Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184773
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SP
Ano
2023
Cargo
FPM ( )
Leia o texto para responder à questão seguinte. O “flâneur” é uma figura ligada a um tempo, um lugar e uma pessoa. O tempo é meado do século 19. O lugar é Paris, após as grandes reformas urbanas. A pessoa é o poeta Charles Baudelaire. Incensado pelo filósofo Walter Benjamin, o “flâneur” virou um ícone das contradições da modernidade após as grandes reformas urbanas. Caminhar sem destino desafiava o utilitarismo. Andar devagar desafiava a eficiência. Observar tudo sem comprar nada desafiava o capitalismo. Com o tempo, a palavra se soltou das amarras e ganhou novos usos. Flanar é andar sem destino, coletando experiências. E esse sentido pode ser a chave para explorar uma cidade contemporânea, seja ela desconhecida, seja ela onde você mora. Para mim, as melhores caminhadas são sempre em cidades antigas. Assim é em Roma ou na pequena San Gimignano, onde sentei para comer uma pizza e ganhei amigos para a vida inteira. Em Nara, a antiga capital japonesa, saí de um restaurante e dei de cara com um veadinho, pulando feliz entre as ruas vazias. Mesmo no lugar onde moro, São Paulo, às vezes consigo ter essa sensação de andar por uma cidade desconhecida, apenas por virar numa rua em vez de seguir em frente. Ao chegar a uma praça que nunca vi, serei recompensado com a visão de crianças brincando, adultos entrando numa academia de bairro, uma pessoa lendo um inesperado livro no ponto de ônibus e talvez até um vendedor de milho verde. Ao planejar seus passeios, brasileiros sempre se preocupam — com razão — com a segurança. Nas suas caminhadas, cada um vai montar sua estratégia e andar onde se sente confortável. Você vai se perder, mas vai encontrar o caminho. E, de quebra, vai chegar ao final uma pessoa um pouquinho diferente. (Mauro Calliari, “A arte de flanar, um convite para aproveitar as pequenas coisas que as cidades oferecem”. https://www1.folha.uol.com.br, 07.07.2023. Adaptado) No primeiro parágrafo, ao afirmar que “o ‘flâneur’ virou um ícone das contradições da modernidade após as grandes reformas urbanas”, o autor considera que isso decorre
Ado modelo de interação humana em que o ‘flâneur’ vive de forma desconstruída, aceitando o novo cenário urbano.
Bda visão própria do ‘flâneur’ em relação ao espaço das cidades, que opõe à visão utilitarista e capitalista da sociedade.
Cdo recurso do ‘flâneur’ ao desafio à eficiência, ainda que viesse a aceitar com placidez as grandes reformas urbanas.
Dda maneira orgânica e planejada como o ‘flâneur’ concebe a sua existência em um espaço pessoal ou coletivo.
Eda intenção deliberada do ‘flâneur’ em harmonizar-se com as transformações que vinham impor-se nas grandes cidades.
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GabaritoB — da visão própria do ‘flâneur’ em relação ao espaço das cidades, que opõe à visão utilitarista e capitalista da sociedade.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A oposição do flâneur ao utilitarismo e ao capitalismo
Gabarito: letra B. O autor considera que o flâneur virou ícone das contradições da modernidade porque sua visão do espaço urbano se opõe à visão utilitarista e capitalista da sociedade — como se lê no 2º parágrafo: "Caminhar sem destino desafiava o utilitarismo. Andar devagar desafiava a eficiência. Observar tudo sem comprar nada desafiava o capitalismo." A alternativa B é a única que parafraseia fielmente essa oposição, sem acrescentar ou inverter nada.
O comando: compreensão com inferência leve
O enunciado pergunta "o autor considera que isso decorre" — ou seja, pede que você identifique a causa que o texto atribui ao fato de o flâneur ter virado ícone das contradições da modernidade. Não é uma questão de mera localização literal, mas também não exige dedução além do texto: a resposta está implícita na sequência argumentativa do 1º e 2º parágrafos. O 1º parágrafo afirma o fato ("virou um ícone das contradições da modernidade"); o 2º parágrafo explica por quê — porque o flâneur, ao caminhar sem destino, andar devagar e observar sem comprar, desafiava o utilitarismo, a eficiência e o capitalismo. A banca quer que você conecte essa explicação à afirmação anterior.
O texto: a tese e o movimento argumentativo
O texto apresenta o flâneur como figura histórica (Baudelaire, Paris do século XIX) e, em seguida, define sua essência: andar sem destino, coletando experiências. O 2º parágrafo é o coração da questão: ele estabelece uma oposição entre o comportamento do flâneur e os valores da sociedade moderna. Cada ação do flâneur (caminhar sem destino, andar devagar, observar sem comprar) desafia um valor (utilitarismo, eficiência, capitalismo). Essa oposição é a causa de ele ser considerado um ícone das contradições da modernidade. As demais alternativas ou invertem essa oposição (dizem que ele se harmoniza ou aceita), ou restringem o alcance (falam só de eficiência), ou extrapolam (falam de interação humana desconstruída, que não está no texto).
A técnica: como testar cada alternativa
A pergunta é de compreensão com inferência leve: a resposta não está literalmente escrita, mas é dedução ancorada em pistas do texto. Para cada alternativa, pergunte: o texto autoriza isto? A alternativa correta deve ser uma paráfrase (reescritura fiel) do que o texto diz, sem acrescentar, omitir ou inverter nada. As incorretas cometem erros típicos: extrapolar (acrescentar ideias de fora), restringir (limitar o alcance com palavras como "apenas" ou "ainda que"), contradizer (inverter a oposição) ou tangenciar (falar de assunto correlato, mas não abordado).
Flâneur: ícone das contradições
1Oposição aos valores modernos
Caminhar sem destino → desafia utilitarismo
Andar devagar → desafia eficiência
Observar sem comprar → desafia capitalismo
2Erros das demais alternativas
Extrapolação (inventa ideias fora do texto)
Restrição (limita o alcance)
Contradição (inverte a oposição)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa fala em "modelo de interação humana em que o 'flâneur' vive de forma desconstruída, aceitando o novo cenário urbano". O texto não menciona "interação humana", "forma desconstruída" nem "aceitação" do cenário urbano. Pelo contrário, o flâneur desafia o utilitarismo, a eficiência e o capitalismo — não os aceita. A alternativa inventa uma ideia que não está no texto.
Alternativa B — ✅ Correta
Paráfrase fiel. A alternativa diz que o flâneur tem "visão própria em relação ao espaço das cidades, que opõe à visão utilitarista e capitalista da sociedade". Isso é exatamente o que o 2º parágrafo afirma: "Caminhar sem destino desafiava o utilitarismo. Andar devagar desafiava a eficiência. Observar tudo sem comprar nada desafiava o capitalismo." O verbo "desafiar" expressa oposição. A alternativa usa "opõe", que é sinônimo de "desafia" nesse contexto. Não há acréscimo nem omissão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: restrição e contradição. A alternativa diz que o flâneur "desafia a eficiência, ainda que viesse a aceitar com placidez as grandes reformas urbanas". O texto diz que ele desafia o utilitarismo, a eficiência e o capitalismo — não apenas a eficiência. Além disso, a ideia de "aceitar com placidez as reformas" contradiz o texto, que mostra o flâneur como figura que desafia os valores da modernidade, não que os aceita. A alternativa restringe o alcance (só eficiência) e inverte a oposição.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa fala em "maneira orgânica e planejada como o 'flâneur' concebe a sua existência em um espaço pessoal ou coletivo". O texto não menciona "maneira orgânica", "planejada" nem "espaço pessoal ou coletivo". Essas ideias são acréscimos que não têm base no texto. O texto fala de andar sem destino, coletar experiências — nada de "planejamento" ou "organicidade".
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradição. A alternativa diz que o flâneur tem "intenção deliberada em harmonizar-se com as transformações que vinham impor-se nas grandes cidades". O texto diz exatamente o oposto: o flâneur desafia o utilitarismo, a eficiência e o capitalismo — ele não se harmoniza, ele opõe-se. A palavra "harmonizar-se" é antônima de "desafiar" nesse contexto. A alternativa inverte o sentido do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter a oposição: em vez de "desafiar", diz "aceitar", "harmonizar-se". Fique atento a verbos como "aceitar", "harmonizar", "concordar" — eles contradizem o texto.
PEGA ESSA DICA!
Grife os verbos que expressam a relação do flâneur com a sociedade: "desafiar" (oposição). Se a alternativa usar um verbo de aceitação ou concordância, está errada.
Conclusão: a resposta é a letra B, pois é a única que parafraseia fielmente a oposição entre o flâneur e os valores utilitarista e capitalista, sem acrescentar, omitir ou inverter nada. As demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o texto.