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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184668
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
Esc ( )

Leia o texto para responder à questão.

 

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui, logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava- me “um prodígio”; dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.

 

(Machado de Assis,  Dom Casmurro)

 

No contexto em que estão empregadas, as passagens – Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata... – e – “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” – permitem, correta e respectivamente, as interpretações:

  1. Ao narrador confundia-se com a concordância das palavras aos oito anos; José Dias divergia do Padre Cabral quanto aos avanços na aprendizagem do narrador.
  2. Bo narrador passou a cometer erros de concordância aos oito anos; José Dias tinha dúvidas se o progresso do narrador nos estudos era bom.
  3. Co narrador incorria em erros de concordância quando tinha oito anos; José Dias considerava que o narrador avançava rápido nos estudos.
  4. Do narrador cometeu erros de concordância por oito anos; José Dias se incomodava com o desenvolvimento cognitivo lento do narrador.
  5. Eo narrador passou a dominar a concordância aos oito anos; José Dias concordava com o Padre Cabral sobre o fato de o narrador ser ótimo aluno.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o narrador incorria em erros de concordância quando tinha oito anos; José Dias considerava que o narrador avançava rápido nos estudos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de passagens: o sentido de "careciam" e "caminha depressa"

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que interpreta corretamente as duas passagens: "careciam da desinência exata" significa que faltava a desinência, ou seja, o narrador incorria em erros de concordância; e "caminha depressa" é uma metáfora para avançar rápido nos estudos, como se lê no trecho em que José Dias pergunta ao padre se o menino progride. As demais alternativas trocam vocábulos que invertem o sentido ("passou a cometer", "divergia", "se incomodava") ou extrapolam o que o texto afirma.

O comando pede que você interprete duas passagens específicas, ou seja, que extraia o sentido que elas têm no contexto em que foram empregadas. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de deduzir o que o autor quis dizer com aquelas palavras. A primeira passagem descreve um hábito do narrador quando criança; a segunda é uma fala de José Dias que revela sua opinião sobre o progresso do menino.

No texto, o narrador conta que José Dias corrigia seus plurais: "Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia". O verbo "carecer" significa faltar, portanto "careciam da desinência exata" = "faltava a desinência correta", ou seja, o menino errava a concordância (dizia "os menino" em vez de "os meninos", por exemplo). A expressão "alguma vez" indica que isso acontecia ocasionalmente, não sempre, e o contexto é o passado (aos oito anos).

A segunda passagem é a pergunta retórica de José Dias ao Padre Cabral: "Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?". Aqui, "caminhar depressa" é uma metáfora para progredir rapidamente nos estudos. José Dias não está falando de andar rápido, mas do avanço na aprendizagem. Ele mesmo, antes, chama o menino de "prodígio" e diz que ele excede todos os outros meninos inteligentes. Portanto, a interpretação correta é que José Dias considerava que o narrador avançava rápido nos estudos.

A técnica para resolver é: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta interpretação, ou ela exige acrescentar algo que não está lá? A alternativa correta é a que parafraseia o sentido das passagens sem introduzir ideias novas. As erradas, em geral, trocam um vocábulo que inverte o sentido (como "passou a cometer" em vez de "incorria") ou extrapolam ao atribuir ao texto uma opinião que ele não contém (como "divergia" ou "se incomodava").

Alternativa A — ❌ Incorreta

A primeira parte está correta ("confundia-se com a concordância" é uma paráfrase aceitável de "careciam da desinência exata"), mas a segunda parte extrapola: o texto não diz que José Dias divergia do Padre Cabral. Pelo contrário, José Dias pergunta ao padre "Não é verdade...?", buscando concordância, não oposição. O erro é fora_do_escopo: acrescenta uma relação de conflito que não existe no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A primeira parte contradiz o texto: "passou a cometer erros" sugere que antes não cometia, mas o texto diz que aos oito anos os plurais careciam da desinência — ou seja, ele já errava naquela idade, não que passou a errar. A segunda parte também erra: "tinha dúvidas se o progresso era bom" contradiz a fala de José Dias, que é uma afirmação positiva ("caminha depressa"). O erro é troca_conceito: inverte o sentido de "careciam" e da pergunta retórica.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A primeira parte é uma paráfrase fiel: "incorria em erros de concordância quando tinha oito anos" corresponde exatamente a "Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata". A segunda parte também é fiel: "considerava que o narrador avançava rápido nos estudos" é o sentido de "caminha depressa" no contexto, confirmado pelo elogio anterior ("um prodígio"). É a única alternativa que não acrescenta nem contradiz nada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A primeira parte restringe indevidamente: "cometeu erros por oito anos" sugere que os erros duraram oito anos, mas o texto diz apenas que aos oito anos eles ocorriam "alguma vez" — não que duraram oito anos. A segunda parte contradiz o texto: "se incomodava com o desenvolvimento cognitivo lento" é o oposto do que José Dias expressa ("caminha depressa", "prodígio"). O erro é generalizacao (restringe o tempo) e contradiz_texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A primeira parte contradiz o texto: "passou a dominar a concordância" é o oposto de "careciam da desinência exata" (faltava a desinência). A segunda parte é parcialmente correta ("concordava com o Padre Cabral sobre o fato de ser ótimo aluno"), mas como a primeira parte está errada, a alternativa inteira cai. O erro é troca_conceito: inverte o sentido de "careciam".

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar passagens, grife os verbos e pergunte: o que eles significam no contexto? "Carecer" = faltar; "caminhar depressa" = progredir rápido. Desconfie de alternativas que trocam o verbo por outro de sentido oposto ("passou a dominar" em vez de "incorria em erros").

Gabarito: letra C.

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