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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184635
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
Esc (Piracicaba)

naquela época

ainda não era possível ligar e desligar

pessoas

e você era obrigado a

conversar pessoalmente

brigar pessoalmente

amar pessoalmente

mentir pessoalmente

e demitir pessoas pessoalmente

a vida era muito mais difícil

e bela

(André Dahmer. Impressão sua: poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2021)

Leia o poema para responder à questão.     A partir da leitura do poema, é correto afirmar que o eu-lírico manifesta sobre o passado uma visão
  1. Apessimista, porque ele trata das coisas mais complexas e difíceis do quotidiano.
  2. Birônica, já que deixa claro que só é possível fazer as coisas pessoalmente.
  3. Cpositiva, pois a vida era considerada mais bela pelo fato de as coisas ocorrerem pessoalmente.
  4. Dcrítica, visto que as pessoas eram obrigadas a fazer coisas que não queriam por falta de opção.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — positiva, pois a vida era considerada mais bela pelo fato de as coisas ocorrerem pessoalmente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A visão do eu-lírico sobre o passado: entre a dificuldade e a beleza

Gabarito: letra C. O eu-lírico manifesta uma visão positiva do passado, pois, embora reconheça as dificuldades, conclui que a vida era "mais difícil e bela" justamente porque as relações e ações ocorriam pessoalmente. A passagem que ancora essa leitura é o desfecho do poema:

"a vida era muito mais difícil\n\ne bela"

O adjetivo "bela" é o ponto-chave: ele expressa um juízo de valor positivo sobre o passado, e essa beleza está diretamente ligada à impossibilidade de "ligar e desligar pessoas", ou seja, à necessidade de tudo ser feito pessoalmente.

O comando: compreensão do efeito de sentido

A questão pede que se identifique a visão que o eu-lírico manifesta sobre o passado. Não se trata de localizar uma informação explícita isolada, mas de compreender o efeito de sentido construído pelo poema como um todo. É uma questão de interpretação, pois exige que o leitor perceba a atitude (positiva, negativa, irônica etc.) do eu-lírico diante do que é narrado. O verbo "manifesta" indica que devemos buscar a tese ou o tom que o texto projeta.

O texto: a construção da ambiguidade entre dificuldade e beleza

O poema de André Dahmer descreve um passado em que não era possível "ligar e desligar pessoas", o que obrigava a "conversar pessoalmente", "brigar pessoalmente", "amar pessoalmente", "mentir pessoalmente" e "demitir pessoas pessoalmente". A repetição do advérbio "pessoalmente" cria um ritmo e enfatiza a impossibilidade de mediação tecnológica nas relações humanas.

O eu-lírico reconhece que isso tornava a vida "muito mais difícil" — há um claro reconhecimento das dificuldades e dos conflitos que a presença física impõe. No entanto, o último verso introduz uma virada: a vida era difícil "e bela". A conjunção "e" não é adversativa (não diz "mas bela"), mas aditiva: ela soma a beleza à dificuldade, sem anulá-la. A beleza não está apesar da dificuldade, mas junto dela, como parte da mesma experiência. É essa dualidade que a alternativa C captura: a visão é positiva porque a beleza é atribuída ao fato de as coisas ocorrerem pessoalmente.

A técnica: distinguir a visão do eu-lírico das dificuldades narradas

A armadilha central desta questão é confundir o reconhecimento das dificuldades com uma visão pessimista ou crítica. O eu-lírico descreve dificuldades, mas a sua avaliação final é positiva. Para resolver, é preciso separar:

  • O que é narrado: as dificuldades de um passado sem tecnologia ("obrigado a", "mais difícil").

  • A visão do eu-lírico: a avaliação subjetiva desse passado ("e bela").

A alternativa correta é a que traduz essa avaliação final. As demais ou extrapolam (atribuem ao texto uma crítica que ele não faz), ou restringem (transformam uma constatação em uma regra absoluta), ou contradizem o tom positivo do desfecho.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a visão é pessimista porque o eu-lírico trata de coisas complexas e difíceis. O erro é contradizer o texto: o eu-lírico reconhece as dificuldades, mas a sua conclusão é "e bela", um adjetivo de valor positivo. A alternativa ignora o desfecho e toma uma parte (as dificuldades) pelo todo (a visão). O texto não diz que a vida era apenas difícil; diz que era difícil e bela.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a visão é irônica e que "só é possível fazer as coisas pessoalmente". O erro é restringir/generalizar: o texto diz que "ainda não era possível ligar e desligar pessoas" e que "você era obrigado a" fazer as coisas pessoalmente. Isso descreve uma impossibilidade naquela época, não uma regra universal de que "só é possível" fazer as coisas pessoalmente. Além disso, não há ironia: o tom do poema é de constatação nostálgica, não de zombaria. A palavra "ainda" indica uma limitação temporal, não uma verdade absoluta.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a visão é positiva, pois a vida era considerada mais bela pelo fato de as coisas ocorrerem pessoalmente. Isso é exatamente o que o poema diz no desfecho:

"a vida era muito mais difícil\n\ne bela"

O adjetivo "bela" expressa um juízo positivo. E a razão dessa beleza está implícita em todo o poema: a impossibilidade de "ligar e desligar pessoas" obrigava a uma vivência pessoal e, portanto, mais autêntica e bela. A alternativa parafraseia o texto sem acrescentar nem suprimir informação: a beleza é atribuída ao "pessoalmente".

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a visão é crítica porque as pessoas eram obrigadas a fazer coisas que não queriam. O erro é extrapolar: o texto diz que "você era obrigado a conversar pessoalmente, brigar pessoalmente, amar pessoalmente, mentir pessoalmente e demitir pessoas pessoalmente". No entanto, o texto não diz que as pessoas faziam coisas que não queriam. A obrigação aqui é de modo (pessoalmente), não de conteúdo (o que fazer). O eu-lírico não critica essa obrigação; ele a apresenta como parte de uma vida que, no fim, era "bela". A alternativa acrescenta uma opinião (a de que as pessoas não queriam fazer aquilo) que o texto não sustenta.

Fechamento: a regra de ouro

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a visão do eu-lírico, procure a avaliação final do texto, não apenas a descrição dos fatos. O reconhecimento de dificuldades não implica, necessariamente, uma visão negativa — o desfecho "e bela" é a chave para a resposta.

Gabarito: letra C.

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