Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184781
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SP
Ano
2023
Cargo
APPGG ( )
O Cortiço
Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que, no entanto, gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.
Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas de noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles iam comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão frequentada como a dele. Nunca o seu negócio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a burra, aos cinquenta e aos cem mil réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.
(Aluísio Azevedo, O Cortiço. Adaptado)
Vocabulário:
casa de pasto: restaurante popular, taverna
finório: indivíduo astucioso
burra: arca ou caixa de madeira
Leia o texto para responder à questão. No primeiro parágrafo do texto, o narrador compara o interesse pecuniário de João Romão
Aa uma doença crônica, uma vez que sua ânsia por dinheiro o levava a ostentar sua riqueza para encobrir um sentimento de inferioridade.
Ba um comportamento natural, uma vez que sua investida nos negócios estava mudando sua condição social.
Ca uma enfermidade obsessiva, uma vez que sua cobiça o levava a viver mal para poder juntar dinheiro.
Da um desajuste temporário, uma vez que o personagem começava a deixar o passado de penúria de lado.
Ea uma perturbação intermitente, uma vez que o personagem ora se dedica à busca de dinheiro ora negligencia-o.
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GabaritoC — a uma enfermidade obsessiva, uma vez que sua cobiça o levava a viver mal para poder juntar dinheiro.
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Comparação do interesse pecuniário de João Romão a uma enfermidade obsessiva
Gabarito: letra C. O narrador compara o interesse pecuniário de João Romão a uma enfermidade obsessiva, pois sua cobiça o levava a viver mal para juntar dinheiro. A passagem que ancora essa leitura é: "Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda" — e o trecho que comprova o "viver mal" é: "Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes... vendia-os todos e contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores".
O comando pede uma compreensão/recorrência: a resposta está explícita no primeiro parágrafo, bastando localizar a comparação e a justificativa que a acompanha. Não se trata de inferir nada além do que está escrito — a tarefa é encontrar a paráfrase fiel da ideia do narrador. Por isso, o método é: sublinhar a comparação ("moléstia nervosa, uma loucura") e ver qual alternativa a reescreve sem acrescentar nem restringir.
O primeiro parágrafo descreve a tese do narrador sobre João Romão: a "febre de possuir" tomou conta de todos os seus atos, e isso deixou de ser ambição para virar doença. O movimento argumentativo é claro: primeiro mostra os sintomas (guardar os piores legumes, não comer ovos, contentar-se com restos), depois nomeia a doença ("moléstia nervosa, uma loucura") e, por fim, descreve o personagem fisicamente, com "eterno ar de cobiça". A alternativa C captura exatamente esse binômio: enfermidade obsessiva (paráfrase de "moléstia nervosa, uma loucura") + viver mal para juntar dinheiro (paráfrase de "contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores").
A armadilha central desta questão é a troca de vocábulo com efeito de sentido: as alternativas A, D e E usam adjetivos que parecem sinônimos de "doença" (crônica, temporário, intermitente), mas que restringem ou alteram o sentido do texto. O texto não diz que a moléstia é crônica, nem temporária, nem intermitente — diz apenas que é uma "moléstia nervosa, uma loucura". A banca conta com o candidato que lê rápido e aceita qualquer palavra do campo semântico de doença. A alternativa B, por sua vez, tangencia o tema: fala de "comportamento natural" e "mudança de condição social", ideias que o texto não aborda no trecho da comparação.
O critério que separa a correta das erradas é simples: o texto autoriza a palavra usada na alternativa? A letra C usa "enfermidade obsessiva" — e o texto fala em "moléstia nervosa, uma loucura". A letra A usa "doença crônica" — e o texto não diz que é crônica. A letra D usa "desajuste temporário" — e o texto não diz que é temporário. A letra E usa "perturbação intermitente" — e o texto não diz que é intermitente. A letra B fala de "comportamento natural" — e o texto diz exatamente o contrário: "já não era ambição, era uma moléstia". Teste cada adjetivo contra o texto: se não está lá, é extrapolação.
Interesse pecuniário de João Romão: Comparação no texto (Moléstia nervosa, Loucura, Desespero de acumular); Comportamento descrito (Guardava os piores legumes, Contentava-se com restos, Vivia mal para juntar dinheiro); Sentido do texto (Enfermidade obsessiva (gabarito), Doença crônica (não dito), Desajuste temporário (não dito), Perturbação intermitente (contradiz), Comportamento natural (contradiz))
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular"
O texto compara o interesse a uma moléstia nervosa, mas não a qualifica como crônica. A alternativa A extrapola ao acrescentar a ideia de "doença crônica" e, pior, inventa uma motivação: "ostentar sua riqueza para encobrir um sentimento de inferioridade". Nada no texto fala em ostentação nem em inferioridade — João Romão, ao contrário, vive mal, não ostenta. Erro duplo: extrapolação (crônica) + opinião embutida (inferioridade).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura"
A alternativa B contradiz o texto: chama o comportamento de "natural", quando o narrador afirma explicitamente que "já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura". Além disso, tangencia o tema ao falar em "mudança de condição social" — ideia que o texto não desenvolve no trecho da comparação. O texto diz que é doença; a alternativa diz que é natural. Inversão total de sentido.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda"
"Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes... vendia-os todos e contentava-se com os restos das comidas dos trabalhadores"
A alternativa C é a paráfrase fiel do texto: "enfermidade obsessiva" reescreve "moléstia nervosa, uma loucura", e "viver mal para poder juntar dinheiro" reescreve o comportamento de guardar os piores legumes e contentar-se com restos. Cada elemento da alternativa encontra correspondência direta no texto, sem acréscimos nem restrições.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"era uma moléstia nervosa, uma loucura"
A alternativa D restringe o sentido ao chamar o quadro de "desajuste temporário". O texto não diz que é passageiro — diz que é uma "loucura", um "desespero de acumular", algo que tomou conta dele "totalmente". Além disso, "deixar o passado de penúria de lado" é extrapolação: o texto não menciona passado de penúria nem abandono dele. A palavra "temporário" é a pegadinha: parece sinônimo de doença, mas muda o sentido.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"todos os seus atos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário"
A alternativa E contradiz o texto ao dizer que o personagem "ora se dedica à busca de dinheiro ora negligencia-o". O texto afirma o oposto: "todos os seus atos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário" — ou seja, a busca é constante, não intermitente. A palavra "intermitente" é a armadilha: inverte a ideia de totalidade presente no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o adjetivo da doença (crônica, temporária, intermitente) para ver se você percebe que o texto não qualifica a moléstia — e ainda embute motivações (inferioridade, mudança social) que não estão no texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de comparação, sublinhe o termo comparado ("moléstia nervosa") e a justificativa ("viver mal"). Depois, teste cada alternativa perguntando: o texto usa essa palavra? Se não usa, é extrapolação.
Gabarito: letra C. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto — compara a cobiça a uma enfermidade obsessiva e explica que isso o levava a viver mal para juntar dinheiro, exatamente como narra o primeiro parágrafo.