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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184734
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Araçatuba
Ano
2023
Cargo
ADI ( )

Em silêncio

 

Precisava de silêncio para pensar, ordenar sua vida e rumos. Juntou poucas coisas, navegou até uma ilha deserta.

 

Mas a gritaria das aves marinhas fundia-se com o farfalhar do vento nas palmeiras, e quando ambos se calavam, batiam inevitáveis as ondas contra as pedras. Silêncio não havia.

 

Tomou suas coisas, voltou ao continente, recolheu-se numa gruta em montanha distante. Embora isolado, logo se viu rodeado de ruídos, pequenos alguns, minúsculos outros, que o aparente silêncio circundante agigantava. Era o gotejar do excesso de umidade, o esvoejar dos morcegos ao anoitecer, o zumbir de um ou outro inseto, um gorjear lá fora, um escavar cá dentro, um rastejar, e o ronco majestoso dos trovões, o estalar dos relâmpagos.

 

Novamente arrebanhou seus poucos pertences. E desceu a montanha, regressou à cidade. As chaves da sua casa tilintavam no bolso, não atendeu ao apelo. Tomou ônibus e metrô, caminhou até a praça mais central. Ali, onde tantos passavam e as buzinas dos carros e os apitos dos guardas e o gritar dos ambulantes e o chamado das sirenes se entrecruzavam, sentou-se. Assim como havia ignorado as chaves, ignorou os sons todos que lhe atingiam a cabeça, esqueceu os ouvidos. E, vagarosamente, começou a descida em seu silêncio interior.

 

(Marina Colasanti. Hora de alimentar serpentes. Global Editora, 2013)

No texto, as diversas tentativas do protagonista de encontrar um lugar silencioso
  1. Asão frustradas em razão de sua excessiva sensibilidade ao barulho, visto que mesmo sons quase imperceptíveis, como o barulho das ondas, o incomodam.
  2. Bsão ironizadas, já que, quanto mais isolado ele se encontra, mais altos são os sons que chegam até ele, como fica claro no exemplo da gruta em uma montanha distante.
  3. Crefletem a crítica feita pelo narrador aos grandes centros urbanos, os quais, diferentemente dos espaços naturais, não permitem que as pessoas pensem e ordenem sua vida.
  4. Drelacionam-se ao excesso de barulho em seu interior, que o impede de ouvir os rumores da cidade, como as buzinas dos carros e os apitos dos guardas.
  5. Elevam-no a se concentrar no silêncio em seu interior, o qual pode ser alcançado mesmo em um lugar barulhento e agitado como o centro de uma cidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — levam-no a se concentrar no silêncio em seu interior, o qual pode ser alcançado mesmo em um lugar barulhento e agitado como o centro de uma cidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

As tentativas de encontrar silêncio: da busca exterior à conquista interior

Gabarito: letra E. As tentativas do protagonista de encontrar um lugar silencioso levam-no a se concentrar no silêncio em seu interior, alcançável mesmo em um lugar barulhento e agitado como o centro de uma cidade. Essa é a tese do texto, explicitada no desfecho: após fracassar na ilha e na gruta, ele se senta na praça central e, ignorando os sons externos, inicia a descida em seu silêncio interior. A passagem que ancora a resposta é o último parágrafo: "Assim como havia ignorado as chaves, ignorou os sons todos que lhe atingiam a cabeça, esqueceu os ouvidos. E, vagarosamente, começou a descida em seu silêncio interior."

O comando pede interpretação ("No texto, as diversas tentativas..."), ou seja, exige que você deduza a ideia central a partir das pistas textuais, não que apenas localize uma informação literal. A banca quer que você perceba o movimento argumentativo do texto: o protagonista busca silêncio fora (ilha, gruta) e fracassa; só quando desiste do exterior e se volta para dentro de si é que encontra o que procura. A resposta correta é a que capta essa virada: o silêncio não está no mundo, mas no sujeito.

O texto é uma narrativa com forte carga simbólica. Cada tentativa (ilha, gruta, cidade) representa uma etapa da busca. Na ilha, os ruídos da natureza (aves, vento, ondas) impedem o silêncio. Na gruta, os ruídos mínimos (gotejar, esvoejar, zumbir) são agigantados pelo aparente silêncio. Na cidade, o caos sonoro é máximo, mas é justamente ali que ele ignora os sons e encontra o silêncio interior. A progressão é clara: o problema não é o barulho externo, mas a atitude interna de quem escuta.

A técnica decisiva é não confundir o percurso com o destino. As alternativas A, B, C e D descrevem aspectos do percurso (sensibilidade, ironia, crítica urbana, barulho interno), mas a tese — o que o texto quer defender — está no desfecho. Quando a banca pergunta "as diversas tentativas...", ela quer saber para onde elas conduzem, não o que elas revelam no meio do caminho. Por isso, a resposta correta é a que aponta a conclusão: o silêncio interior independe do lugar.

NÃO CAIA NESSA!

A banca arma com extrapolação — as alternativas A, B e C parecem plausíveis porque se apoiam em trechos reais, mas acrescentam uma opinião ou um juízo que o texto não sustenta. A letra E é a única que fecha o movimento do texto, sem exigir nada de fora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife o desfecho — é lá que mora a tese. Se o enunciado pergunta "as tentativas...", pergunte-se: "para onde elas levaram?" A resposta está no último parágrafo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as tentativas são frustradas por excessiva sensibilidade ao barulho, citando o som das ondas como exemplo. O texto, porém, não diz que o protagonista é excessivamente sensível; ele apenas constata que há ruídos em toda parte. Na ilha, lê-se: "Mas a gritaria das aves marinhas fundia-se com o farfalhar do vento nas palmeiras, e quando ambos se calavam, batiam inevitáveis as ondas contra as pedras. Silêncio não havia." O narrador não avalia a sensibilidade do personagem; apenas descreve a impossibilidade factual do silêncio externo. A alternativa extrapola ao atribuir um traço psicológico (sensibilidade excessiva) que o texto não menciona.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em ironia e afirma que "quanto mais isolado, mais altos são os sons". O texto não usa ironia — o tom é sério e reflexivo. Além disso, na gruta os sons não são mais altos; eles são agigantados pelo aparente silêncio: "pequenos alguns, minúsculos outros, que o aparente silêncio circundante agigantava." Ou seja, o texto diz que o silêncio amplifica a percepção dos ruídos, não que eles sejam mais altos em volume. A alternativa contradiz o texto ao trocar "agigantava" (percepção) por "mais altos" (volume físico).

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto faz uma crítica aos grandes centros urbanos, contrapondo-os aos espaços naturais. O texto, porém, não critica a cidade — pelo contrário, é nela que o protagonista encontra o silêncio interior. A passagem final mostra que ele se senta na praça central, "onde tantos passavam e as buzinas dos carros e os apitos dos guardas e o gritar dos ambulantes e o chamado das sirenes se entrecruzavam", e ali mesmo "começou a descida em seu silêncio interior". A cidade não é vilã; é o cenário da conquista. A alternativa extrapola ao inventar uma crítica que o texto não faz.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa inverte a relação: diz que o excesso de barulho interno impede de ouvir os rumores da cidade. O texto diz exatamente o oposto: é o barulho externo que é ignorado para se alcançar o silêncio interno. "Assim como havia ignorado as chaves, ignorou os sons todos que lhe atingiam a cabeça, esqueceu os ouvidos." O protagonista não é impedido de ouvir a cidade; ele escolhe não ouvir. A alternativa contradiz o texto ao trocar o sujeito da ação: não é o barulho interno que bloqueia o externo, é a vontade que silencia os ouvidos.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa capta a tese do texto: as tentativas de encontrar silêncio no exterior fracassam, e o protagonista descobre o silêncio interior, que independe do lugar. A passagem decisiva é o desfecho: "E, vagarosamente, começou a descida em seu silêncio interior." O verbo "descer" sugere um movimento para dentro, não para fora. E o fato de isso ocorrer na praça central, em meio ao caos sonoro, prova que o silêncio não depende do ambiente. A alternativa é uma paráfrase fiel do desfecho, sem acrescentar nada que o texto não diga.

Conclusão: a questão testa a habilidade de identificar a tese em uma narrativa simbólica. As alternativas A, B, C e D descrevem aspectos parciais do percurso, mas a única que fecha o sentido global é a E. Lembre-se: em interpretação, o desfecho é a chave — é lá que o autor revela o que realmente quer dizer.

Gabarito: letra E

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