Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184827
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2023
Cargo
CF/CM ( )
Leia o texto, para responder a questão.
A alegria da música
Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando ainda estava na barriga da minha mãe. Ela era pianista e tocava... Sem nada ouvir, eu ouvia. E assim a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue. Agora, quando ouço as músicas que minha mãe tocava, eu retorno ao mundo inefável que existe antes das palavras, onde moram a perfeição e a beleza.
Em outros tempos, falava-se muito mal da alienação. A palavra “alienado” era usada como xingamento. Alienação era uma doença pessoal e política a ser denunciada e combatida. A palavra alienação vem do latim alienum, que quer dizer “que pertence a um outro”. Daí a expressão alienar um imóvel. Pois a música produz alienação: ela me faz sair do meu mundo medíocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas. Nesse outro mundo eu me liberto da pequenez e das picuinhas do meu cotidiano e experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina. A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Rêverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no Concerto nº 3 de Rachmaninoff. Porque a música é parte de mim, para me conhecer e me amar é preciso conhecer e amar as músicas que amo.
Agora mesmo estou a ouvir uma fita cassete que me deu Ademar Ferreira dos Santos, um amigo português. Viajávamos de carro a caminho de Coimbra. O Ademar pôs música a tocar. Ele sempre faz isso. Fauré, numa transcrição para piano. A beleza pôs fim à nossa conversa. Nada do que disséssemos era melhor do que a música. A música produz silêncio. Toda palavra é profanação. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do divino, ouvir música é oração. Assim, eu e o Ademar adoramos juntos no altar da beleza. Terminada a viagem, o Ademar retirou a fita e m’a deu. “É sua”, ele disse de forma definitiva. Protestei. Senti-me mal, como se fosse um ladrão. Mas não adiantou. Existem gestos de amizade que não podem ser rejeitados. Assim, trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim.
(Rubem Alves, Na morada das palavras. Adaptado)
Para responder a esta questão, considere o trecho seguinte.
A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Rêverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no Concerto nº 3 de Rachmaninoff.
É correto afirmar que esse trecho aponta, metaforicamente,
Auma crítica explícita à composição de Schumann, que, comparada à de Rachmaninoff, não tem o reconhecimento do autor.
Buma relação implícita entre as dimensões do ventre materno na gestação e do sucesso alcançado pelos compositores mencionados.
Cuma associação insólita entre o ventre materno e composições musicais, na qual está implícita a ideia de sensações de acolhimento e fruição.
Duma oposição previsível entre diferentes momentos da vida do narrador, destacando suas preferências musicais desde a infância.
Euma confidência do narrador, revelando que sua relação afetiva com a música se estabeleceu após seu contato com as composições citadas.
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GabaritoC — uma associação insólita entre o ventre materno e composições musicais, na qual está implícita a ideia de sensações de acolhimento e fruição.
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A metáfora do ventre materno na música
Gabarito: letra C. O trecho aponta, metaforicamente, uma associação insólita entre o ventre materno e composições musicais, com a ideia implícita de sensações de acolhimento e fruição. A passagem que ancora essa leitura é: "A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Rêverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no Concerto nº 3 de Rachmaninoff." O autor não compara dimensões físicas nem sucesso de compositores — ele usa o ventre como imagem poética para expressar o acolhimento e a plenitude que a música lhe proporciona.
O comando: interpretar a metáfora
O enunciado pede que se identifique o que o trecho aponta metaforicamente. Isso muda tudo: não se trata de compreensão literal (o que está escrito), mas de interpretação do sentido figurado. A banca quer que o candidato perceba que "ventre materno" não é um dado biológico, e sim uma imagem que traduz uma experiência subjetiva — a de retornar a um estado de conforto, proteção e beleza. Palavras como "metaforicamente" no comando são sinal de alerta: a resposta deve estar no plano da conotação, não da denotação.
O texto: a música como retorno ao acolhimento
No texto, Rubem Alves desenvolve a ideia de que a música clássica o transporta para um mundo de perfeição e beleza, associado ao ventre materno. No trecho destacado, ele diz que a música o faz "retornar à harmonia do ventre materno" e, em seguida, compara esse ventre a duas composições: a Rêverie de Schumann (do tamanho de um ovo) e o Concerto nº 3 de Rachmaninoff (maior que o universo). A comparação não é geométrica — é afetiva: o ventre é um espaço de acolhimento, e as músicas, por sua vez, também acolhem o ouvinte, cada uma à sua maneira. A palavra "harmonia" já antecipa o sentido de equilíbrio e bem-estar.
A técnica: metáfora e comparação implícita
A metáfora é uma comparação implícita, sem conectivo comparativo (como, tal qual). No trecho, o autor não diz "a música é como um ventre"; ele afirma que a música o faz retornar ao ventre, criando uma identificação entre a experiência musical e a experiência intrauterina. A comparação com as composições reforça a ideia de que cada música evoca uma dimensão afetiva diferente: ora íntima e contida (o ovo), ora grandiosa e infinita (o universo). O que está implícito é a sensação de acolhimento (o ventre que abriga) e de fruição (o prazer estético de ouvir). A alternativa C capta exatamente isso: "associação insólita" (inusitada, surpreendente) entre dois universos aparentemente distantes — o corpo materno e a música — e a ideia de acolhimento e fruição.
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que há uma "crítica explícita" à composição de Schumann, comparada à de Rachmaninoff. O texto não faz nenhuma crítica; ao contrário, trata ambas as composições com admiração, como exemplos de beleza. A palavra "crítica" é uma invenção — o autor apenas compara as dimensões simbólicas, sem juízo de valor negativo. Além disso, "não tem o reconhecimento do autor" é uma extrapolação: não há qualquer menção a reconhecimento ou falta dele.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (literalidade). A alternativa tenta ler a comparação de forma literal: "dimensões do ventre materno na gestação" e "sucesso alcançado pelos compositores". O texto não fala de gestação real nem de sucesso profissional. A comparação é simbólica — o ventre é uma imagem de acolhimento, não uma medida física. A banca arma aqui uma pegadinha clássica: transformar uma metáfora em dado concreto. O candidato que não percebe o sentido figurado cai nessa.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única inteiramente sustentada pelo texto. O trecho estabelece uma associação insólita (inusitada) entre o ventre materno e composições musicais, e essa associação carrega a ideia implícita de sensações de acolhimento e fruição. O ventre é o espaço do acolhimento primordial; a música, por sua vez, proporciona uma experiência de beleza e plenitude. A palavra "fruição" remete ao prazer estético, que é exatamente o que o autor descreve ao ouvir as músicas que a mãe tocava. A alternativa não acrescenta nada de fora — apenas parafraseia o sentido figurado do trecho.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: tangencia o tema. A alternativa fala em "oposição previsível entre diferentes momentos da vida do narrador" e "preferências musicais desde a infância". O trecho não apresenta oposição entre momentos da vida, nem fala de preferências da infância. O autor menciona que ouvia música antes de nascer, mas o trecho em questão não trata disso. A alternativa foge ao foco da metáfora do ventre, desviando para um tema apenas correlato.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a relação afetiva com a música se estabeleceu "após" o contato com as composições citadas. O texto diz o contrário: o autor ouvia música clássica antes de nascer, na barriga da mãe. A relação é anterior às composições, não posterior. A alternativa inverte a cronologia, o que a torna incompatível com o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca arma com a literalidade — transforma a metáfora do ventre em dimensão física (B) e inventa uma crítica (A) para desviar do sentido figurado. A correta exige perceber que "ventre" é imagem de acolhimento, não dado biológico.
PEGA ESSA DICA!
Quando o comando disser "metaforicamente", desconfie de alternativas que tratam o trecho como fato concreto. Procure a que traduz o sentido figurado — a que fala em sensações, emoções, valores abstratos.
Conclusão: a questão testa a capacidade de interpretar metáfora — de perceber que a comparação entre ventre e música é afetiva, não física. A alternativa C é a única que permanece no plano do sentido figurado, sem extrapolar nem contradizer o texto.