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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184766
Banca
VUNESP
Órgão
CM SBO
Ano
2023
Cargo
Ana Sis ( )

Uma analogia frequentemente usada para falar de divulgação científica descreve o cientista como um ser enclausurado em uma torre de marfim isolada do resto da sociedade. A metáfora costuma ser a deixa para defender que ele tem o dever de descer da torre ou construir pontes para compartilhar o conhecimento produzido na academia com o cidadão comum. Essa história sempre me pareceu estranha por retratar a pesquisa acadêmica como uma torre de marfim: uma estrutura sólida, robusta e imaculada.

 

É óbvio que cientistas sabem algumas coisas com um grau muito alto de certeza. Computadores, celulares e bombas atômicas estão aí para provar o sucesso acachapante das leis da física em fazer previsões sobre a realidade. Da mesma forma, ninguém discutiria no meio médico que antibióticos são capazes de matar bactérias, ou que a insulina salvou a vida de milhões de diabéticos.

 

Ao mesmo tempo, porém, quase um século de estudos sobre nutrição não conseguiu responder a questões básicas, como saber se é melhor basear uma dieta em carboidratos ou lipídeos. Décadas de investimento na neurobiologia dos transtornos mentais tiveram um impacto raso na saúde mental das populações. E os bilhões de dólares investidos em pesquisa básica sobre Alzheimer que se converteram em praticamente nada de útil na clínica? Em algumas áreas da ciência, ao menos, a tal torre de marfim está mais para um castelo de cartas.

 

Os defensores da ciência serão rápidos em argumentar que o fracasso desses campos não se traduz necessariamente em uma mácula no currículo da pesquisa acadêmica. Alguns problemas são simplesmente difíceis, e é perfeitamente possível que, a qualquer momento, essas décadas de investimento em pesquisa comecem a trazer seu retorno para a sociedade.

 

Minha impressão é de que a pesquisa acadêmica tem muitos pontos a serem melhorados – e minha intenção, mais do que a propagandear, é me debruçar sobre suas mazelas. Que ninguém pense, porém, que estou descendo da torre de marfim para fazê-lo. Pelo contrário, sempre estive falando ao rés do chão: se há alguma torre nessa história, meu intuito é ajudar a construí-la.

 

(Olavo Amaral. Torres de marfim, castelos de cartas e telhados de vidro. www.nexojornal.com.br, 23.08.2022. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.     Os exemplos apresentados no campo da nutrição, da neurobiologia e das pesquisas sobre o Alzheimer (3o parágrafo) servem no texto para
  1. Acorroborar o que se afirmou no parágrafo anterior.
  2. Breforçar o argumento de que a analogia se sustenta.
  3. Cenfatizar a fragilidade do que se considera inabalável.
  4. Deximir a ciência de falhas e atrasos em seus resultados.
  5. Ecriar a ilusão de que a ciência cumpriu o seu papel.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — enfatizar a fragilidade do que se considera inabalável.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A função dos exemplos no 3º parágrafo: desconstruir a torre de marfim

Gabarito: letra C. Os exemplos da nutrição, da neurobiologia e do Alzheimer servem para enfatizar a fragilidade do que se considera inabalável — ou seja, para mostrar que a ciência, vista como uma "torre de marfim" sólida e imaculada, na verdade tem áreas que se assemelham a um "castelo de cartas". A passagem que ancora essa leitura está no fechamento do 3º parágrafo: "Em algumas áreas da ciência, ao menos, a tal torre de marfim está mais para um castelo de cartas."

O comando pede que você identifique a função argumentativa dos exemplos citados no 3º parágrafo — não o conteúdo deles em si, mas o papel que desempenham na construção do raciocínio do autor. Isso é uma questão de inferência: a resposta não está escrita literalmente em cada exemplo, mas é a conclusão que o texto obriga a tirar quando você observa o movimento do parágrafo.

O movimento do texto

O autor começa apresentando a metáfora da torre de marfim — uma estrutura "sólida, robusta e imaculada" — e diz que ela sempre lhe pareceu estranha. No 2º parágrafo, ele concede que a ciência tem sucessos inegáveis (computadores, antibióticos, insulina). Mas o 3º parágrafo abre com "Ao mesmo tempo, porém" — um conectivo de oposição que sinaliza a virada argumentativa. É aí que entram os exemplos: quase um século de estudos sobre nutrição sem responder questões básicas; décadas de investimento em neurobiologia com impacto raso; bilhões em pesquisa sobre Alzheimer que não renderam nada de útil na clínica.

Esses exemplos não são aleatórios: eles formam uma tríade de fracassos que contrasta com o sucesso das ciências exatas citado antes. A conclusão do parágrafo amarra tudo:

"Em algumas áreas da ciência, ao menos, a tal torre de marfim está mais para um castelo de cartas."

A imagem do castelo de cartas é o oposto da torre de marfim: algo frágil, que pode desmoronar a qualquer sopro. Portanto, os exemplos servem para enfraquecer a ideia de que a ciência é inabalável — exatamente o que a alternativa C afirma.

A técnica: como testar cada alternativa

Pergunte-se sempre: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? No caso, a alternativa correta é a que melhor parafraseia a conclusão do 3º parágrafo. As demais ou contradizem o texto, ou extrapolam, ou tangenciam o assunto.

Função dos exemplos (3º parágrafo)
  • 1Contexto
    • 2º parágrafo: sucessos da ciência
    • 3º parágrafo: "Ao mesmo tempo, porém" (oposição)
  • 2Tríade de fracassos
    • Nutrição: sem respostas básicas
    • Neurobiologia: impacto raso
    • Alzheimer: nada útil na clínica
  • 3Conclusão
    • Torre de marfim → castelo de cartas
    • Enfatiza a fragilidade do que se considerava inabalável
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O 3º parágrafo não corrobora o 2º; ele o contrapõe. O 2º parágrafo fala dos sucessos da ciência (física, antibióticos, insulina); o 3º fala dos fracassos em outras áreas. A relação entre eles é de oposição (marcada pelo "porém"), não de confirmação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Os exemplos não reforçam a analogia da torre de marfim; eles a desconstroem. A torre de marfim é sólida; os exemplos mostram áreas em que a ciência é frágil. A alternativa inverte o sentido do parágrafo.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. Os exemplos mostram que áreas como nutrição, neurobiologia e Alzheimer não conseguiram entregar resultados à altura do investimento — ou seja, a ciência não é tão sólida quanto a metáfora sugere. A passagem "a tal torre de marfim está mais para um castelo de cartas" é a prova textual direta: o que se considerava inabalável (a torre) revela-se frágil (castelo de cartas).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Os exemplos não eximem a ciência de falhas; eles evidenciam as falhas. O texto fala em "impacto raso", "praticamente nada de útil", "fracasso desses campos" — tudo isso aponta para deficiências, não para ausência de culpa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Os exemplos não criam a ilusão de que a ciência cumpriu seu papel; eles mostram o contrário: áreas em que a ciência não cumpriu o que se esperava. A alternativa inverte completamente o sentido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tentação de achar que os exemplos reforçam a analogia da torre de marfim (alternativa B), quando na verdade eles a desconstroem. Fique atento ao conectivo "porém" e à imagem final do "castelo de cartas".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de função argumentativa, localize o tópico frasal do parágrafo (geralmente no início) e a conclusão (geralmente no fim). Os exemplos servem para sustentar a conclusão — é nela que mora a resposta.

Gabarito: letra C — os exemplos enfatizam a fragilidade do que se considera inabalável, transformando a torre de marfim em castelo de cartas.

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