Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184755
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Itapevi
Ano
2023
Cargo
Ag ( )
Holocausto animal
Muitos sobreviventes do Holocausto passaram a traçar paralelos entre o que viveram no campo de concentração e como tratamos os animais que comemos. O escritor Isaac Bashevis Singer, Nobel de Literatura de 1978, escreveu: “Em relação aos animais, todas as pessoas são nazistas; para os animais, é uma eterna Treblinka*”.
A ONG People for the Ethical Treatment of Animals passou a usar a analogia em 2006 nas suas campanhas, o que causou indignação entre líderes judeus, incluindo o Museu do Holocausto americano.
Resgataram textos de outros sobreviventes e escritores de renome para ampliar o movimento. Edgar Kupfer-Koberwitz, jornalista alemão também sobrevivente, escreveu em 1940: “Acredito que enquanto o homem tortura e mata animais, ele também torturará e matará humanos, e guerras serão travadas.
De outro sobrevivente do Holocausto, Alex Hershaft: “Os nazistas fizeram com minha família e meu povo o que fazemos com os animais que criamos para comer: a marcação ou tatuagem de números de série para identificar as vítimas, o uso de vagões de gado para transportar as vítimas para a morte, o alojamento lotado de vítimas em caixotes de madeira, a designação arbitrária de quem vive e quem morre – o cristão vive, o judeu morre; o cão vive, o porco morre”.
Marguerite Yourcenar também escreveu que todo ato de crueldade sofrido por animais é um crime contra a humanidade: “Se não aceitamos o transporte de seres humanos a campos de concentração, como aceitaríamos o ‘desumano’ transporte de animais a matadouros?”.
Vira e mexe, meu check-up aponta falta de ferro e anemia. É grave. Uma solução é a eventual infusão de soro com ferro, que mais se parece com uma frigideira vermelha líquida derretida que entra no sangue em gotas.
Me receitaram alimentos de origem animal (coração de galinha, fígado, língua de boi, peixes, frutos do mar, ovos, carnes e aves). Preciso de seu ferro e o da panela. Quero ser vegano. Difícil viver atualmente sem se sentir um abusador de animais.
* Treblinka: quarto campo de extermínio alemão onde judeus foram exterminados em câmaras de gás.
(Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo, 10 de março de 2023. Adaptado)
Da leitura do texto, depreende-se que o autor
Aexpressa, com tranquilidade, seu desejo e sua opção de continuar a alimentar-se de produtos animais.
Bsabe que, para uma boa saúde, os alimentos de origem animal devem, antes de serem ingeridos, ir para as panelas.
Ctem a intenção de deixar de comer carne para não se sentir um “nazista” em relação aos animais.
Dsente-se privilegiado por ter condições de comer frutos do mar e outros alimentos para manter o nível de ferro adequado.
Ediscorda dos escritores sobreviventes do Holocausto que relatam a matança de pessoas e os maus-tratos aos animais.
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GabaritoC — tem a intenção de deixar de comer carne para não se sentir um “nazista” em relação aos animais.
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Interpretação: a intenção do autor em "Holocausto animal"
Gabarito: letra C. O autor tem a intenção de deixar de comer carne para não se sentir um "nazista" em relação aos animais — é o que se depreende da passagem final do texto, em que ele afirma: "Quero ser vegano. Difícil viver atualmente sem se sentir um abusador de animais." A alternativa C é a única que capta essa intenção declarada, ancorada no desejo explícito de se tornar vegano e no desconforto moral de se sentir um "abusador" — termo que ecoa a analogia com o nazismo apresentada no início do texto.
O comando pede uma inferência ("depreende-se"), ou seja, uma conclusão que o texto autoriza, ainda que não esteja dita palavra por palavra. A resposta não está literalmente escrita como "vou parar de comer carne", mas é uma dedução obrigatória a partir das pistas textuais: o desejo de ser vegano e o incômodo de se sentir abusador. Vamos ao método.
O comando: inferir, não localizar
O verbo "depreende-se" sinaliza que a questão é de interpretação/inferência: a resposta não é uma cópia do texto, mas uma conclusão que ele obriga o leitor a tirar. Diferente de uma questão de compreensão ("de acordo com o texto"), aqui você precisa conectar pistas e chegar a uma ideia implícita. A banca quer saber se você percebe a intenção do autor, não apenas o que ele relata.
O texto: da analogia ao desejo pessoal
O texto tem duas partes claras: (1) a apresentação da analogia entre o Holocausto e o tratamento dado aos animais, com citações de sobreviventes e escritores; (2) a virada pessoal do autor, que relata seu problema de saúde (anemia) e a recomendação médica de comer alimentos de origem animal. É nessa segunda parte que mora a resposta.
O autor não apenas cita a analogia — ele a internaliza. Veja o trecho decisivo:
"Quero ser vegano. Difícil viver atualmente sem se sentir um abusador de animais."
Aqui está a chave: o autor quer ser vegano (intenção) e se sente mal por não ser ("difícil viver... sem se sentir um abusador"). A palavra "abusador" remete diretamente à analogia do início — se "em relação aos animais, todas as pessoas são nazistas", então comer carne é, na visão do autor, participar dessa violência. A intenção de parar de comer carne é a conclusão lógica desse raciocínio.
A técnica: inferência com pista, não extrapolação
A alternativa C é uma inferência legítima porque se apoia em pistas concretas: o verbo "quero" (desejo) e o adjetivo "difícil" (desconforto). Não é preciso acrescentar nada de fora — o texto mesmo diz que o autor quer ser vegano. A banca apenas traduz isso em outras palavras: "tem a intenção de deixar de comer carne".
O erro clássico aqui seria extrapolar: inventar que o autor já é vegano, ou que ele odeia comer carne, ou que ele condena quem come. Nada disso está no texto. A alternativa C fica exatamente no limite do que o texto autoriza: a intenção, não a ação consumada.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"expressa, com tranquilidade, seu desejo e sua opção de continuar a alimentar-se de produtos animais"
Erro: contradiz o texto. O autor não expressa tranquilidade nem desejo de continuar comendo produtos animais. Pelo contrário: ele diz "Quero ser vegano" e reclama que é "difícil viver... sem se sentir um abusador de animais". A palavra "tranquilidade" é o vocábulo que inverte o sentido — o autor está claramente desconfortável, não tranquilo. A alternativa troca o desejo de parar pelo desejo de continuar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"sabe que, para uma boa saúde, os alimentos de origem animal devem, antes de serem ingeridos, ir para as panelas"
Erro: tangencia o tema (fuga ao assunto). O texto menciona que o autor precisa de ferro e que "preciso de seu ferro e o da panela" — mas isso é uma observação coloquial sobre cozinhar, não uma tese sobre saúde. A alternativa reduz o texto a uma banalidade culinária e ignora completamente o eixo central: a analogia com o Holocausto e o desejo de ser vegano. É uma leitura literal e superficial que não capta a intenção do autor.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"tem a intenção de deixar de comer carne para não se sentir um 'nazista' em relação aos animais"
Correta: paráfrase fiel da intenção do autor. O texto diz "Quero ser vegano" (intenção de parar de comer carne) e "Difícil viver atualmente sem se sentir um abusador de animais" (motivo: não querer se sentir abusador). A palavra "nazista" entre aspas remete à citação de Isaac Bashevis Singer no início: "Em relação aos animais, todas as pessoas são nazistas". O autor quer deixar de comer carne para não se sentir parte dessa violência. Tudo isso está ancorado no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"sente-se privilegiado por ter condições de comer frutos do mar e outros alimentos para manter o nível de ferro adequado"
Erro: extrapola (acrescenta opinião). O texto lista os alimentos recomendados ("coração de galinha, fígado, língua de boi, peixes, frutos do mar, ovos, carnes e aves"), mas não diz que o autor se sente privilegiado por isso. A palavra "privilegiado" é um juízo de valor que o autor não externa — ele apenas relata a recomendação médica. A alternativa inventa um sentimento que não está no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"discorda dos escritores sobreviventes do Holocausto que relatam a matança de pessoas e os maus-tratos aos animais"
Erro: contradiz o texto. O autor concorda com os escritores — ele os cita como autoridade para sua própria reflexão. A frase "Quero ser vegano. Difícil viver atualmente sem se sentir um abusador de animais" mostra que ele adota a analogia, não a rejeita. A alternativa inverte completamente a posição do autor: ele não discorda, ele se identifica com o argumento.
Fechamento
A regra de ouro desta questão: inferência exige pista no texto. A alternativa C é a única que se apoia em marcas linguísticas concretas ("quero", "difícil", "abusador") e as traduz em uma conclusão lógica. As demais ou contradizem o texto (A, E), ou fogem do tema (B), ou extrapolam com opiniões que o autor não emitiu (D).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "depreende-se", pergunte: "qual pista do texto me obriga a concluir isso?" Se a alternativa depende de algo que você trouxe de fora ("privilegiado", "tranquilidade"), ela está errada.