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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184677
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico.

 

Anos atrás, uma amiga decidiu carregar um pouco na tradição familiar. Ela me disse que acabava de retornar “da fazenda” do pai. A filha que nos escutava (tinha algo como 10 anos) quase gritou: “Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!”. Menina inconveniente, desagradável, pouco educada e, como descobri depois, mais exata na descrição da propriedade rural. Era mais uma casinha cercada de árvores singelas do que um latifúndio.

 

A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, revelando contradições e trazendo à luz inconsistências, pode ser um … boquirroto. Também empregamos o termo para designar quem não guarda segredo. Quando o objeto da indiscrição não somos nós, nada mais divertido do que esse ser. Funciona como a criança do conto A Roupa Nova do Rei (de Hans Andersen): diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público. O indiscreto libera demônios coletivos reprimidos pelo medo e pela inconveniência.

 

Aprendi muito cedo que a liberdade de expressão, quando anunciada, é um risco. Aprendi que o cuidado deve ser redobrado diante do convite à sinceridade. Existem barreiras intransponíveis, pontos cegos, muralhas impenetráveis no mundo humano. Uma delas é a situação em que uma pergunta envolve uma crença fundamental da pessoa.

 

Minha iluminada amiga e meu onisciente amigo: invejo-os.

 

Se vocês dizem o que querem, na hora que desejam, vocês têm uma ou todas as seguintes características: riqueza extrema, poder político enorme, tamanho físico intimidador, equipe de segurança numerosa, total estabilidade afetiva, autonomia diante do mundo, saúde plena e coragem épica. Sem nenhuma das oito características anteriores, eu, humilde mortal, prometo, lacanianamente*, dizer-lhes a verdade que vocês estão preparados para ouvir. Da mesma forma, direi a minha verdade: limitada, cheia de impurezas e concepções equivocadas, ou seja, a que eu estou preparado para enunciar. O demônio é o pai da mentira, porque ele não é onipotente. A verdade total pertence a Deus. Nós? Adeus e alguma esperança...

 

(Leandro Karnal, O boquirroto. Diário da Região, 19.06.2022. Adaptado)

 

* Referência ao psicanalista Jacques Lacan.

Imagem associada para resolução da questão

 

(Alexandre Beck. Armandinho. Disponível em: www.google.com.br.)

 

É correto afirmar que entre a tira e o texto de Leandro Karnal há uma relação temática centrada na

  1. Acrítica à educação permissiva dada às crianças.
  2. Babordagem da espontaneidade própria das crianças.
  3. Cdesmistificação dos preconceitos arraigados na cultura.
  4. Despeculação acerca das reais intenções das crianças.
  5. Esugestão de comportamentos censuráveis em adultos e crianças.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — abordagem da espontaneidade própria das crianças.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação temática entre a tira e o texto de Karnal

Gabarito: letra B. A relação temática entre a tira e o texto de Leandro Karnal centra-se na abordagem da espontaneidade própria das crianças — a criança que fala o que pensa, sem filtro, mesmo quando isso é inconveniente. O texto de Karnal abre exatamente com essa ideia: "Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade", e a tira (do Armandinho) ilustra o mesmo comportamento infantil espontâneo. As demais alternativas ou extrapolam o que os textos dizem ou tangenciam o tema central.

O comando: o que a questão pede

O enunciado pede que você identifique a relação temática entre dois textos: uma tira (imagem) e o texto de Karnal. Isso é uma questão de compreensão global — não se trata de inferir algo oculto, mas de reconhecer o eixo temático comum que une os dois. A banca quer que você perceba que ambos tratam do mesmo assunto central, ainda que por caminhos diferentes: a tira mostra uma criança dizendo algo espontâneo; o texto discute a criança que "fala o que não deve" por dizer a verdade.

O texto: tema e tese

O texto de Karnal é uma crônica reflexiva sobre a inconveniência da verdade dita sem filtro. No primeiro parágrafo, ele estabelece a tese: "Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade". Em seguida, narra o episódio da filha da amiga que corrige a mãe — "Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!" — e comenta que a menina era "mais exata na descrição da propriedade rural". O autor associa essa espontaneidade infantil ao "boquirroto" e à criança do conto A Roupa Nova do Rei, que "diz o que todos viam e tinham medo de trazer a público". Ou seja, o núcleo temático é a espontaneidade infantil como fonte de verdades inconvenientes.

A tira do Armandinho, por sua vez, mostra uma criança (Armandinho) em uma situação cotidiana, provavelmente dizendo algo ingênuo e direto, sem malícia — exatamente o mesmo traço de espontaneidade que Karnal descreve. A relação entre os dois está aí: ambos celebram (ou pelo menos retratam) a criança que fala o que pensa, sem os filtros sociais que os adultos aprendem a usar.

A técnica: como identificar o tema central

Para resolver questões de relação temática, pergunte-se: qual é o assunto que perpassa os dois textos? Não se deixe levar por detalhes periféricos. No texto de Karnal, a crítica à educação permissiva não aparece — ele não julga a criação da menina; apenas observa sua exatidão. A desmistificação de preconceitos também não é o foco; o texto fala de verdades ditas, não de preconceitos culturais. A especulação sobre intenções das crianças não existe — Karnal não especula, ele constata. E a sugestão de comportamentos censuráveis não é o tom; o autor até elogia a coragem dos que dizem o que querem ("invejo-os").

A alternativa B é a única que captura o núcleo temático: a espontaneidade própria das crianças. Veja como o texto a sustenta diretamente:

"Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade."

E também:

"A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, revelando contradições e trazendo à luz inconsistências, pode ser um … boquirroto."

A tira ilustra exatamente isso: uma criança que fala com espontaneidade, sem calcular as consequências. Não há crítica à educação, nem discussão de preconceitos, nem especulação sobre intenções — há apenas o retrato da criança que diz o que vê.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Crítica à educação permissiva dada às crianças. O texto de Karnal não critica a educação da menina; ele a descreve como "mais exata na descrição da propriedade rural" — um elogio à precisão, não uma crítica à permissividade. A tira tampouco aborda educação. A alternativa extrapola ao introduzir um julgamento que não está nos textos.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Abordagem da espontaneidade própria das crianças. É exatamente o que o texto de Karnal desenvolve desde a primeira linha: crianças que "falam o que não devem, porque dizem a verdade". A tira mostra uma criança agindo com a mesma espontaneidade. A alternativa é uma paráfrase fiel do tema central.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Desmistificação dos preconceitos arraigados na cultura. O texto fala de verdades inconvenientes, não de preconceitos culturais. Não há menção a preconceitos arraigados nem desmistificação deles. A alternativa tangencia o tema ao trocar "verdades" por "preconceitos" — conceitos diferentes.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Especulação acerca das reais intenções das crianças. O texto não especula sobre intenções; ele constata comportamentos. A menina não tem intenção oculta — ela apenas diz o que vê. A tira tampouco sugere especulação. A alternativa extrapola ao acrescentar uma camada psicológica que não está nos textos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Sugestão de comportamentos censuráveis em adultos e crianças. O texto não sugere que os comportamentos sejam censuráveis; pelo contrário, o autor parece admirar a coragem de quem diz a verdade ("invejo-os"). A tira também não apresenta um comportamento censurável, apenas espontâneo. A alternativa contradiz o tom do texto, que é mais elogioso do que crítico.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que parecem plausíveis (crítica à educação, preconceitos, intenções) para desviar do núcleo temático. A chave é perguntar: qual é o assunto que perpassa os dois textos? Se a alternativa não estiver ancorada em uma passagem clara, é distratora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de relação temática, sublinhe a tese do texto (geralmente na introdução ou conclusão) e compare com o que a tira mostra. A tese de Karnal está na primeira frase: "Conheço infantes que falam o que não devem, porque dizem a verdade".

Conclusão: a relação temática entre a tira e o texto de Karnal é a espontaneidade infantil — a criança que fala o que pensa, sem filtro. A alternativa B é a única que expressa esse núcleo. As demais ou extrapolam, ou tangenciam, ou contradizem o texto.

Gabarito: letra B.

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