes demais para um texto que termina com uma mensagem de afeto e compreensão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre tom bem-humorado e outros tons (saudosista, cerimonioso, etc.). O candidato que não percebe a ironia e a subjetividade acaba marcando B, achando que o texto é uma nostalgia da infância.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o tom, pergunte-se: qual é a atitude do autor diante do assunto? Ele ri, critica, lamenta, aconselha? As marcas de ironia e exagero indicam humor; a primeira pessoa e os adjetivos avaliativos indicam subjetividade.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A está correta porque o texto é claramente bem-humorado e subjetivo. O autor ironiza a frase “Quando eu tinha a tua idade” e a mania dos pais de comparar gerações, como em “Sim, éramos mais cultos, mais politizados, mais atentos. Conhecíamos toda a obra de Balzac, entoávamos todas as sinfonias de Beethoven. Éramos o máximo.” O exagero é uma marca de humor. Além disso, o autor fala em primeira pessoa, expõe suas opiniões e sentimentos (“ai, as limitações da condição humana”), o que caracteriza a análise subjetiva. E o tema é o cotidiano das relações entre pais e filhos, algo comum a todos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B está incorreta porque o tom não é saudosista. O autor não idealiza o passado; pelo contrário, ele desmonta a idealização: “Mas éramos mesmo? Se entrássemos na máquina do tempo e recuássemos algumas décadas, será que teríamos a mesma impressão?”. Além disso, o vocabulário não é arcaico — é coloquial e atual — e o texto não segue uma cronologia rígida; ele é uma reflexão, não um relato em ordem temporal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C está incorreta porque o tom não é cerimonioso. O autor usa uma linguagem coloquial e irônica, não formal ou solene. A conclusão não é ambígua; ela é clara e afetiva: “Quando eu tinha a tua idade, meu filho, eu era criança como tu. E era bom.” Não há ambiguidade, e sim uma mensagem de identificação e carinho.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D está incorreta porque o tom não é de advertência e o texto não é imparcial. O autor é claramente subjetivo, opinativo e bem-humorado. Ele não narra acontecimentos de forma neutra; ele comenta, ironiza e reflete. A interação com os interlocutores existe, mas não é o tom predominante.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E está incorreta porque o tom não é de indignação. O autor não está revoltado; ele está reflexivo e bem-humorado. Os argumentos são válidos, mas não há um acontecimento inusitado descrito — o texto parte de uma situação comum (pais comparando infâncias) e a desenvolve com ironia.

Conclusão: a única alternativa que captura o tom do texto é a A, pois o autor é bem-humorado, subjetivo e fala do cotidiano. As demais ou exageram o tom (D, E), ou o interpretam de forma equivocada (B, C).

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/vu184627