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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184892
Banca
VUNESP
Órgão
SEDUC SP
Ano
2023
Cargo
Prof EFM ( )

CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR

 

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

 

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sextafeira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.”

 

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, a filha, — um lírio do vale, — e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.

 

— “Morto! morto!” dizia consigo.

 

(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Leia o texto para responder à questão.     No Currículo Paulista – Ensino Médio, a habilidade EM13LP04 tem como fundamento “Estabelecer relações de interdiscursividade e intertextualidade para explicitar, sustentar e conferir consistência a posicionamentos e para construir e corroborar explicações e relatos, fazendo uso de citações e paráfrases devidamente marcadas.” No texto de Machado de Assis, uma passagem em que o narrador recorre ao diálogo intertextual com o fito de justificar e enaltecer o seu relato é:
  1. AMoisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
  2. BAlgum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.
  3. C“Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável...”
  4. D... foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe...
  5. EDe pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Intertextualidade em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que apresenta um diálogo intertextual explícito — a referência a Moisés e ao Pentateuco — usado pelo narrador para justificar e enaltecer seu relato, como pede o enunciado. O trecho citado mostra o narrador comparando sua obra à Bíblia para legitimar a escolha de começar pela morte, elevando o próprio texto ao patamar de um livro sagrado.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique uma passagem em que o narrador recorre ao diálogo intertextual com o objetivo de justificar e enaltecer o seu relato. Isso significa que a resposta deve conter uma referência a outro texto (intertextualidade) e essa referência deve ter uma função argumentativa: servir de justificativa e de elogio à própria obra. Não basta haver uma citação; é preciso que ela cumpra esse papel específico.

O texto e a tese

No primeiro parágrafo, o narrador explica por que decidiu começar suas memórias pela morte, e não pelo nascimento. Ele apresenta duas considerações: a primeira é que é um "defunto autor", para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria "mais galante e mais novo". É nesse contexto que surge a referência a Moisés:

"Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco."

Aqui, o narrador justifica sua escolha estrutural (começar pela morte) citando um precedente ilustre — Moisés, que também narrou sua própria morte — e enaltece seu livro ao afirmar que há uma "diferença radical" entre ele e o Pentateuco, colocando sua obra em pé de igualdade (ou até superioridade) com um texto sagrado. É exatamente o que o enunciado descreve: intertextualidade com função de justificar e enaltecer.

A técnica de resolução

Para resolver, você deve testar cada alternativa perguntando: há uma referência a outro texto? e essa referência serve para justificar e enaltecer o relato? A alternativa A é a única que responde "sim" a ambas. As demais ou não contêm intertextualidade, ou a contêm sem a função pedida.

1O que é
Diálogo com outro texto
Referência explícita ou implícita
2Funções
Justificar
Enaltecer
Contrastar
Criticar
3Como identificar
Perguntar: para que o autor usa a referência?
Verificar se há diálogo com obra externa
Intertextualidade
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Intertextualidade: O que é (Diálogo com outro texto, Referência explícita ou implícita); Funções (Justificar, Enaltecer, Contrastar, Criticar); Como identificar (Perguntar: para que o autor usa a referência?, Verificar se há diálogo com obra externa)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A passagem citada é o exemplo perfeito de intertextualidade com função argumentativa. O narrador invoca Moisés e o Pentateuco para justificar sua decisão de começar pela morte (já que Moisés também narrou a própria morte) e para enaltecer seu livro, ao sugerir que ele é "radicalmente diferente" do texto bíblico. A referência não é decorativa; ela sustenta a escolha do narrador e eleva o valor de sua obra.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim..."

Este trecho apresenta a dúvida inicial do narrador, mas não há nenhuma referência a outro texto. É uma reflexão pessoal, sem intertextualidade. O erro aqui é de ausência do elemento pedido: não há diálogo com outra obra.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável..."

Esta é a fala de um amigo no funeral, transcrita em discurso direto. Embora seja uma citação, é a citação de uma fala de um personagem, não a referência a outro texto literário. Não há intertextualidade com uma obra externa. O erro é de confundir citação de fala com intertextualidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"... foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe..."

Aqui há, de fato, uma referência intertextual a Hamlet, de Shakespeare. No entanto, a função dessa referência não é justificar e enaltecer o relato. O narrador usa a expressão "undiscovered country" apenas para descrever sua morte, mas logo se diferencia do príncipe: ele não tem as ânsias nem as dúvidas de Hamlet. A referência serve para contrastar sua postura com a do personagem, não para enaltecer sua obra. O erro é de função inadequada: a intertextualidade existe, mas não cumpre o papel pedido no enunciado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção."

Este trecho descreve a reação de uma senhora à morte do narrador. Não há qualquer referência a outro texto. É uma descrição puramente narrativa, sem intertextualidade. O erro é de ausência do elemento pedido.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de reconhecer a intertextualidade e, principalmente, sua função no texto. A alternativa A é a única em que a referência a outra obra (Moisés/Pentateuco) é usada para justificar uma escolha do narrador e enaltecer seu próprio livro. As demais ou não têm intertextualidade, ou a têm com outra finalidade.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar intertextualidade, pergunte sempre: para que o autor usa essa referência? Justificar, enaltecer, criticar, contrastar — a função muda completamente a resposta.

Gabarito: letra A

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