Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184654
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
Esc ( )

Infeliz Aniversário

 

A Branca de Neve de Disney fez 80 anos, com direito a chamada na primeira página de um jornalão e farta matéria crítica lá dentro. Curiosamente, as críticas não eram à versão Disney cujo aniversário se comemorava, mas à personagem em si, cuja data natalícia não se comemora porque pode estar no começo do século XVII, quando escrita pelo italiano Gianbattista Basile, ou nas versões orais que se perdem na névoa do tempo.

 

É um velho vício este de querer atualizar, podar, limpar, meter em moldes ideológicos as antigas narrativas que nos foram entregues pela tradição. A justificativa é sempre a mesma, proteger as inocentes criancinhas de verdades que poderiam traumatizá-las. A verdade é sempre outra, impingir às criancinhas as diretrizes sociais em voga no momento.

 

E no momento, a crítica mais frequente aos contos de fadas é a abundância de princesas suspirosas à espera do príncipe. Mas a que “contos de fadas” se refere? Nos 212 contos recolhidos pelos irmãos Grimm, há muito mais do que princesas suspirosas. Nos dois volumes de “The virago book on fairy tales”, em que a inglesa Angela Carter registrou contos do mundo inteiro, não se ouvem suspiros. Nem suspiram princesas entre as mulheres que correm com os lobos, de Pinkola Estés.

 

As princesas belas e indefesas que agora estão sendo criticadas foram uma cuidadosa e progressiva escolha social. Escolha de educadores, pais, autores de antologias, editores. Escolha doméstica, feita cada noite à beira da cama. Garimpo determinado selecionando, entre tantas narrativas, aquelas mais convenientes para firmar no imaginário infantil o modelo feminino que a sociedade queria impor.

 

Não por acaso Disney escolheu Branca de Neve para seu primeiro longa-metragem de animação. O custo era altíssimo, não poderia haver erro. E, para garantir açúcar e êxito, acrescentou o beijo.

 

Os contos maravilhosos, ou contos de fadas, atravessaram séculos, superaram inúmeras modificações sociais, venceram incontáveis ataques. Venceram justamente pela densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica com que retratam nossas vidas, nossas humanas inquietações. Querer, mais uma vez, sujeitá-los aos conceitos de ensino mais rasteiros, às interpretações mais primárias, é pura manipulação, descrença no poder do imaginário.

 

(https://www.marinacolasanti.com/. Adaptado)

Texto

   

De acordo com o texto, é correto afirmar que os contos de fadas

  1. Ase configuram em textos altamente prejudiciais ao desenvolvimento cultural e social, e o ideal é que a sociedade deixe de fazê-los circular nas escolas.
  2. Bresultam de uma visão distorcida da sociedade, e a sua escolha é ruim por deixar de lado a visão de educadores, pais, autores de antologias e editores.
  3. Cformalizaram o perfil feminino que organiza a sociedade através dos tempos, e as pessoas o usam prudentemente para resguardar a integridade psicológica das crianças.
  4. Dresgatam as experiências humanas altamente carregados de simbologia, e o melhor é deixá-los livres dos conceitos de ensino inexpressivos.
  5. Emanipularam a sociedade ao longo da história, porém as pessoas ainda devem recorrer a eles como forma de evitar problemas na formação dos jovens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — resgatam as experiências humanas altamente carregados de simbologia, e o melhor é deixá-los livres dos conceitos de ensino inexpressivos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de texto: os contos de fadas e a crítica à sua atualização

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto, pois parafraseia a tese central do autor: os contos de fadas "atravessaram séculos, superaram inúmeras modificações sociais, venceram incontáveis ataques" justamente por sua "densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica", e o autor defende que "o melhor é deixá-los livres dos conceitos de ensino inexpressivos" — exatamente o que a alternativa afirma. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações que ele não traz.

O comando pede uma questão de compreensão ("De acordo com o texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia explícita, sem deduções ou acréscimos. O texto é um artigo de opinião: a autora critica a tendência de "atualizar, podar, limpar, meter em moldes ideológicos" os contos de fadas, defendendo que eles têm valor intrínseco por sua riqueza simbólica. A tese está no último parágrafo, que é a conclusão do texto.

A técnica central aqui é ancorar cada alternativa em uma passagem específica. A alternativa correta (D) encontra apoio direto no 6º parágrafo:

"Os contos maravilhosos, ou contos de fadas, atravessaram séculos, superaram inúmeras modificações sociais, venceram incontáveis ataques. Venceram justamente pela densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica com que retratam nossas vidas, nossas humanas inquietações. Querer, mais uma vez, sujeitá-los aos conceitos de ensino mais rasteiros, às interpretações mais primárias, é pura manipulação, descrença no poder do imaginário."

A alternativa D diz que os contos "resgatam as experiências humanas altamente carregados de simbologia" (paráfrase de "riqueza simbólica com que retratam nossas vidas, nossas humanas inquietações") e que "o melhor é deixá-los livres dos conceitos de ensino inexpressivos" (paráfrase de "sujeitá-los aos conceitos de ensino mais rasteiros... é pura manipulação"). É uma reescritura fiel, sem acrescentar nada.

O gancho para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora? As alternativas A, B, C e E falham porque ou contradizem o texto, ou extrapolam com opiniões que a autora não emitiu.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que os contos são "altamente prejudiciais ao desenvolvimento cultural e social" e que o ideal é deixar de fazê-los circular. O texto diz exatamente o oposto: os contos "venceram justamente pela densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica" — ou seja, são valiosos, não prejudiciais. A autora critica quem quer retirá-los de circulação, chamando isso de "pura manipulação".

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a escolha dos contos "é ruim por deixar de lado a visão de educadores, pais, autores de antologias e editores". O texto, no 4º parágrafo, diz que essas figuras fizeram a escolha: "Escolha de educadores, pais, autores de antologias, editores. Escolha doméstica, feita cada noite à beira da cama." Ou seja, a visão deles foi considerada — eles foram os agentes da seleção. A alternativa inverte o sentido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação + opinião embutida. A alternativa diz que os contos "formalizaram o perfil feminino que organiza a sociedade através dos tempos" e que as pessoas os usam "prudentemente para resguardar a integridade psicológica das crianças". O texto diz que as princesas belas e indefesas foram uma "cuidadosa e progressiva escolha social" para "firmar no imaginário infantil o modelo feminino que a sociedade queria impor" — mas isso é uma crítica da autora, não uma aprovação. A alternativa embute um juízo positivo ("prudentemente", "resguardar") que o texto não tem; a autora chama isso de "impingir às criancinhas as diretrizes sociais em voga". Além disso, "através dos tempos" generaliza: o texto fala de um modelo específico, não de todos os tempos.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel da tese. Como provado acima, o 6º parágrafo afirma que os contos venceram "pela densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica com que retratam nossas vidas" e que sujeitá-los a "conceitos de ensino mais rasteiros" é "pura manipulação". A alternativa D reproduz exatamente isso: "resgatam as experiências humanas altamente carregados de simbologia" e "o melhor é deixá-los livres dos conceitos de ensino inexpressivos". Não há acréscimo nem supressão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que os contos "manipularam a sociedade ao longo da história". O texto diz o contrário: os contos "venceram" os ataques e as modificações sociais — eles não manipularam, eles resistiram. Além disso, a alternativa diz que as pessoas "devem recorrer a eles como forma de evitar problemas na formação dos jovens", o que não está no texto; a autora defende que os contos devem ser livres de moldes ideológicos, não que sirvam como ferramenta de formação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a contradição (A, B, E) e a opinião embutida (C) para confundir. A correta (D) é a única que parafraseia a tese sem acrescentar juízo de valor. Desconfie de alternativas que usam palavras como "prejudiciais", "ruim", "prudentemente" — elas embutem uma avaliação que o texto não faz.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife a tese (geralmente na introdução ou conclusão) e compare cada alternativa com ela. Se a alternativa diz algo que o texto não diz, ou diz o oposto, está errada — mesmo que soe verdadeiro no mundo real.

Gabarito: letra D — a única que o texto sustenta integralmente, sem extrapolar, contradizer ou embutir opinião.

Link permanente: /questoes/vu184654