Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184774
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SP
Ano
2023
Cargo
FPM ( )
Leia o texto para responder à questão seguinte.
Prece
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Para abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
(Manuel Bandeira. As cidades e as musas)
A leitura da terceira estrofe permite concluir corretamente que o eu lírico
Aimplora pela morte breve do prefeito Henriquinho, para que seja implacavelmente castigado.
Bcondena a abertura da avenida, mas não vê motivo para punir o prefeito Henriquinho.
Crecomenda um castigo ao prefeito Henriquinho pela possível demolição do templo santo.
Dpede clemência em favor do prefeito Henriquinho, porque a criação da avenida era urgente.
Eimpõe uma pena extrema ao prefeito Henriquinho pela transformação do cenário urbano.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — recomenda um castigo ao prefeito Henriquinho pela possível demolição do templo santo.
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Interpretação da terceira estrofe de "Prece"
Gabarito: letra C. O eu lírico recomenda um castigo ao prefeito Henriquinho pela possível demolição do templo santo, mas de forma irônica e atenuada: pede que ele não vá para o Inferno, mas sugere "um seculozinho a mais de Purgatório". A passagem que ancora essa leitura é:
"Quando o prefeito morrer / Não o mandes para o Inferno: / Ele não sabe o que faz. / Mas um seculozinho a mais de Purgatório / Não seria mau. Amém."
A ironia está no contraste entre o pedido de clemência (não mandar para o Inferno) e a sugestão de um castigo prolongado (mais tempo no Purgatório). O eu lírico não quer a morte do prefeito, mas deseja que ele seja punido — ainda que de forma branda e irônica.
O comando da questão
O enunciado pede que se conclua algo a partir da leitura da terceira estrofe. Isso indica uma questão de inferência: a resposta não está literal, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. A banca quer que o candidato perceba a intenção do eu lírico, não apenas o sentido literal das palavras.
O texto e o movimento argumentativo
O poema "Prece" é uma oração irônica ao Senhor Bom Jesus. Nas duas primeiras estrofes, o eu lírico informa que o prefeito Henriquinho vai derrubar o templo para abrir uma avenida. Na terceira estrofe, ele faz um pedido: que o prefeito não vá para o Inferno, pois "não sabe o que faz" (referência à frase de Cristo na cruz), mas que fique "um seculozinho a mais de Purgatório". A ironia está exatamente nessa ressalva: o eu lírico não pede clemência total, mas sim um castigo proporcional — não o Inferno, mas um tempo extra no Purgatório.
A técnica de resolução
Para resolver questões de inferência, o candidato deve buscar pistas textuais que indiquem a intenção do autor. Aqui, a pista central é o conectivo "Mas", que introduz uma oposição ao pedido anterior. O eu lírico diz "Não o mandes para o Inferno" (clemência), mas logo emenda "Mas um seculozinho a mais de Purgatório / Não seria mau" (castigo). Essa oposição revela que a intenção não é absolver o prefeito, mas punir de forma moderada.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, grife os conectivos (mas, porém, portanto) — eles sinalizam a relação lógica entre as ideias e revelam a intenção do autor.
Prece (Manuel Bandeira)
11ª e 2ª estrofes
Prefeito vai derrubar o templo
Para abrir avenida
23ª estrofe (ironia)
Não mandes ao Inferno
"Ele não sabe o que faz"
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Castigo atenuado
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Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o eu lírico "implora pela morte breve do prefeito". O texto não pede a morte do prefeito; pelo contrário, o eu lírico se refere à morte como algo futuro e natural ("Quando o prefeito morrer"), sem desejar que ela ocorra antes. Além disso, o castigo sugerido não é "implacável", mas sim atenuado (Purgatório, não Inferno). A alternativa extrapola o sentido do texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o eu lírico "não vê motivo para punir o prefeito". Isso contradiz diretamente a passagem "Mas um seculozinho a mais de Purgatório / Não seria mau", que expressa exatamente o desejo de punição. O eu lírico vê motivo para punir (a demolição do templo) e o faz de forma irônica.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta afirma que o eu lírico "recomenda um castigo ao prefeito pela possível demolição do templo santo". Isso é exatamente o que a terceira estrofe expressa: o eu lírico pede que o prefeito não vá para o Inferno, mas sugere que ele fique "um seculozinho a mais de Purgatório". O castigo é recomendado de forma irônica e atenuada, mas é, sem dúvida, um castigo. A palavra "possível" também é precisa, pois a demolição ainda não ocorreu — o texto diz "Vai derrubar" (futuro).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida. A alternativa afirma que o eu lírico "pede clemência em favor do prefeito, porque a criação da avenida era urgente". O texto não menciona que a avenida era urgente — isso é uma informação externa acrescentada pelo candidato. Além disso, o eu lírico não pede clemência total; ele pede um castigo moderado. A alternativa extrapola ao introduzir a ideia de urgência, que não está no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o eu lírico "impõe uma pena extrema". O texto, porém, pede que o prefeito não vá para o Inferno (pena extrema) e sugere apenas um tempo a mais no Purgatório (pena moderada). A palavra "extrema" contradiz o sentido do texto, que é de atenuação do castigo.
Conclusão
A questão exige que o candidato perceba a ironia presente na terceira estrofe: o eu lírico não quer a morte do prefeito, mas deseja que ele seja punido de forma moderada. A alternativa C é a única que capta essa intenção, sem extrapolar ou contradizer o texto.