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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184673
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Pindamonhangaba
Ano
2023
Cargo
Ana (Pref Pinda)

Flor-de-maio

 

Entre tantas notícias do jornal – o crime de Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão – há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e diz que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada “flor-de-maio” está, efetivamente, em flor.

 

Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

 

Suspiro e digo comigo mesmo – que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi – um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam.

 

No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém – uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire dessa crônica a sua substância, a informação precisa e preciosa: no dia 27 em diante as “flores-de-maio” do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a “flor-de-maio”.

 

Ir só, no fim da tarde, ver a “flor-de-maio”; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.

 

(Rubem Braga. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1992, Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.     A respeito das reflexões feitas pelo autor no texto, é correto afirmar que ele
  1. Aconsidera que vale a pena escrever crônicas se elas servirem para inspirar as pessoas a priorizarem, em seu cotidiano, um acontecimento belo como o florescimento de uma flor-de-maio.
  2. Bvê os leitores como pessoas superiores por não terem tantos compromissos diários que tomam tempo, como textos para ler e escrever e telefonemas para fazer.
  3. Cse mostra sarcástico ao afirmar que a humanidade poderá ser salva se todos os jornais passarem a noticiar os nascimentos das flores em vez de dar notícias ruins.
  4. Djulga que a queda de um andaime e o aumento do preço do pão fazem as pessoas se recolherem em suas casas, enquanto a notícia sobre o nascimento de uma flor as leva a saírem.
  5. Ese mostra orgulhoso por ser o único a notar o nascimento da flor-de-maio e contar o fato para os leitores, ainda que ele não tenha condições de visitar o Jardim Botânico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — considera que vale a pena escrever crônicas se elas servirem para inspirar as pessoas a priorizarem, em seu cotidiano, um acontecimento belo como o florescimento de uma flor-de-maio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A tese do autor: a crônica como convite à beleza

Gabarito: letra A. O autor considera que vale a pena escrever crônicas se elas servirem para inspirar as pessoas a priorizarem, em seu cotidiano, um acontecimento belo como o florescimento de uma flor-de-maio. Essa ideia está ancorada no último parágrafo, quando ele afirma que, se alguém, por meio de sua crônica, for ver a flor, então "nem tudo está perdido" e "às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica". As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou contradizem o que está escrito.

O comando pede que se identifique uma reflexão correta do autor — ou seja, uma inferência ancorada no texto, não uma informação literal. É preciso distinguir o que o autor diz do que ele sugere. A alternativa correta é uma paráfrase da tese central: a crônica ganha sentido se inspirar alguém a viver um momento belo.

O texto é uma crônica de Rubem Braga. O autor lê uma notícia sobre a flor-de-maio, sente vontade de ir vê-la, mas não vai por causa dos compromissos. Então, ele escreve a crônica com a secreta esperança de que alguém a leia e faça o que ele não fez: ir ao Jardim Botânico. A tese está na conclusão: se isso acontecer, "nem tudo está perdido" e "ainda vale a pena escrever uma crônica".

A técnica para resolver é: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza. A correta (A) é uma síntese fiel do último parágrafo. As erradas cometem erros típicos: extrapolam (B, D, E) ou contradizem o texto (C).

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é uma paráfrase fiel da tese do autor. No último parágrafo, ele escreve:

"Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica."

O autor condiciona o valor da crônica ao fato de ela inspirar alguém a priorizar um acontecimento belo (ver a flor-de-maio) em meio ao cotidiano. A alternativa A captura exatamente essa ideia: "considera que vale a pena escrever crônicas se elas servirem para inspirar as pessoas a priorizarem, em seu cotidiano, um acontecimento belo como o florescimento de uma flor-de-maio". Não há acréscimo nem restrição — é a tese central do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B extrapola o texto. O autor não diz que os leitores são superiores por terem menos compromissos. Ele apenas expressa a esperança de que alguém "melhor do que eu" leia a crônica e vá ver a flor. O texto diz:

"No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém – uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples..."

A expressão "melhor do que eu" refere-se a uma qualidade moral (alguém que realmente vá ver a flor), não a uma suposta superioridade por falta de compromissos. A alternativa inventa uma causa que o texto não menciona — é uma extrapolação clássica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C contradiz o texto. O autor não é sarcástico; ele é sincero e até poético. A frase "a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva" é uma hipérbole afetiva, não uma ironia. O texto diz:

"...então eu vos direi que nem tudo está perdido; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva..."

O tom é de esperança, não de zombaria. Além disso, o autor não defende que os jornais noticiem "nascimentos das flores em vez de dar notícias ruins" — ele apenas celebra a notícia da flor-de-maio como "a única notícia boa de um dia inteiro de jornal". A alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D extrapola o texto. O autor não afirma que a queda de um andaime ou o aumento do pão fazem as pessoas se recolherem em casa. Ele apenas lista essas notícias ruins para contrastar com a notícia boa da flor. O texto diz:

"Entre tantas notícias do jornal – o crime de Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão – há uma pequenina nota de três linhas..."

A lista serve para destacar a raridade da notícia boa, não para afirmar um comportamento das pessoas. A alternativa acrescenta uma relação de causa e efeito que não está no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E extrapola e contradiz o texto. O autor não se mostra orgulhoso por ser o único a notar a flor; ele se mostra frustrado por não ter ido vê-la. O texto diz:

"Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi – um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam."

Além disso, o autor não diz que não tem condições de visitar o Jardim Botânico — ele diz que não tem tempo por causa dos compromissos. A alternativa inventa um orgulho e uma impossibilidade que não existem no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato que parece verdadeiro, mas que o texto não afirma. Aqui, a alternativa B usa a expressão "melhor do que eu" para inventar uma superioridade; a alternativa E inventa um orgulho que contradiz a frustração do autor. Sempre confira se a alternativa acrescenta algo que o texto não diz.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "a respeito das reflexões feitas pelo autor" — isso pede uma inferência ancorada no texto, não uma informação literal. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?".

Gabarito: letra A — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, sem extrapolação, restrição ou contradição.

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