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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184707
Banca
VUNESP
Órgão
EPC
Ano
2023
Cargo
Adv ( )

Quando Nancy Pelosi, então presidente da Câmara norte-americana, estendeu a mão para o ex-presidente Donald Trump, antes da apresentação do discurso anual do Estado da União, ele se recusou a apertá-la e virou as costas de forma grosseira. Ao fim do discurso, Pelosi rasgou a transcrição ostensivamente como se o texto não valesse o papel em que foi impresso e devesse ser expurgado por completo dos registros históricos.

 

Esses dois gestos, infantis e impulsivos, podem ser considerados insignificantes, mas na verdade foram emblemáticos da maneira como a oposição foi transformada em algo muito mais profundo – um ódio e uma animosidade reais.

 

Naturalmente, a gentileza precisa ser uma via de mão dupla, é difícil ser gentil com aqueles que são abertamente desdenhosos conosco, ainda que talvez isso seja possível para os santos. A santidade, entretanto, não é uma qualidade que se costuma encontrar na vida política, e, dessa forma, não se pode contar com ela para a promoção de um comportamento decente. Apenas a cultura da tolerância pode fazer isso.

 

Lamentavelmente, quanto mais a tolerância é alardeada como uma grande virtude, ou até mesmo como a maior das virtudes, menos ela é praticada na vida cotidiana. Se as pessoas fossem tolerantes, não haveria necessidade de exaltá-la. Na realidade somos assim com os preceitos morais sobre a tolerância: somos tolerantes, mas odiamos pessoas que não concordam conosco.

 

A tolerância requer um devido exercício de falta de sinceridade. Toleramos apenas o que nos causa desagrado, porque não há necessidade de tolerar coisas de que gostamos. Podemos pensar que alguém que tem uma opinião diferente da nossa é um canalha, mas não podemos ter uma discussão civilizada com essa pessoa se revelarmos nossa opinião sincera.

 

Infelizmente, existe um culto de sinceridade no mundo moderno de acordo com o qual nada que esteja na mente de alguém deve ser contido. Porque, se for, vai infectar e acabar causando uma espécie de septicemia psicológica, que vai entrar em erupção como algo terrível. Nessa escala de valores, a insinceridade é o pior dos pecados, e não algo muitas vezes virtuoso e necessário, o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção.

 

Dessa forma, estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante. Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar. Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, ao totalitarismo em nome da tolerância.

 

(Theodore Dalryme, A novilíngua como língua nativa. Disponível em: <revistaoeste.com<. Acesso em 14.02.2023. Adaptado)

Texto

   

É correto concluir que esse texto

  1. Arelata episódios em que pessoas se veem involuntariamente envolvidas em situações constrangedoras, nas quais a revanche se mostra a única saída a ser adotada.
  2. Bdescreve pormenorizadamente o conflito que se estabelece quando o indivíduo prima pela sinceridade, mas encontra a sua frente um oponente que se mostra intolerante.
  3. Cdiscute o problema da insatisfação gerada pelo conflito de ideias, principalmente quando se opõem pessoas públicas de destaque, as quais deveriam dar exemplo à sociedade.
  4. Ddesenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca.
  5. Ese reporta a situações exemplares para fazer recomendações ao leitor acerca de como proceder em caso de discordância de ideias, recorrendo ao exercício da condescendência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — desenvolve ideias acerca de embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: o embate entre tolerância e sinceridade

Gabarito: letra D. O texto desenvolve, ao longo de todos os parágrafos, a tensão entre dois imperativos opostos — ser tolerante e ser sincero —, como se lê explicitamente no trecho final: "estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante". A alternativa D é a única que capta essa tese central, parafraseando-a com precisão: "embate contemporâneo entre a disposição de ser indulgente em relação às diferenças e a necessidade de dar curso à manifestação franca".

O comando pede uma conclusão sobre o texto, ou seja, uma síntese da ideia central defendida pelo autor. Não se trata de localizar uma informação pontual (compreensão/recorrência), mas de depreender a tese que organiza a argumentação (interpretação/inferência). A resposta correta é aquela que resume o que o texto, como um todo, sustenta — e não uma que descreva apenas um fragmento ou que acrescente opiniões que o autor não emitiu.

O texto parte de um episódio concreto (o gesto de Pelosi e Trump) para ilustrar uma tese mais ampla: a oposição política virou "ódio e animosidade reais". Em seguida, o autor argumenta que a gentileza exige reciprocidade e que a tolerância é a única via para um comportamento decente. O núcleo do raciocínio, porém, está nos dois últimos parágrafos: vivemos sob dois imperativos opostos — ser sincero e ser tolerante —, e a tentativa de reconciliá-los leva a um paradoxo: "começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, ao totalitarismo em nome da tolerância".

A técnica decisiva aqui é identificar a tese (o que o autor pensa) e distingui-la dos argumentos (por que ele pensa assim) e dos exemplos (o episódio inicial). A alternativa correta é a que sintetiza a tese; as incorretas, em geral, ou se apegam a um argumento isolado, ou extrapolam para além do que o texto afirma. Ao testar cada alternativa, pergunte: "o texto, como um todo, autoriza esta conclusão?" — se a resposta exigir acrescentar algo de fora, a alternativa está errada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que descrevem partes do texto (episódio inicial, conflito com oponente intolerante, insatisfação com conflito de ideias) ou que acrescentam opiniões não defendidas (recomendações ao leitor), desviando da tese central.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "é correto concluir" pede uma síntese da tese, não a localização de um detalhe. Desconfie de alternativas que mencionam "recomendações" ou "deveriam" — o texto não faz recomendações diretas ao leitor.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto "relata episódios em que pessoas se veem involuntariamente envolvidas em situações constrangedoras, nas quais a revanche se mostra a única saída a ser adotada". O texto relata um episódio (o gesto de Pelosi e Trump), mas não diz que as pessoas se veem "involuntariamente envolvidas" nem que a "revanche" seja a "única saída". O autor até critica os gestos como "infantis e impulsivos", mas não os apresenta como revanche necessária. A alternativa extrapola ao acrescentar a ideia de "única saída" e de "revanche", que não estão no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o texto "descreve pormenorizadamente o conflito que se estabelece quando o indivíduo prima pela sinceridade, mas encontra a sua frente um oponente que se mostra intolerante". O texto menciona o conflito entre sinceridade e tolerância, mas não o descreve "pormenorizadamente" nem o restringe a um "oponente intolerante". O conflito é apresentado como um dilema geral da vida moderna, não como um embate específico entre duas pessoas. A alternativa restringe o alcance do texto ao falar de "um oponente", quando o texto trata de uma tensão social ampla.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto "discute o problema da insatisfação gerada pelo conflito de ideias, principalmente quando se opõem pessoas públicas de destaque, as quais deveriam dar exemplo à sociedade". O texto começa com um episódio envolvendo pessoas públicas, mas a discussão central não é sobre "insatisfação" nem sobre o "dever de dar exemplo". O autor não diz que pessoas públicas "deveriam dar exemplo"; isso é uma opinião embutida que não está no texto. A alternativa tangencia o tema ao focar em um aspecto secundário (o episódio inicial) e acrescentar um juízo moral ausente.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa sintetiza a tese central do texto: o embate entre "a disposição de ser indulgente em relação às diferenças" (tolerância) e "a necessidade de dar curso à manifestação franca" (sinceridade). Isso está explícito no trecho final:

"estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante"

A alternativa parafraseia essa ideia com precisão, sem acrescentar nem restringir. É a única que capta o movimento argumentativo do texto como um todo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o texto "se reporta a situações exemplares para fazer recomendações ao leitor acerca de como proceder em caso de discordância de ideias, recorrendo ao exercício da condescendência". O texto se reporta a um episódio exemplar, mas não faz "recomendações ao leitor" nem sugere "como proceder". O autor analisa a tensão entre sinceridade e tolerância, mas não prescreve condutas. A alternativa extrapola ao transformar uma reflexão em um manual de comportamento.

Conclusão: a resposta correta é a letra D, pois é a única que sintetiza a tese central do texto — o embate entre tolerância e sinceridade — sem acrescentar, restringir ou tangenciar. As demais ou se apegam a partes isoladas, ou introduzem opiniões que o autor não emitiu. Lembre-se: em questões de "concluir", a resposta é a que resume o todo, não a que descreve um fragmento.

Gabarito: letra D

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