Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184656
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
Esc ( )

Infeliz Aniversário

 

A Branca de Neve de Disney fez 80 anos, com direito a chamada na primeira página de um jornalão e farta matéria crítica lá dentro. Curiosamente, as críticas não eram à versão Disney cujo aniversário se comemorava, mas à personagem em si, cuja data natalícia não se comemora porque pode estar no começo do século XVII, quando escrita pelo italiano Gianbattista Basile, ou nas versões orais que se perdem na névoa do tempo.

 

É um velho vício este de querer atualizar, podar, limpar, meter em moldes ideológicos as antigas narrativas que nos foram entregues pela tradição. A justificativa é sempre a mesma, proteger as inocentes criancinhas de verdades que poderiam traumatizá-las. A verdade é sempre outra, impingir às criancinhas as diretrizes sociais em voga no momento.

 

E no momento, a crítica mais frequente aos contos de fadas é a abundância de princesas suspirosas à espera do príncipe. Mas a que “contos de fadas” se refere? Nos 212 contos recolhidos pelos irmãos Grimm, há muito mais do que princesas suspirosas. Nos dois volumes de “The virago book on fairy tales”, em que a inglesa Angela Carter registrou contos do mundo inteiro, não se ouvem suspiros. Nem suspiram princesas entre as mulheres que correm com os lobos, de Pinkola Estés.

 

As princesas belas e indefesas que agora estão sendo criticadas foram uma cuidadosa e progressiva escolha social. Escolha de educadores, pais, autores de antologias, editores. Escolha doméstica, feita cada noite à beira da cama. Garimpo determinado selecionando, entre tantas narrativas, aquelas mais convenientes para firmar no imaginário infantil o modelo feminino que a sociedade queria impor.

 

Não por acaso Disney escolheu Branca de Neve para seu primeiro longa-metragem de animação. O custo era altíssimo, não poderia haver erro. E, para garantir açúcar e êxito, acrescentou o beijo.

 

Os contos maravilhosos, ou contos de fadas, atravessaram séculos, superaram inúmeras modificações sociais, venceram incontáveis ataques. Venceram justamente pela densidade do seu conteúdo, pela riqueza simbólica com que retratam nossas vidas, nossas humanas inquietações. Querer, mais uma vez, sujeitá-los aos conceitos de ensino mais rasteiros, às interpretações mais primárias, é pura manipulação, descrença no poder do imaginário.

 

(https://www.marinacolasanti.com/. Adaptado)

Texto

   

Na frase que inicia o texto – A Branca de Neve de Disney fez 80 anos, com direito a chamada na primeira página de um jornalão e farta matéria crítica lá dentro. –, o emprego do substantivo destacado reforça

  1. Aa irrelevância do tema e do meio de comunicação.
  2. Bo desprezo das pessoas pelo jornal referido.
  3. Ca importância do veículo de comunicação.
  4. Do exagero da matéria no jornal em questão.
  5. Ea grande repercussão atingida pela matéria.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a importância do veículo de comunicação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor expressivo do substantivo "jornalão"

Gabarito: letra C. O emprego do substantivo "jornalão" reforça a importância do veículo de comunicação — o sufixo aumentativo "-ão" não indica apenas tamanho, mas prestígio e relevância do jornal que dedicou chamada de primeira página e farta matéria crítica ao aniversário da Branca de Neve. Como se lê no primeiro parágrafo: "A Branca de Neve de Disney fez 80 anos, com direito a chamada na primeira página de um jornalão e farta matéria crítica lá dentro." O contexto mostra que o jornal é tratado como veículo de grande porte e influência, o que justifica a escolha do aumentativo.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique o efeito de sentido produzido pelo substantivo "jornalão" na frase inicial. Não se trata de uma questão de gramática pura (classificação morfológica), mas de interpretação de texto: você deve perceber o que o autor quis comunicar ao usar essa palavra específica. A banca quer que você entenda o valor expressivo do aumentativo, não apenas que reconheça que "jornalão" é um substantivo.

O texto e o movimento argumentativo

O texto "Infeliz Aniversário" critica a tendência de "atualizar, podar, limpar" os contos de fadas para adequá-los a ideologias modernas. A autora começa mencionando que a Branca de Neve da Disney completou 80 anos e que isso rendeu uma chamada na primeira página de um "jornalão" e "farta matéria crítica". O uso de "jornalão" já sugere que o veículo é de grande porte e influência, o que dá peso à notícia. A escolha do aumentativo não é neutra: ela valoriza o jornal, indicando que se trata de um veículo importante, cuja cobertura merece atenção.

A técnica que decide

Em questões de sentido figurado e conotação, a palavra deve ser analisada no contexto. O sufixo aumentativo "-ão" pode indicar:

  • Tamanho físico (ex.: "casarão" = casa grande);

  • Valor afetivo ou pejorativo (ex.: "amigão" = grande amigo; "espertalhão" = pessoa esperta de forma negativa);

  • Prestígio/importância (ex.: "jornalão" = jornal de grande circulação e influência).

No trecho, o contexto é de celebração e destaque: a notícia ganhou a primeira página e "farta matéria crítica". Isso indica que o jornal é relevante, não que seja apenas grande fisicamente. Portanto, o aumentativo reforça a importância do veículo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o valor expressivo do aumentativo (prestígio/importância) e a ideia de exagero ou tamanho físico. A alternativa D ("exagero da matéria") parece atraente, mas o texto não diz que a matéria é exagerada; diz que é "farta", ou seja, abundante, não exagerada.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de um aumentativo, pergunte: o contexto indica tamanho, afeto, desprezo ou prestígio? Aqui, o contexto de destaque na primeira página aponta para prestígio.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o emprego de "jornalão" reforça a irrelevância do tema e do meio de comunicação. Isso contradiz o texto: o fato de a notícia ter "chamada na primeira página" e "farta matéria crítica" indica justamente o oposto — o tema é relevante e o veículo é importante. O aumentativo "-ão" não tem valor pejorativo aqui; pelo contrário, valoriza o jornal.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o emprego reforça o desprezo das pessoas pelo jornal referido. Não há no texto qualquer indicação de desprezo. O termo "jornalão" é usado de forma positiva, destacando a importância do veículo. A alternativa extrapola ao atribuir um sentimento (desprezo) que não está presente no texto.

Alternativa C — ✅ Correta

A alternativa afirma que o emprego reforça a importância do veículo de comunicação. Isso está diretamente ancorado no texto: "chamada na primeira página de um jornalão" — a primeira página é o espaço de maior destaque de um jornal, e o aumentativo "-ão" confere prestígio ao veículo. O contexto de celebração (80 anos da Branca de Neve) e a "farta matéria crítica" reforçam que o jornal é relevante. Portanto, a alternativa C é a única que capta o valor expressivo do substantivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o emprego reforça o exagero da matéria no jornal em questão. O texto diz "farta matéria crítica", que significa matéria abundante, não exagerada. O aumentativo "jornalão" não se refere à matéria, mas ao jornal. A alternativa troca o referente: o aumentativo incide sobre o veículo, não sobre o conteúdo. Além disso, "farta" não implica exagero, apenas quantidade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o emprego reforça a grande repercussão atingida pela matéria. Embora a repercussão possa ser inferida (a notícia ganhou destaque), o foco do substantivo "jornalão" é o veículo, não a repercussão. A alternativa tangencia o tema: fala de algo relacionado (repercussão), mas não é exatamente o que o emprego do substantivo reforça. O aumentativo valoriza o jornal, não a matéria em si.

Conclusão: A questão testa a capacidade de perceber o valor expressivo de um aumentativo no contexto. A alternativa C é a única que se sustenta integralmente no texto, pois "jornalão" reforça a importância do veículo de comunicação. As demais ou contradizem o texto, ou extrapolam, ou trocam o referente.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/vu184656