Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184758
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Itapevi
Ano
2023
Cargo
Cont ( )
Jornalismo e objetividade
Qual o futuro do jornalismo? Leonard Downie Jr. e Andrew Heyward ensaiam uma resposta em “Beyond Objectivity”.
Os autores propõem que a busca pela objetividade deixe de ser uma meta declarada do jornalismo, já que ela claramente não pode ser alcançada. Concordo com o diagnóstico, mas não com a terapêutica. A ideia de que um repórter pudesse ser objetivo ao escrever uma história nunca foi filosoficamente consistente. Não há indivíduo que não tenha manias, preferências ideológicas e vieses. Sempre brinco que o jornalismo é a realização diária de uma impossibilidade teórica.
Reluto, porém, em abraçar a tese de que devamos renunciar à objetividade. Penso que tentar alcançá-la, mesmo sabendo que jamais chegaremos lá, nos força a uma disciplina que tende a melhorar a qualidade das reportagens.
O repórter que se preocupa em buscar o equilíbrio e considera perspectivas diferentes da sua provavelmente fará um trabalho melhor do que aquele que veste o chapéu do militante e já tem todas as conclusões prontas antes mesmo de começar.
O modelo de negócios tem muito a ver com isso. A ideia de objetividade no jornalismo americano foi favorecida pelo fato de que, até há pouco, publicações dependiam mais de anúncios do que da venda de exemplares. Como comerciantes, que são o grosso dos anunciantes, querem ficar bem com todos, os jornais escaparam um pouco das pressões de seu próprio público por algum tipo de alinhamento ideológico.
Isso mudou. As empresas agora dependem mais de seus clientes. É só ver que executivos da Fox News cogitaram de esconder dados de seu caprichoso público para não ferir sua suscetibilidade e, assim, não perder audiência.
Aa insistência em produzir matérias de forma isenta faz com que muitas empresas não encontrem receptividade em certos grupos sociais.
Bo entendimento segundo o qual, em reportagens, há espaço para devaneios filosóficos e ideológicos está definitivamente superado.
Ca ideia de objetividade esbarra no fato de seu conteúdo estar impregnado pelos valores e pela percepção da realidade de quem o produziu.
Das grandes empresas de comunicação têm perdido espaço para canais menores e sem compromisso com a qualidade das publicações.
Ea necessidade de conservar clientes tem levado empresas do ramo a rejeitar a publicação de anúncios que possam ferir os valores de seu público.
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GabaritoC — a ideia de objetividade esbarra no fato de seu conteúdo estar impregnado pelos valores e pela percepção da realidade de quem o produziu.
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Jornalismo e objetividade: a tese do autor
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que parafraseia fielmente a tese central do texto: a objetividade jornalística é inalcançável porque todo conteúdo produzido carrega os valores e a percepção de quem o escreveu. Essa ideia está explícita no 2º parágrafo, quando o autor afirma que "não há indivíduo que não tenha manias, preferências ideológicas e vieses" e que "o jornalismo é a realização diária de uma impossibilidade teórica". As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou trocam termos essenciais, ou contradizem o que foi dito.
O comando pede compreensão ("Conforme apontado no texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase — reescritura fiel — de uma informação explícita. Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo: a alternativa correta precisa estar literalmente sustentada por uma passagem. Por isso, o método é: localizar no texto a ideia que cada alternativa reformula e verificar se a reformulação preserva o sentido ou se altera algum detalhe crucial.
O texto é um artigo de opinião de Hélio Schwartsman. O autor concorda com a crítica à objetividade como meta alcançável, mas discorda da proposta de abandoná-la. Ele defende que, mesmo sendo impossível, a busca pela objetividade impõe uma disciplina que melhora a qualidade das reportagens. No 2º parágrafo, está a base da alternativa C:
"Não há indivíduo que não tenha manias, preferências ideológicas e vieses"
Essa passagem autoriza a afirmação de que a objetividade esbarra no fato de o conteúdo estar impregnado pelos valores e pela percepção de quem o produziu. O autor não diz que a objetividade é impossível por falta de técnica ou por pressão do mercado — diz que é impossível porque o repórter é um ser humano com vieses. A alternativa C capta exatamente isso.
Agora, vamos analisar cada alternativa, nomeando o erro específico de cada uma.
Objetividade jornalística: Tese do autor (Impossível na prática, Todo repórter tem vieses, Conteúdo carrega valores de quem produz); Posição do autor (Busca pela objetividade é disciplina, Melhora a qualidade); Erros das demais alternativas (Extrapolação (inventa consequência), Contradição (inverte relação), Troca de termo essencial)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A afirma que "a insistência em produzir matérias de forma isenta faz com que muitas empresas não encontrem receptividade em certos grupos sociais". O texto não diz isso. Em nenhum momento o autor afirma que a busca pela isenção causa rejeição de grupos sociais. O que o texto diz é que a objetividade é uma meta impossível e que, mesmo assim, tentar alcançá-la melhora a qualidade. A alternativa extrapola ao inventar uma consequência (falta de receptividade) que não está no texto. Além disso, troca o foco: o texto fala da dificuldade do repórter em ser objetivo, não da reação do público.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que "o entendimento segundo o qual, em reportagens, há espaço para devaneios filosóficos e ideológicos está definitivamente superado". O texto não diz isso. O autor diz que a objetividade é impossível porque todo repórter tem vieses, mas não diz que isso é "superado" ou que não há espaço para reflexões. Pelo contrário, ele defende que a busca pela objetividade é uma disciplina que melhora o trabalho. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que essa visão está "superada", quando o autor a considera atual e relevante. Além disso, o termo "devaneios filosóficos" é uma opinião embutida que o autor não expressa.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa C afirma que "a ideia de objetividade esbarra no fato de seu conteúdo estar impregnado pelos valores e pela percepção da realidade de quem o produziu". Isso é uma paráfrase exata do 2º parágrafo:
"Não há indivíduo que não tenha manias, preferências ideológicas e vieses"
O autor diz que todo indivíduo tem vieses, ou seja, que o conteúdo produzido por um repórter carrega seus valores e sua percepção. A alternativa C diz exatamente isso, sem acrescentar nada de fora. É a única que se sustenta integralmente no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que "as grandes empresas de comunicação têm perdido espaço para canais menores e sem compromisso com a qualidade das publicações". O texto não menciona canais menores nem perda de espaço. O autor fala sobre o modelo de negócios e a dependência de anúncios, mas não faz essa comparação. A alternativa tangencia o tema (fala de empresas de comunicação) mas foge ao texto ao introduzir uma informação que não está nele. É uma extrapolação clássica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que "a necessidade de conservar clientes tem levado empresas do ramo a rejeitar a publicação de anúncios que possam ferir os valores de seu público". O texto diz que as empresas dependem mais dos clientes e cita o exemplo da Fox News, que "cogitaram de esconder dados de seu caprichoso público para não ferir sua suscetibilidade". Mas o texto não diz que as empresas rejeitam anúncios. Pelo contrário, o texto diz que os jornais dependiam de anúncios e que os anunciantes querem ficar bem com todos. A alternativa troca o termo: o texto fala em esconder dados para não perder audiência, não em rejeitar anúncios. Além disso, a alternativa inverte a relação: o texto diz que as empresas se adaptam ao público, não que rejeitam anúncios. É uma contradição com o que está escrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora trocar um termo crucial ("anúncios" por "clientes", "isenta" por "objetiva") ou extrapolar com uma consequência que o texto não menciona. Desconfie de alternativas que usam palavras absolutas como "definitivamente", "sempre", "nunca" — elas quase sempre restringem ou generalizam demais.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife o comando ("Conforme apontado no texto") e, para cada alternativa, pergunte: "O texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Se a resposta for "acrescentar", a alternativa está errada.
Conclusão: a única alternativa que se sustenta integralmente no texto é a C, pois parafraseia a tese central do autor: a objetividade é impossível porque todo conteúdo carrega os valores e a percepção de quem o produziu. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou trocam termos essenciais.