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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184877
Banca
VUNESP
Órgão
TJM SP
Ano
2023
Cargo
Ana SJ ( )

Equipamento escolar

 

– Pai! O material não tá completo não.

 

– O quê? Se eu já comprei livros, apostilas, cadernos, pasta, caixa de lápis de cor, lápis preto, esferográfica, borracha mole, borracha dura, régua, compasso, clipe, apontador, tudo novo, novinho, porque o material do ano passado está superado, como é que não está completo?

 

– Cê esqueceu do gravador.

 

– Esqueci nada, rapaz. Vi o gravador na lista e achei que era piada. Vocês gostam de brincar com a gente.

 

– Brincadeira tem hora, pai. Tou precisando de gravador.

 

– Verdade?

 

– Lógico. A turma toda vai de gravador, só eu que dou uma de palhaço?

 

– Nunca me constou que a característica do palhaço é não levar um gravador na mão.

 

– A tiracolo pai, com alça. Tem um modelo japonês, levinho, muito bacana. Também se leva na sacola.

 

– Então você quer aparecer no colégio portando gravador porque está na moda, pois não?

 

[...]

 

– Esqueci de botar na lista a minicalculadora. Faz uma falta danada na aula de Matemática. Beto já comprou a dele, Heleno também, Miquinha também.

 

– Pelo que vejo, o Brasil contará com grandes matemáticos no futuro.

 

– Sem calculadora, como é que a gente vai calcular? Resolver um problema ouriçado?

 

– No meu tempo...

 

– Seu tempo já era. Não tinha calculadora, como é que cês iam precisar de calculadora?

 

– Talvez você tenha razão. Era um tempo muito mal equipado. Pior: nem equipado era.

 

– Viu? Gosto quando cê reconhece a verdade. Mas tem mais. Tá faltando o principal.

 

– Um helicóptero, imagino?

 

– Não. Um minicomputador. Tem aí um modelo escolar que é joia. Não pesa muito na mochila, é um barato, vou te contar. Sem microcomputador não posso aparecer no colégio, fico desmoralizado!

 

(Carlos Drummond de Andrade, “Equipamento escolar”.

As palavras que ninguém diz, 2011. Adaptado)

No diálogo sobre material escolar, conclui-se corretamente que o pai
  1. Ase surpreende e considera desnecessários alguns itens apresentados, exigidos pelo filho como forma de equiparar- se aos colegas e evitar ser malvisto entre eles.
  2. Bse orgulha do empenho do filho e se dispõe a comprar todos os itens da lista, que consolidariam as estratégias de estudo do rapaz e garantiriam amizades importantes.
  3. Cse espanta com a metodologia do colégio e se nega veementemente à compra, já que o filho reforçava seu estereótipo de bom garoto sem se importar com as amizades.
  4. Dse coloca na situação do filho e reconhece a importância de todos os itens, que garantiriam o direito do rapaz à educação e possibilitariam interação com os colegas.
  5. Ese incomoda com a presença de alguns itens e sugere que sejam substituídos, pois entrevê uma relação inadequada de supremacia do garoto ante os colegas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — se surpreende e considera desnecessários alguns itens apresentados, exigidos pelo filho como forma de equiparar- se aos colegas e evitar ser malvisto entre eles.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Equipamento escolar: a ironia do pai diante do consumismo do filho

Gabarito: letra A. O pai se surpreende e considera desnecessários os itens que o filho exige para se equiparar aos colegas e evitar ser malvisto, como se lê na reação ao gravador: "Esqueci nada, rapaz. Vi o gravador na lista e achei que era piada" e na pergunta irônica "Então você quer aparecer no colégio portando gravador porque está na moda, pois não?". A alternativa A é a única que sintetiza com fidelidade essa postura paterna, sem acrescentar juízos que o texto não autoriza.

O comando: conclui-se corretamente

O verbo "conclui-se" indica que a questão pede uma inferência — não uma informação literal, mas uma dedução ancorada em pistas do texto. A resposta correta deve ser uma paráfrase do que o diálogo permite concluir, sem extrapolar. Cada alternativa deve ser testada perguntando: o texto autoriza esta conclusão, ou ela exige acrescentar algo de fora?

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto é um diálogo entre pai e filho sobre material escolar. O filho reclama que faltam itens (gravador, minicalculadora, minicomputador), sempre justificando pela necessidade de se igualar aos colegas: "A turma toda vai de gravador, só eu que dou uma de palhaço?", "Sem microcomputador não posso aparecer no colégio, fico desmoralizado!". O pai, por sua vez, reage com surpresa e ironia: acha o gravador "piada", pergunta se o filho quer "aparecer no colégio portando gravador porque está na moda", e responde com sarcasmo — "Pelo que vejo, o Brasil contará com grandes matemáticos no futuro" e "Era um tempo muito mal equipado. Pior: nem equipado era". A tese implícita é a crítica ao consumismo e à pressão social que levam o filho a exigir itens desnecessários.

A técnica que decide: inferência com pista, não extrapolação

A alternativa A condensa três elementos presentes no texto: (1) a surpresa do pai ("achei que era piada"); (2) a avaliação de que os itens são desnecessários (a ironia sobre a calculadora e o helicóptero); (3) a motivação do filho de se equiparar aos colegas e evitar ser malvisto ("só eu que dou uma de palhaço?", "fico desmoralizado!"). Tudo isso está explícito ou diretamente pressuposto. As demais alternativas falham por extrapolar (acrescentar motivações que o texto não menciona), restringir (limitar o alcance da crítica) ou contradizer o teor do diálogo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com um fato plausível: as alternativas B, C, D e E soam razoáveis no mundo real, mas atribuem ao pai sentimentos (orgulho, reconhecimento, incômodo com supremacia) que o texto não sustenta. A correta é a única que se limita ao que o diálogo efetivamente mostra.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é uma síntese fiel do diálogo. O pai se surpreende com o gravador ("achei que era piada") e com a minicalculadora ("Faz uma falta danada na aula de Matemática"), e os considera desnecessários — a ironia "Pelo que vejo, o Brasil contará com grandes matemáticos no futuro" e a sugestão sarcástica "Um helicóptero, imagino?" deixam claro que ele não vê utilidade real nos itens. O filho, por sua vez, os exige como forma de se equiparar aos colegas ("A turma toda vai de gravador") e evitar ser malvisto ("fico desmoralizado!"). Todos os elementos da alternativa estão ancorados no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não mostra o pai se orgulhando do empenho do filho, nem que os itens "consolidariam estratégias de estudo" ou "garantiriam amizades importantes". O pai, na verdade, ironiza as justificativas do filho — não há nenhuma fala de admiração ou apoio às compras. A alternativa inventa um sentimento paterno que o diálogo não autoriza.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto + extrapolação. O pai não se "espanta com a metodologia do colégio" — ele critica o consumismo do filho, não a escola. Tampouco "se nega veementemente à compra": ele chega a reconhecer que o tempo dele "era um tempo muito mal equipado", o que indica certa abertura. A ideia de que o filho "reforçava seu estereótipo de bom garoto sem se importar com as amizades" é o oposto do que o texto mostra — o filho se importa justamente com a opinião dos colegas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação + contradiz o texto. O pai não "se coloca na situação do filho" nem "reconhece a importância de todos os itens". Ele os considera desnecessários e ironiza. A noção de "direito à educação" e "interação com os colegas" é um enquadramento jurídico-pedagógico que o texto não menciona — é uma opinião embutida que o autor não externa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação + troca de foco. O pai não "sugere que sejam substituídos" — ele apenas ironiza, não propõe alternativas. A ideia de "relação inadequada de supremacia do garoto ante os colegas" é uma interpretação sociológica que o texto não sustenta: o filho quer se igualar, não se sobrepor. A alternativa tangencia o tema, mas acrescenta um julgamento que não está no diálogo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta conclusão, ou ela exige acrescentar algo de fora? A correta é a única que se limita ao que o diálogo mostra — nem mais, nem menos.

Gabarito: letra A — a única que sintetiza com fidelidade a surpresa e a ironia do pai diante das exigências do filho, sem extrapolar.

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