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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184709
Banca
VUNESP
Órgão
EPC
Ano
2023
Cargo
Ag Prop ( )

Quando Nancy Pelosi, então presidente da Câmara norte-americana, estendeu a mão para o ex-presidente Donald Trump, antes da apresentação do discurso anual do Estado da União, ele se recusou a apertá-la e virou as costas de forma grosseira. Ao fim do discurso, Pelosi rasgou a transcrição ostensivamente como se o texto não valesse o papel em que foi impresso e devesse ser expurgado por completo dos registros históricos.

 

Esses dois gestos, infantis e impulsivos, podem ser considerados insignificantes, mas na verdade foram emblemáticos da maneira como a oposição foi transformada em algo muito mais profundo – um ódio e uma animosidade reais.

 

Naturalmente, a gentileza precisa ser uma via de mão dupla, é difícil ser gentil com aqueles que são abertamente desdenhosos conosco, ainda que talvez isso seja possível para os santos. A santidade, entretanto, não é uma qualidade que se costuma encontrar na vida política, e, dessa forma, não se pode contar com ela para a promoção de um comportamento decente. Apenas a cultura da tolerância pode fazer isso.

 

Lamentavelmente, quanto mais a tolerância é alardeada como uma grande virtude, ou até mesmo como a maior das virtudes, menos ela é praticada na vida cotidiana. Se as pessoas fossem tolerantes, não haveria necessidade de exaltá-la. Na realidade somos assim com os preceitos morais sobre a tolerância: somos tolerantes, mas odiamos pessoas que não concordam conosco.

 

A tolerância requer um devido exercício de falta de sinceridade. Toleramos apenas o que nos causa desagrado, porque não há necessidade de tolerar coisas de que gostamos. Podemos pensar que alguém que tem uma opinião diferente da nossa é um canalha, mas não podemos ter uma discussão civilizada com essa pessoa se revelarmos nossa opinião sincera.

 

Infelizmente, existe um culto de sinceridade no mundo moderno de acordo com o qual nada que esteja na mente de alguém deve ser contido. Porque, se for, vai infectar e acabar causando uma espécie de septicemia psicológica, que vai entrar em erupção como algo terrível. Nessa escala de valores, a insinceridade é o pior dos pecados, e não algo muitas vezes virtuoso e necessário, o óleo que mantém a vida tranquila e relativamente sem fricção.

 

Dessa forma, estamos vivendo sob dois imperativos opostos: o primeiro é ser sempre sincero, e o segundo, ser ao mesmo tempo tolerante. Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar. Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, ao totalitarismo em nome da tolerância.

 

(Theodore Dalryme, A novilíngua como língua nativa. Disponível em: <revistaoeste.com<. Acesso em 14.02.2023. Adaptado)

Texto

   

A afirmação do autor – Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, o totalitarismo em nome da tolerância. – deve ser entendida, no contexto, como a expressão de uma

  1. Ainverdade.
  2. Bcontradição.
  3. Cfalácia.
  4. Dincerteza.
  5. Eutopia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — contradição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A conclusão paradoxal do autor: da tolerância ao totalitarismo

Gabarito: letra B. A afirmação final do autor – "Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo, isto é, o totalitarismo em nome da tolerância" – expressa uma contradição, pois une dois termos que, em princípio, se excluem: a tolerância (aceitação do diferente) e o totalitarismo (imposição absoluta de uma visão). O próprio texto prepara essa conclusão ao longo do último parágrafo, mostrando como a defesa intransigente da tolerância acaba por negar a própria tolerância.

O comando da questão

O enunciado pede que você entenda o sentido da afirmação do autor no contexto. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de interpretar a relação lógica que o autor estabelece entre as ideias. A palavra-chave é "deve ser entendida, no contexto, como a expressão de uma". Ou seja, você precisa identificar qual valor semântico (contradição, inverdade, falácia, incerteza, utopia) melhor traduz a intenção do autor ao afirmar que a tolerância leva ao totalitarismo.

O movimento argumentativo do texto

O autor parte de um exemplo concreto (o gesto de Pelosi e Trump) para discutir a tolerância na vida política. Ele argumenta que a tolerância é necessária, mas que, paradoxalmente, quanto mais se exalta a tolerância, menos ela é praticada. No último parágrafo, ele chega ao ponto crucial: vivemos sob dois imperativos opostos – ser sincero e ser tolerante. Para reconciliá-los, a sociedade transforma a necessidade de tolerância em seu oposto, afirmando que opiniões diferentes são intolerância. Assim, a tolerância, levada ao extremo, torna-se intolerância e, por fim, totalitarismo.

"Só podemos reconciliar esses dois imperativos se transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto, isto é, afirmando que opiniões diferentes ou opostas às nossas são, em si, manifestações de intolerância, a única coisa que não podemos tolerar."

Esse trecho é a chave: a tolerância, para se manter, precisa negar a si mesma, tornando-se intolerante com o que discorda. Daí a conclusão: "começando na tolerância chegamos ao totalitarismo". A relação entre os dois termos é de oposição interna – um conceito que se autodestrói.

A técnica: reconhecer a contradição

Uma contradição ocorre quando duas proposições não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, ou quando um conceito é usado de forma a negar sua própria essência. Aqui, o autor afirma que a tolerância (que deveria aceitar o diferente) leva ao totalitarismo (que impõe uma única verdade). Isso é um paradoxo, uma forma de contradição que surpreende pela lógica interna. O texto não diz que a afirmação é falsa (inverdade), nem que é uma falácia (argumento inválido), nem que é incerta (dúvida), nem que é uma utopia (ideal inalcançável). Ele a apresenta como uma consequência lógica – ainda que absurda – do raciocínio anterior.

Análise das alternativas

Tolerância levada ao extremo
  • 1Negação de si mesma
    • Torna-se intolerância
    • Totalitarismo em nome da tolerância
  • 2Natureza da afirmação
    • Contradição (gabarito)
    • Inverdade (não é falsa)
    • Falácia (não é erro lógico)
    • Incerteza (é categórica)
    • Utopia (não é ideal)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Inverdade significaria que o autor considera a afirmação falsa. Mas o texto a apresenta como uma conclusão decorrente do raciocínio, não como uma mentira. O autor não diz "isso é falso", ele diz "assim, chegamos". A alternativa extrapola ao atribuir ao autor um juízo de falsidade que ele não emite.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmação é uma contradição porque une termos antagônicos: tolerância e totalitarismo. O texto mostra que a tolerância, levada ao extremo, nega a si mesma e se transforma em seu oposto. Como o próprio autor escreve: "transformarmos a necessidade da tolerância em seu oposto". A conclusão é o ápice dessa contradição: "começando na tolerância chegamos ao totalitarismo". A alternativa parafraseia fielmente o sentido do trecho.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Falácia é um argumento logicamente inválido, que parece verdadeiro mas não é. O autor não está cometendo uma falácia; ele está apresentando uma tese – ainda que paradoxal – que ele defende ao longo do texto. A alternativa troca o conceito: confunde a natureza da afirmação (uma conclusão argumentativa) com um erro de raciocínio.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Incerteza implicaria dúvida ou hesitação do autor. Mas o texto é categórico: "Assim, começando na tolerância chegamos ao totalitarismo". Não há marcas de incerteza (como "talvez", "possivelmente"). A alternativa contradiz o texto, que apresenta a afirmação como uma conclusão firme.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Utopia é um ideal inalcançável, algo desejável mas impossível. O autor não apresenta o totalitarismo como algo desejável ou ideal; pelo contrário, é uma consequência negativa. A alternativa extrapola ao atribuir ao texto uma valoração que ele não faz.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a diferença entre "contradição" (oposição interna de ideias) e "inverdade" (falsidade). O candidato pode achar que a afirmação é falsa porque parece absurda, mas o autor a defende como conclusão lógica.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o valor semântico de uma afirmação, pergunte: o autor a apresenta como fato, como dúvida, como erro ou como consequência? Aqui, a palavra "Assim" indica conclusão, e a estrutura "começando... chegamos" mostra uma relação de causa e consequência, não de negação.

Conclusão: a resposta é a letra B, pois a afirmação do autor é uma contradição – a tolerância, levada ao extremo, nega a si mesma e se transforma em totalitarismo. As demais alternativas ou extrapolam, ou trocam o conceito, ou contradizem o texto.

Gabarito: letra B

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