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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184761
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Itapevi
Ano
2023
Cargo
Cont ( )

Os jornais

 

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

 

– Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:

 

“Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na face, culminando em um beijo na orelha esquerda.

 

Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, murmurando as seguintes palavras: ‘Meu amor’, ao que ele retorquiu: ‘Deolinda’.”

 

E meu amigo:

 

– Se um repórter redigir essas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…

 

(Rubem Braga. A borboleta Amarela. 10a ed. – Rio de Janeiro: Record, 1998. Excerto adaptado)

Na crônica, é discutida a ideia de que
  1. Aa comparação entre as notícias do Brasil e as vindas de fora escancara a realidade de que por aqui as tragédias são mais frequentes.
  2. Bos jornais têm intenção de deturpar a realidade, visto que pintam tragédias com cores muito mais sombrias do que realmente são.
  3. Ca predileção dos jornais pela publicação de fatos impactantes produz a sensação de que no mundo predominam as notícias negativas.
  4. Da seleção dos acontecimentos que serão noticiados no Brasil reproduz o gosto por tragédias de países como Inglaterra e França.
  5. Eos profissionais do jornalismo têm pouco apreço pela liberdade de que dispõem para escolher os assuntos que serão noticiados.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a predileção dos jornais pela publicação de fatos impactantes produz a sensação de que no mundo predominam as notícias negativas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crítica à seleção de notícias nos jornais

Gabarito: letra C. A crônica discute a ideia de que a predileção dos jornais pela publicação de fatos impactantes produz a sensação de que no mundo predominam as notícias negativas. O texto sustenta isso ao afirmar que o jornal "escolhe os fatos que noticia" e que "quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico", deixando de lado a vida banal, como se lê no trecho: "Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…".

O comando pede uma compreensão do texto: a alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel do que está explícito, sem deduções ou acréscimos. A tese central do amigo do narrador é que os jornais falsificam a imagem do mundo ao selecionar apenas acontecimentos extraordinários e trágicos, criando a impressão de que o mundo é "uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças". A alternativa C captura exatamente essa relação: a seleção (predileção) de fatos impactantes gera a sensação de predominância de notícias negativas.

A técnica decisiva aqui é testar cada alternativa contra o texto, perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? As distratoras falham justamente por extrapolar (acrescentar intenções, comparações ou juízos que o texto não faz) ou por restringir o alcance da crítica. Vejamos cada uma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a comparação entre notícias do Brasil e de fora escancara que por aqui as tragédias são mais frequentes. O texto não faz essa comparação. O amigo cita desastres na França, Inglaterra e Índia apenas como exemplos de notícias trágicas, mas não estabelece qualquer paralelo com o Brasil nem afirma que as tragédias brasileiras são mais frequentes. Isso é extrapolação: a alternativa inventa uma comparação e uma conclusão que não estão no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que os jornais têm intenção de deturpar a realidade, pintando tragédias com cores mais sombrias. O texto, porém, não atribui intenção aos jornais; o amigo afirma que eles "escolhem os fatos que noticiam" porque "quer fatos que sejam notícias", ou seja, há uma seleção por critério de noticiabilidade, não uma deturpação deliberada. A palavra "deturpar" implica má-fé, o que o texto não sustenta. Isso é acréscimo de opinião (juízo de valor não externado pelo autor).

Alternativa C — ✅ Correta

A alternativa C é uma paráfrase fiel da tese central. O texto diz que o jornal "escolhe os fatos que noticia" e que "quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico", e o amigo conclui que, por isso, o mundo parece "uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças". A alternativa captura exatamente essa relação: a predileção por fatos impactantes (seleção) produz a sensação de que predominam notícias negativas. Não há acréscimo nem restrição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a seleção de notícias no Brasil reproduz o gosto por tragédias de países como Inglaterra e França. O texto não diz isso. Os exemplos de desastres na França, Inglaterra e Índia são apenas ilustrações de notícias trágicas, não uma afirmação de que o Brasil copia o gosto de outros países. Isso é extrapolação: a alternativa cria uma relação de causa e efeito que não existe no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa diz que os profissionais do jornalismo têm pouco apreço pela liberdade de escolher os assuntos. O texto não menciona a liberdade dos jornalistas nem faz qualquer juízo sobre o apreço deles. O amigo critica a seleção de fatos, mas não atribui isso a uma falta de apreço pela liberdade. Isso é tangenciar o tema: fala de algo remotamente relacionado (a escolha de assuntos) mas que o texto não aborda.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, as distratoras A, B, D e E acrescentam intenções, comparações ou juízos que não estão no texto. A correta é a única que se limita ao que o texto diz.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "é discutida a ideia de que" pede compreensão — a resposta deve ser uma paráfrase do que está explícito, não uma inferência ou opinião sua.

Gabarito: letra C.

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