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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184708
Banca
VUNESP
Órgão
EPC
Ano
2023
Cargo
Adv ( )

Quando Nancy Pelosi, então presidente da Câmara norte-americana, estendeu a mão para o ex-presidente Donald Trump, antes da apresentação do discurso anual do Estado da União, ele se recusou a apertá-la e virou as costas de forma grosseira. Ao fim do discurso, Pelosi rasgou a transcrição ostensivamente como se o texto não valesse o papel em que foi impresso e devesse ser expurgado por completo dos registros históricos.

 

Esses dois gestos, infantis e impulsivos, podem ser considerados insignificantes, mas na verdade foram emblemáticos da maneira como a oposição foi transformada em algo muito mais profundo – um ódio e uma animosidade reais.

 

Naturalmente, a gentileza precisa ser uma via de mão dupla, é difícil ser gentil com aqueles que são abertamente desdenhosos conosco, ainda que talvez isso seja possível para os santos. A santidade, entretanto, não é uma qualidade que se costuma encontrar na vida política, e, dessa forma, não se pode contar com ela para a promoção de um comportamento decente. Apenas a cultura da tolerância pode fazer isso.

 

Lamentavelmente, quanto mais a tolerância é alardeada como uma grande virtude, ou até mesmo como a maior das virtudes, menos ela é praticada na vida cotidiana. Se as pessoas fossem tolerantes, não haveria necessidade de exaltá-la. Na realidade somos assim com os preceitos morais sobre a tolerância: somos tolerantes, mas odiamos pessoas que não concordam conosco.

 

A tolerância requer um devido exercício de falta de sinceridade. Toleramos apenas o que nos causa desagrado, porque não há necessidade de tolerar coisas de que gostamos. Podemos pensar que alguém que tem uma opinião diferente da nossa é um canalha, mas não podemos ter uma discussão civilizada com essa pessoa se revelarmos nossa opinião sincera.

 

Infelizmente, existe um culto de sinceridade no mundo moderno de acordo com o qual nada que esteja na mente de alguém deve ser contido. Porque, se for, vai infectar e acabar causando uma espécie de septicemia psicológica, que vai entrar em erupção como algo terrível. Nessa escala de valores, a insinceridade é o pior dos pecados, e não algo muitas vezes virtuoso e necessário, o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção.

 

Dessa forma, estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante. Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar. Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, ao totalitarismo em nome da tolerância.

 

(Theodore Dalryme, A novilíngua como língua nativa. Disponível em: <revistaoeste.com<. Acesso em 14.02.2023. Adaptado)

Texto

   

No sexto parágrafo, empregando palavras em sentido não literal, o autor está

  1. Aafirmando que a sinceridade pode provocar crises psicológicas e ira incontida.
  2. Bironizando os adeptos da sinceridade, que devem ser contidos para não adoecerem.
  3. Cdefendendo a importância do equilíbrio entre a sinceridade e a hipocrisia.
  4. Dapontando na insinceridade o atributo positivo de aparar atritos.
  5. Edescaracterizando o conflito provocado pela tensão entre mentir e falar a verdade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — apontando na insinceridade o atributo positivo de aparar atritos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido figurado no sexto parágrafo: a insinceridade como 'óleo' que aparava atritos

Gabarito: letra D. No sexto parágrafo, o autor emprega a metáfora do 'óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção' para atribuir à insinceridade o valor positivo de aparar atritos — exatamente o que a alternativa D afirma. A passagem que ancora a resposta é:

"a insinceridade é o pior dos pecados, e não algo muitas vezes virtuoso e necessário, o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção."

A expressão 'óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção' é claramente figurada (conotativa): o óleo, na mecânica, reduz o atrito entre peças; aqui, metaforicamente, a insinceridade reduz os atritos nas relações humanas. O autor está defendendo que a insinceridade pode ser virtuosa e necessária justamente por suavizar os conflitos — e não por ser algo a se evitar.

O comando e o método

O enunciado pede que se identifique o que o autor está fazendo 'empregando palavras em sentido não literal' — ou seja, a questão é de compreensão de sentido figurado (conotação). Não se trata de inferir algo além do texto, mas de reconhecer o efeito de sentido da metáfora usada no sexto parágrafo. A técnica é: localizar a expressão figurada, identificar o termo comparado (insinceridade) e o termo comparante (óleo) e, então, traduzir o sentido: óleo = lubrificante = reduz atrito = aparar arestas, evitar conflitos.

A armadilha central: trocar o polo do argumento

A banca adora inverter o referente da metáfora. No sexto parágrafo, o autor diz que a insinceridade é "o óleo que mantém a vida tranquila". Quem lê rápido pode achar que o óleo é a sinceridade (porque o parágrafo começa falando do "culto de sinceridade"). Mas o texto é explícito: a insinceridade é que é o lubrificante social. As alternativas A, B, C e E cometem exatamente esse erro: falam de sinceridade, de hipocrisia ou de conflito, mas deslocam o foco do que o autor realmente afirma.

Análise das alternativas

1Termo comparado
Insinceridade
2Termo comparante
Óleo (lubrificante)
3Efeito de sentido
Reduz atrito
Apara arestas
Evita conflitos
4Valor atribuído
Virtuosa e necessária
Sentido figurado: "óleo que mantém a vida tranquila"
LEVELsoulevel.com.br
Sentido figurado: "óleo que mantém a vida tranquila": Termo comparado (Insinceridade); Termo comparante (Óleo (lubrificante)); Efeito de sentido (Reduz atrito, Apara arestas, Evita conflitos); Valor atribuído (Virtuosa e necessária)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que o autor diz que a sinceridade pode provocar crises psicológicas e ira incontida. O texto menciona que, se a sinceridade for contida, "vai infectar e acabar causando uma espécie de septicemia psicológica" — mas isso é dito como crítica ao culto de sinceridade, não como defesa de que a sinceridade cause crises. Além disso, a alternativa extrapola: o texto não fala em "ira incontida". O autor está ironizando a ideia de que tudo deve ser dito, não afirmando que a sinceridade em si é perigosa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que o autor ironiza os adeptos da sinceridade, que devem ser contidos para não adoecerem. Há ironia no parágrafo, sim, mas o alvo é o culto de sinceridade, não os adeptos em si. E a alternativa restringe: o texto não diz que os adeptos devem ser contidos para não adoecer; diz que, se a sinceridade for contida, isso causaria uma "septicemia psicológica" — ou seja, o texto afirma o contrário: conter a sinceridade seria o problema, não a solução.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Defende a importância do equilíbrio entre sinceridade e hipocrisia. O texto não fala em equilíbrio; fala em tolerância e em como a insinceridade pode ser virtuosa. A alternativa tangencia o tema: mistura conceitos (sinceridade, hipocrisia) que aparecem no texto, mas a ideia de "equilíbrio" não está lá. O autor não propõe um meio-termo; ele critica o culto de sinceridade e defende a insinceridade como algo necessário.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como vimos, a alternativa D é a única que parafraseia fielmente o sentido da metáfora: a insinceridade é apresentada como "o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção", ou seja, algo que apara atritos. A palavra "aparar" é sinônimo de "reduzir", "suavizar" — exatamente o que o óleo faz com o atrito. O autor está atribuindo à insinceridade um atributo positivo, contrariando a visão comum de que ela é sempre negativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Diz que o autor descaracteriza o conflito provocado pela tensão entre mentir e falar a verdade. O texto não fala em "descaracterizar conflito"; fala em reconciliar dois imperativos opostos (ser sincero e ser tolerante). A alternativa contradiz o texto: o autor não nega o conflito; ele o reconhece e propõe uma saída (transformar a tolerância em seu oposto). Além disso, "mentir" e "falar a verdade" não são os termos usados pelo autor; ele fala em "sinceridade" e "insinceridade".

Conclusão

A questão testa a compreensão de sentido figurado: identificar o que a metáfora do "óleo" significa no contexto. A alternativa D é a única que traduz corretamente a imagem: insinceridade = lubrificante social = aparar atritos. As demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o texto. Lembre-se: em questões de conotação, o sentido está no contexto, não no dicionário. Sempre pergunte: "o que o autor quer dizer com essa imagem?" — e a resposta estará na paráfrase mais fiel.

PEGA ESSA DICA!

Grife a palavra "óleo" e pergunte: o que o óleo faz? Reduz atrito. Quem reduz atrito aqui? A insinceridade. Essa cadeia lógica resolve a questão em segundos.

Gabarito: letra D

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