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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184822
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2023
Cargo
CF/CM ( )

Leia o texto, para responder a questão.

 

A alegria da música

 

Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando ainda estava na barriga da minha mãe. Ela era pianista e tocava... Sem nada ouvir, eu ouvia. E assim a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue. Agora, quando ouço as músicas que minha mãe tocava, eu retorno ao mundo inefável que existe antes das palavras, onde moram a perfeição e a beleza.

 

Em outros tempos, falava-se muito mal da alienação. A palavra “alienado” era usada como xingamento. Alienação era uma doença pessoal e política a ser denunciada e combatida. A palavra alienação vem do latim alienum, que quer dizer “que pertence a um outro”. Daí a expressão alienar um imóvel. Pois a música produz alienação: ela me faz sair do meu mundo medíocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas. Nesse outro mundo eu me liberto da pequenez e das picuinhas do meu cotidiano e experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina. A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Rêverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no Concerto nº 3 de Rachmaninoff. Porque a música é parte de mim, para me conhecer e me amar é preciso conhecer e amar as músicas que amo.

 

Agora mesmo estou a ouvir uma fita cassete que me deu Ademar Ferreira dos Santos, um amigo português. Viajávamos de carro a caminho de Coimbra. O Ademar pôs música a tocar. Ele sempre faz isso. Fauré, numa transcrição para piano. A beleza pôs fim à nossa conversa. Nada do que disséssemos era melhor do que a música. A música produz silêncio. Toda palavra é profanação. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do divino, ouvir música é oração. Assim, eu e o Ademar adoramos juntos no altar da beleza. Terminada a viagem, o Ademar retirou a fita e m’a deu. “É sua”, ele disse de forma definitiva. Protestei. Senti-me mal, como se fosse um ladrão. Mas não adiantou. Existem gestos de amizade que não podem ser rejeitados. Assim, trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim.

 

(Rubem Alves, Na morada das palavras. Adaptado)

É correto afirmar que o narrador expressa, em tom

  1. Alamentoso, relações contraditórias com pessoas que lhe proporcionaram experiências sensoriais despertadas por suas músicas prediletas.
  2. Bpiegas, passagens da vida em que reencontra personagens que já se apagaram de sua imaginação porque se afastaram definitivamente dele.
  3. Cintimista, emoções e sentimentos evocados por sua relação afetiva com a música clássica, em diferentes momentos de sua vida.
  4. Dmelancólico, passagens de sua existência marcados pela música clássica, que o levaram a reavaliar suas emoções e sua relação com o passado.
  5. Epungente, a saudade do regaço materno, responsável por ele não se ter deixado alienar diante de seduções mundanas associadas ao gosto musical.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — intimista, emoções e sentimentos evocados por sua relação afetiva com a música clássica, em diferentes momentos de sua vida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tom do texto: a voz intimista e afetiva do narrador

Gabarito: letra C. O narrador expressa, em tom intimista, emoções e sentimentos evocados por sua relação afetiva com a música clássica, em diferentes momentos de sua vida. Isso se prova pela linguagem em primeira pessoa, carregada de subjetividade e afeto, como em "Eu gosto muito de música clássica" e "a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue". As demais alternativas atribuem ao texto tons (lamentoso, piegas, melancólico, pungente) que não correspondem ao que está escrito.

O comando: o que a banca pede

A questão pede que se identifique o tom do texto — ou seja, a atitude emocional do narrador que transparece na linguagem. Isso é uma tarefa de interpretação, pois o tom não está dito explicitamente, mas se depreende das escolhas lexicais e da construção das frases. É diferente de uma questão de compreensão, que pediria uma informação literal. Aqui, você precisa sentir o texto e nomear essa sensação com precisão.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto é uma crônica de Rubem Alves sobre sua relação afetiva com a música clássica. O narrador fala em primeira pessoa, desde a experiência intrauterina ("Comecei a ouvir música clássica antes de nascer") até a lembrança de um amigo que lhe deu uma fita ("trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim"). O tom é de confissão íntima, de quem compartilha sentimentos profundos e pessoais. Não há lamento, pieguice, melancolia ou pungência — há afeto, admiração e uma certa serenidade contemplativa.

A técnica: como identificar o tom

O tom é a atitude emocional do autor que se manifesta na linguagem. Para identificá-lo, observe:

  • Escolhas lexicais: palavras como "perfeição", "beleza", "felicidade divina", "harmonia" indicam um tom positivo e elevado.

  • Primeira pessoa: o uso constante de "eu" e "meu" revela subjetividade e intimidade.

  • Metáforas e comparações: "a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue", "retorno ao mundo inefável" — linguagem poética que aproxima o leitor do universo pessoal do narrador.

A alternativa C captura exatamente isso: intimista (subjetivo, pessoal), emoções e sentimentos (afeto, admiração), relação afetiva com a música clássica (tema central) e diferentes momentos de sua vida (da barriga da mãe à viagem com o amigo).

Análise das alternativas

Tom do narrador
  • 1Intimista (✅ correto)
    • 1ª pessoa, subjetividade
    • Afeto e admiração
    • Música clássica em várias fases da vida
  • 2Tons incorretos
    • Lamentoso (contradiz: há gratidão)
    • Piegas (exagero: narrador é contido)
    • Melancólico (não há tristeza)
    • Pungente (não há dor; alienação é positiva)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O narrador não expressa tom lamentoso (queixoso, de lamento) nem relações contraditórias com pessoas. Pelo contrário, ele fala com carinho da mãe ("Ela era pianista e tocava...") e do amigo Ademar ("Existem gestos de amizade que não podem ser rejeitados"). Não há conflito ou lamento; há gratidão e afeto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e distorce. O tom piegas (excessivamente sentimental, meloso) não está no texto — o narrador é afetivo, mas contido e elegante. Além disso, a alternativa afirma que "personagens se apagaram de sua imaginação porque se afastaram definitivamente dele", o que não ocorre: a mãe é lembrada com carinho e o amigo está presente na memória e no presente ("trouxe comigo um pedaço do Ademar"). Não há afastamento definitivo.

Alternativa C — ✅ Correta

Esta é a resposta. O tom é intimista: o narrador compartilha emoções e sentimentos pessoais sobre a música clássica, em diferentes fases da vida. Veja as passagens que comprovam:

"Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando ainda estava na barriga da minha mãe."

"A música me faz retornar à harmonia do ventre materno."

"trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim."

Essas frases mostram subjetividade, afeto e uma relação profunda e pessoal com a música — exatamente o que a alternativa descreve.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O tom melancólico (triste, nostálgico de forma pesarosa) não está presente. O narrador não reavalia suas emoções de forma negativa; ele celebra a música como fonte de beleza e felicidade ("experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina"). Não há tristeza ou pesar.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz. O tom pungente (que causa dor ou comoção intensa) não se aplica. Além disso, a alternativa afirma que o narrador "não se deixou alienar diante de seduções mundanas", mas o texto diz o contrário: ele valoriza a alienação produzida pela música ("a música produz alienação: ela me faz sair do meu mundo medíocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas"). A palavra "alienação" aqui é usada em sentido positivo, como escape para um mundo superior — não como algo a ser evitado.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de sentir o tom do texto, não apenas de localizar informações. A alternativa C é a única que descreve com precisão a voz do narrador: intimista, afetiva e centrada na relação pessoal com a música clássica. As demais ou atribuem tons negativos inexistentes ou distorcem o conteúdo.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o tom, pergunte-se: "Que emoção o autor transmite?" e "Essa emoção é positiva, negativa ou neutra?". No texto, as palavras-chave ("beleza", "perfeição", "felicidade divina") apontam para um tom positivo e sereno, o que elimina as alternativas com tons negativos.

Gabarito: letra C

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