Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184846
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
OJ ( )
Leia o texto para responder à questão seguinte.
Kazukuta
Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol para lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste. Nós não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo de vacina, não sei, devia perguntar ao tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais.
(Ondjaki, Os da minha rua, 2007. Fragmento)
O narrador mostra que Kazukuta
Aestava velho e, por essa razão, somente os adultos ainda lhe rendiam alguns cuidados.
Bera um cão que vivia à margem das atenções dos garotos, que chegavam a evitá-lo.
Cvivia sob os cuidados do tio Joaquim, que severamente cuidava da saúde desse animal.
Dficava isolado das crianças e de adultos, pois desenvolvera a capacidade de raciocinar.
Ebrincava junto com os garotos, que lhe davam nêsperas frescas que colhiam no local.
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GabaritoB — era um cão que vivia à margem das atenções dos garotos, que chegavam a evitá-lo.
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O narrador e o cão Kazukuta: uma questão de inferência
Gabarito: letra B. O narrador mostra que Kazukuta era um cão que vivia à margem das atenções dos garotos, que chegavam a evitá-lo. Essa é a única alternativa que se sustenta integralmente no texto, como se vê no trecho: "Nós não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele... Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber". As demais alternativas ou extrapolam (acrescentam informações que o texto não traz) ou contradizem o que está escrito.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique o que o narrador mostra sobre Kazukuta. Isso é uma questão de compreensão (localizar uma informação explícita) com um leve toque de inferência (perceber a atitude implícita nos gestos). Não se trata de interpretar metaforicamente nem de buscar um subtexto profundo: basta ler o que o narrador descreve sobre a relação dele e dos outros garotos com o cão.
O texto em movimento
O texto é um fragmento narrativo em que o narrador (um dos garotos) descreve o cão Kazukuta. O tema é a indiferença dos garotos em relação ao animal. O narrador observa que Kazukuta comia frutas "meio cansadas" que ninguém apanhava, que ninguém brincava com ele, que os mais velhos "nem já... lhe faziam só uma festinha de vez em quando", e que os próprios garotos só queriam que ele "saísse do caminho". Essa sequência de detalhes constrói a imagem de um cão ignorado e evitado.
A técnica que decide
A alternativa correta é uma paráfrase (reescritura fiel) do que o texto afirma. A letra B diz que Kazukuta "vivia à margem das atenções dos garotos, que chegavam a evitá-lo". Isso corresponde exatamente a:
"Nós não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem."
A expressão "não lhe ligávamos nenhuma" (não dávamos atenção) e "só queríamos que ele saísse do caminho" (evitávamos) são as pistas que autorizam a alternativa B. Nenhuma outra alternativa encontra respaldo tão direto.
Análise das alternativas
Kazukuta (relação com os garotos): Ignorado ("Não lhe ligávamos nenhuma", Ninguém brincava com ele, Comia frutas que ninguém apanhava); Evitado ("Só queríamos que ele saísse do caminho", Não queria que lambesse); Especulação do narrador ("Podia estar a pensar")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que Kazukuta estava velho nem que os adultos lhe rendiam cuidados. Pelo contrário, diz que "nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando" — ou seja, os adultos quase não lhe davam atenção. A ideia de "velhice" e de "cuidados dos adultos" é acrescentada de fora, sem base no texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como demonstrado, a alternativa B é uma paráfrase fiel do trecho citado. O narrador mostra que Kazukuta era ignorado e evitado pelos garotos. Não há nenhuma informação no texto que contradiga isso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto menciona o tio Joaquim apenas como uma possibilidade de pergunta: "devia perguntar ao tio Joaquim" (sobre vacinas). Não há nenhuma indicação de que o tio Joaquim cuidava severamente da saúde do animal. A alternativa inventa uma relação de cuidado que não existe no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e troca de causa. O texto diz que o narrador pensava que Kazukuta "podia estar a pensar" — mas isso é uma especulação do narrador, não uma afirmação de que o cão desenvolvera a capacidade de raciocinar. Além disso, a alternativa atribui o isolamento a essa suposta capacidade, o que não está no texto. O isolamento é descrito como um fato, sem causa ligada à inteligência do cão.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que os garotos brincavam com Kazukuta e lhe davam nêsperas frescas. O texto diz exatamente o oposto: "Ninguém brincava com ele" e ele comia "nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava". A alternativa inverte a relação descrita.
Fechamento
A regra de ouro desta questão: a resposta mora no texto. Teste cada alternativa perguntando: "O texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A letra B é a única que se limita a reescrever o que está dito, sem inventar velhice, cuidados, raciocínio ou brincadeiras. As demais ou extrapolam ou contradizem o texto.