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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184897
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Ass Soc ( )

Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar. Prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.

 

Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas1. A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais se lançou numa peregrinação em busca de poleiro.

 

No entanto, ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio.

 

Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega. É bem verdade que o edifício ainda não estava concluído e talvez fôssemos ali, o Sérgio e eu, os únicos moradores, pois não me lembro de vizinhos. Se mais gente veio, foi para o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica, mas onde, em dado momento, se espremeram quatro rapazes, todos do ramo jornalístico. E nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva ante o fato de não haver ali uma geladeira, por miúda que fosse, para tantos bebedores de cerveja. Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.

 

Teria ficado indefinidamente em tal moquiço2, se um dos comparsas, exasperado, não me houvesse proposto alugar coisa menos deprimente.   Houve         mais dois apartamentos, ambos excelentes, que também não foi preciso garimpar. O mesmo se diga de um terceiro, o atual, no qual estou    faz      quase 28 anos e do qual não pretendo arredar pé – a não ser que o referido pé já não     dê     conta dos 24 degraus que me trazem a este primeiro andar.

 

(Humberto Werneck. Fobia imobiliária. www.estadao.com.br, 02.10.2020. Adaptado)

1 antípoda: aquele tem característica oposta.

2 moquiço: habitação rústica, desprovida de conforto.

Leia o texto para responder à questão.

 

De acordo com informações presentes no texto, é correto afirmar que

  1. Ao autor do texto incita seu leitor a repudiar quem sente prazer em mudar constantemente de residência.
  2. Bas questões de ordem habitacional são enfadonhas para o autor, que as contorna a partir de suas relações.
  3. Ca ojeriza do autor por visitas imobiliárias não impediu que se lhe manifestasse a vontade de ter mais conforto.
  4. Do autor só conseguiu viver em uma casa tão pequena quanto lotada devido à sua pouca idade à época.
  5. Ea alegria de um conhecido do autor em contar sua busca por casa contrasta com a ausência de detalhes em seu relato.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — as questões de ordem habitacional são enfadonhas para o autor, que as contorna a partir de suas relações.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fobia imobiliária: compreensão das informações explícitas

Gabarito: letra B. A alternativa correta afirma que "as questões de ordem habitacional são enfadonhas para o autor, que as contorna a partir de suas relações". Isso se prova no texto quando o autor, diante da necessidade de "providenciar cafofo próprio", não sai à procura de imóveis, mas recebe uma proposta: "Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega". Ou seja, ele não enfrenta a busca — ela chega até ele por meio de relações pessoais.

O comando pede uma questão de compreensão ("De acordo com informações presentes no texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de algo explícito, sem deduções ou acréscimos. O texto narra a "fobia imobiliária" do autor: ele sente pânico diante da ideia de procurar moradia e de fazer reformas. No entanto, quando precisou de um lugar para morar, a solução veio de um colega, sem que ele precisasse "garimpar".

A técnica central aqui é ancorar cada alternativa em um trecho literal. A correta (B) encontra apoio direto no 3º e 4º parágrafos. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou restringem o que o texto diz. Vamos ver cada uma.

"Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega."

Essa passagem é a chave: o autor não procurou, a proposta veio até ele. Isso confirma que ele "contorna" as questões habitacionais por meio de suas relações (o colega).

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não incita o leitor a repudiar ninguém. O autor apenas descreve o camarada que "está feliz" em procurar e diz que são "meus antípodas" (característica oposta). Não há nenhum tom de repúdio ou convocação ao leitor. A alternativa acrescenta uma intenção que o texto não tem.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O autor considera as questões habitacionais "enfadonhas" (ele fala em "fobia imobiliária" e "pânico" diante da ideia de reforma). E ele as contorna por meio de relações: a proposta de dividir apartamento "caiu do céu" de um colega; depois, "um dos comparsas" propôs alugar coisa melhor; e o atual apartamento "não foi preciso garimpar". Tudo veio por intermédio de pessoas próximas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que a ojeriza "não impediu que se lhe manifestasse a vontade de ter mais conforto". O texto mostra o oposto: o autor ficou "indefinidamente em tal moquiço" (habitação rústica, sem conforto) e só saiu porque um comparsa o convenceu. Não há manifestação de vontade de conforto por parte do autor — ele é passivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe/limita. O texto diz que "nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva" diante da falta de geladeira. Ou seja, a juventude não explica a aceitação daquele ambiente. A alternativa inverte a relação de causa: diz que a pouca idade explica a aceitação. Isso contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o relato do conhecido carece de detalhes. O texto afirma o contrário: o camarada faz um "pormenorizado relato" (cheio de detalhes) de sua batalha. A palavra "pormenorizado" é o oposto de "ausência de detalhes".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de palavras absolutas ("repudiar", "só", "não impediu") e de inversões de causa. Confira sempre se o texto autoriza aquele verbo e aquela relação.

Gabarito: letra B.

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