Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184893
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Prof ( )
Tudo se perde – e nos transforma.
Há de existir em cada aresta deste planeta um buraco negro
de meias desquitadas, elásticos de cabelo exilados e chaves de
casa fugitivas. Uma espécie de país das maravilhas, um mundo
invertido acessível apenas ao santo dos três pulinhos — não
importa o quanto você revire o sofá, olhe embaixo da cama ou
verifique a geladeira (afinal, por que não?). O mistério universal
dos objetos perdidos é tema central de dois livros infantojuvenis recém-chegados às livrarias brasileiras. Em Doutor Sumiço
(Companhia das Letrinhas), o cartunista paulista Caco Galhardo dá vida a Lico, um garoto que tem o superpoder de fazer
as coisas desaparecerem, mas acaba fazendo mau uso desse
dom. Já em Acostura (Pequena Zahar), a escritora e ilustradora
argentina Isol nos conduz pela busca da menina Lila por itens
perdidos, que ela crê terem caído em buracos pelo mundo, fissuras que decide procurar e costurar.
Em comum às duas histórias há o destaque à figura da
avó, não só como porto seguro para os netos, mas também
como detentora e guardiã de saberes ancestrais. “No livro,
a avó traz o afeto, o amor e a compreensão, sem contar os
bolinhos de queijo. E é na casa dela que estão todas as lendas dos nossos antepassados que vão ficando pelo caminho”,
conta Galhardo.
Embora pouco afeitos a moralidades, os autores deixam
esfumaçadas algumas lições valiosas. Por trás da sucessão de
perdas que vivenciamos, há uma bonita lição a ser aprendida
sobre acolher a impermanência, a efemeridade, o fluxo incessante de chegadas e partidas que dão cadência à vida. As coisas que são deixadas para trás sem que se saiba onde também
nos convidam a aceitar o inexplicável como parte intrínseca da
jornada. Afinal, mistério sempre há de pintar por aí.
(Marília Kodic. Revista Quatro Cinco Um. 30 de maio de 2023. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Pode-se afirmar corretamente que, na resenha, a autora Marília Kodic
Afaz uso de uma linguagem infantil para garantir seu entendimento entre as crianças, que são seu público-alvo.
Bmanifesta sua preferência por livros infantojuvenis cujas histórias, como aquelas citadas, apresentam algum valor moral.
Creconhece nos dois livros o tema do desaparecimento de objetos cotidianos e o relaciona à questão da finitude que faz parte da vida.
Ddefende que as crianças leiam livros com suas avós, já que são elas as guardiãs das tradições familiares.
Evê na falta de explicação para o desaparecimento de certos objetos um desafio a ser solucionado com a ajuda da imaginação.
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GabaritoC — reconhece nos dois livros o tema do desaparecimento de objetos cotidianos e o relaciona à questão da finitude que faz parte da vida.
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Resenha de livros infantojuvenis: o tema da perda e a finitude
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única inteiramente sustentada pelo texto, pois parafraseia o que a autora afirma no terceiro parágrafo: os dois livros tratam do desaparecimento de objetos cotidianos e isso é relacionado à aceitação da impermanência e da finitude. Como se lê: "Por trás da sucessão de perdas que vivenciamos, há uma bonita lição a ser aprendida sobre acolher a impermanência, a efemeridade, o fluxo incessante de chegadas e partidas que dão cadência à vida."
O comando pede uma compreensão ("Pode-se afirmar corretamente"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma informação explícita no texto — não uma dedução nem uma opinião pessoal. A tarefa é localizar a passagem que corresponde à alternativa e verificar se ela diz exatamente o que a alternativa afirma, sem acrescentar nada de fora.
O texto é uma resenha de dois livros infantojuvenis: Doutor Sumiço e A costura. No primeiro parágrafo, a autora apresenta o tema comum: o mistério dos objetos perdidos. No segundo, destaca a figura da avó como guardiã de saberes ancestrais. No terceiro, extrai a lição que os autores deixam: acolher a impermanência e aceitar o inexplicável. É nesse terceiro parágrafo que mora a resposta da questão.
A técnica decisiva é: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?". A correta é a que reescreve com outras palavras uma ideia que está literalmente no texto. As erradas, em geral, extrapolam — acrescentam informações que o texto não traz, como público-alvo, preferência da autora, recomendação de leitura ou solução pela imaginação. Vamos ver cada uma.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a autora usa linguagem infantil para garantir o entendimento entre as crianças, que seriam seu público-alvo. O texto não diz isso em nenhum momento. A resenha é escrita em linguagem adulta, com expressões como "mistério universal dos objetos perdidos" e "acolher a impermanência". Além disso, o texto não afirma que o público-alvo da resenha são as crianças — os livros resenhados são infantojuvenis, mas a resenha em si é dirigida a leitores adultos. Erro: extrapolação — projeta no texto uma informação que não está nele.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a autora manifesta preferência por livros infantojuvenis que apresentam valor moral. O texto, porém, afirma o contrário: "Embora pouco afeitos a moralidades, os autores deixam esfumaçadas algumas lições valiosas." Ou seja, os autores não são dados a moralidades, e as lições são deixadas de forma sutil, não como valor moral explícito. Além disso, a autora não manifesta preferência por esse tipo de livro — ela apenas resenha os dois. Erro: contradiz o texto — inverte a informação sobre moralidade e acrescenta uma preferência inexistente.
Alternativa C — ✅ Correta
A alternativa C parafraseia fielmente o terceiro parágrafo. O texto diz que os livros tratam do desaparecimento de objetos cotidianos (tema central) e que isso está ligado a uma lição sobre "acolher a impermanência, a efemeridade, o fluxo incessante de chegadas e partidas que dão cadência à vida". A alternativa resume isso como "reconhece nos dois livros o tema do desaparecimento de objetos cotidianos e o relaciona à questão da finitude que faz parte da vida". Correta — é uma paráfrase exata, sem acréscimos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a autora defende que as crianças leiam livros com suas avós, já que elas são guardiãs das tradições. O texto menciona a avó como "porto seguro" e "guardiã de saberes ancestrais", mas não há nenhuma recomendação de leitura conjunta. A autora apenas descreve o papel da avó nas histórias, não faz uma defesa. Erro: extrapolação — transforma uma descrição em recomendação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a autora vê na falta de explicação para o desaparecimento um desafio a ser solucionado com a imaginação. O texto, porém, afirma que as coisas perdidas "nos convidam a aceitar o inexplicável como parte intrínseca da jornada" — ou seja, não é um desafio a resolver, mas algo a aceitar. A palavra "aceitar" é decisiva: não há solução, há acolhimento. Erro: contradiz o texto — troca "aceitar" por "solucionar".
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de projetar no texto informações do mundo real (livros infantis = público infantil, avó = tradição, mistério = imaginação) que não estão autorizadas pelo texto.
PEGA ESSA DICA!
Grife o comando: "Pode-se afirmar corretamente" pede compreensão, não inferência. A resposta deve estar literalmente no texto, apenas reescrita.
Conclusão: a única alternativa que não acrescenta nem contradiz nada é a C. As demais ou extrapolam (A, D) ou contradizem o texto (B, E). Lembre-se: a resposta mora no texto — se você precisou completar com o mundo real, está errada.