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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184854
Banca
VUNESP
Órgão
TJM SP
Ano
2023
Cargo
Tec CPDJ ( )

A moça ficou noiva do primo — foi há tanto tempo. Casamento, depois da festa de igreja, era a maior festa na cidade casmurra, de ferro e tédio. O noivo seguia para a casa da noiva, à frente de um cortejo. Cavalheiros e damas, aos pares, de braço dado, em fila, subindo e descendo, descendo e subindo ruas ladeirentas. Meninos na retaguarda, é claro, naquele tempo criança não tinha vez. Solenidade de procissão, sem padre e cantoria. Janelas ficavam mais abertas para espiar. Só uma casa se mantinha rigorosamente alheia, como vazia. É que morava lá a antiga namorada do noivo — o gênio dos dois não combinava, tinham chegado a compromisso, logo desfeito.

 

Murmurava-se que, à passagem do cortejo em frente àquela casa, o noivo seria agravado. Não houve nada: silêncio, portas e janelas cerradas, apenas. E o cortejo seguia brilhante, levando o noivo filho de “coronel” fazendeiro, gente de muita circunstância, rumo à casa do doutor juiz, gente de igual altura. A casa era “o sobrado”, assim a chamavam por sua imponência de massa e requinte: escadaria de pedra, em dois lanços, amplo frontispício1 abrindo em sacadas, sob a cimalha2 a estatueta de louça-da-china3 — espetáculo.

 

E houve o casamento e houve o jantar comemorativo e houve o baile, com a quadrilha fazendo ressoar no soalho de tábuas a música dos tacões dos homens, dos saltos das mulheres.

 

A noiva era uma risonha morena saudável, o noivo um passional tímido, amavam-se. E lá se foram para a fazenda longe, fim do mundo ou quase, onde as notícias demoravam uma, duas semanas para chegar. Que dia sai o cargueiro4? Que dia ele volta? Voltava com revistas, cartas, moldes de roupas, açúcar, fósforos, ar da cidade, vento do mundo.

 

Começaram a nascer as meninas. Dava muita menina naquele casal. Como educá-las? A dona de casa virou professora, virou uma escola inteira, se preciso virava universidade.

 

(Elenco de cronistas modernos. José Olympio Editora. Adaptado)

 

1. frontispício: fachada principal.

2. cimalha: parte mais alta das paredes.

3. louça-da-china: porcelana.

4. cargueiro: pessoa que conduz animais de carga.

De acordo com o conteúdo do texto, é correto afirmar que o narrador
  1. Arelata aos leitores acerca de um casamento que, à época e naquela cidade pacata, foi um grande evento.
  2. Bse diverte com as intrigas entre as famílias ricas e pobres que moravam naquela cidadezinha do interior.
  3. Ccomenta sobre a ostentação com que se realizavam os casamentos, as festas mais importantes da cidade.
  4. Dexpõe para os leitores seu posicionamento político e sua revolta contra coronéis e juízes que mandavam na cidade.
  5. Emenospreza os costumes provincianos e retrógrados dos convidados, embora demonstre afeição pelos noivos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — relata aos leitores acerca de um casamento que, à época e naquela cidade pacata, foi um grande evento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão de texto: o casamento como grande evento na cidade pacata

Gabarito: letra A. O narrador relata um casamento que, naquela cidade e àquela época, foi um grande evento — como se lê já no primeiro parágrafo: "Casamento, depois da festa de igreja, era a maior festa na cidade casmurra, de ferro e tédio". A alternativa A é a única que se limita a parafrasear essa informação explícita, sem acrescentar julgamentos, críticas ou dados que o texto não traz.

O comando pede uma afirmação "de acordo com o conteúdo do texto" — ou seja, uma questão de compreensão/recorrência: a resposta deve estar EXPLÍCITA, ser uma reescritura fiel do que está escrito, sem dedução nem opinião. Isso muda tudo: qualquer alternativa que dependa de inferência, de juízo de valor ou de informação externa está automaticamente errada, ainda que "soe" verdadeira.

O texto é uma crônica narrativa: conta a história de um noivado e casamento numa cidade do interior, descreve o cortejo, a casa da antiga namorada, o sobrado do juiz, a festa e a vida do casal na fazenda. O narrador relata os fatos com tom nostálgico e descritivo — não critica, não ironiza, não toma partido político. A tese implícita é justamente a de que aquele casamento foi um acontecimento central na vida da cidade.

A técnica que decide a questão é simples: teste cada alternativa perguntando "o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora?". As alternativas B, C, D e E falham exatamente porque acrescentam —

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que o narrador "relata aos leitores acerca de um casamento que, à época e naquela cidade pacata, foi um grande evento". Isso está literalmente no texto: "Casamento, depois da festa de igreja, era a maior festa na cidade casmurra, de ferro e tédio". O narrador descreve o cortejo, a festa, o baile — tudo como um acontecimento grandioso. A alternativa é uma paráfrase fiel: troca "maior festa" por "grande evento" e "cidade casmurra" por "cidade pacata", mas mantém o sentido exato. Não há acréscimo de opinião nem inferência.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que o narrador "se diverte com as intrigas entre as famílias ricas e pobres". O texto menciona a antiga namorada do noivo e o boato de que ele seria agravado, mas não há nenhuma intriga entre famílias ricas e pobres — as duas famílias citadas (do coronel e do juiz) são "gente de muita circunstância", ou seja, ambas ricas. Além disso, o narrador não se diverte: relata o episódio com seriedade. Erro: extrapolação — inventa um conflito social que o texto não apresenta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o narrador "comenta sobre a ostentação com que se realizavam os casamentos". O texto descreve o sobrado com "imponência de massa e requinte", mas isso é uma descrição da casa, não um comentário sobre ostentação dos casamentos em geral. O narrador não faz nenhuma crítica ou observação sobre ostentação; apenas narra os fatos. Erro: acrescenta opinião — o juízo de valor sobre "ostentação" não está no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que o narrador "expõe seu posicionamento político e sua revolta contra coronéis e juízes". O texto menciona que o noivo era filho de coronel e que a noiva era filha de juiz, mas não há nenhum posicionamento político nem revolta. O narrador é neutro, apenas descreve. Erro: extrapolação — atribui ao narrador uma intenção crítica que não existe.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que o narrador "menospreza os costumes provincianos e retrógrados dos convidados, embora demonstre afeição pelos noivos". O texto não menospreza ninguém; o tom é nostálgico e descritivo. A expressão "cidade casmurra, de ferro e tédio" descreve o ambiente, mas não é menosprezo aos convidados. Além disso, o narrador não demonstra afeição explícita pelos noivos — apenas diz que "amavam-se". Erro: acrescenta opinião — o menosprezo é um juízo de valor que o narrador não emite.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que o narrador tem uma visão crítica ou irônica. Mas o texto é uma crônica nostálgica: o narrador apenas relata os fatos. Desconfie de alternativas que atribuem ao narrador sentimentos ou opiniões que ele não expressa.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "de acordo com o texto", a resposta correta é sempre uma paráfrase — reescritura fiel, sem acréscimos. Se a alternativa traz uma palavra como "ostentação", "revolta" ou "menosprezo", pergunte: onde está isso no texto? Se não estiver, é extrapolação.

Gabarito: letra A — a única que se limita a reafirmar o que o texto diz, sem inventar nada.

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