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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184898
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Ass Soc ( )

Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar. Prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.

 

Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrara – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas1. A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pousob – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais se lançou numa peregrinação em busca de poleiro.

 

No entanto, ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio.

 

Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colegac. É bem verdade que o edifício ainda não estava concluído e talvez fôssemos ali, o Sérgio e eu, os únicos moradores, pois não me lembro de vizinhos. Se mais gente veio, foi para o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópicad, mas onde, em dado momento, se espremeram quatro rapazes, todos do ramo jornalístico. E nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva ante o fato de não haver ali uma geladeira, por miúda que fosse, para tantos bebedores de cerveja. Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovoe.

 

Teria ficado indefinidamente em tal moquiço2, se um dos comparsas, exasperado, não me houvesse proposto alugar coisa menos deprimente.   Houve         mais dois apartamentos, ambos excelentes, que também não foi preciso garimpar. O mesmo se diga de um terceiro, o atual, no qual estou    faz      quase 28 anos e do qual não pretendo arredar pé – a não ser que o referido pé já não     dê     conta dos 24 degraus que me trazem a este primeiro andar.

 

(Humberto Werneck. Fobia imobiliária. www.estadao.com.br, 02.10.2020. Adaptado)

1 antípoda: aquele tem característica oposta.

2 moquiço: habitação rústica, desprovida de conforto.

Leia o texto para responder à questão.

 

O trecho “Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos” pode ser explicado, segundo o que se afirma no texto, pela passagem:

  1. ARespeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar.
  2. BA simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso…
  3. CCaiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega.
  4. D… o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica…
  5. EFogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.
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GabaritoC — Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fobia imobiliária: a ironia de quem foi poupado dos pesadelos

Gabarito: letra C. A passagem “Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos” é explicada pela alternativa C, pois o autor afirma que “Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega” — ou seja, ele não precisou enfrentar a peregrinação imobiliária (o “pesadelo”) porque a solução veio pronta, sem esforço. A expressão “caiu do céu” é a chave: algo que surge de forma inesperada e favorável, poupando-o do sofrimento descrito no texto.

O comando pede uma explicação para a frase inicial, o que exige inferência: não basta localizar uma informação literal, é preciso conectar a ideia de “ser poupado de pesadelos” com o fato de que o autor não precisou procurar apartamento — a proposta chegou até ele. A alternativa C é a única que estabelece essa relação de causa e consequência: a proposta “caída do céu” é exatamente o que o poupou dos pesadelos.

O texto desenvolve uma oposição entre o narrador e “o time dos que procuram na esperança de não encontrar”. Enquanto esses sentem prazer na busca, o autor confessa sua “fobia imobiliária”: a simples ideia de reformar ou procurar moradia o apavora. Por isso, quando diz que foi poupado de pesadelos, refere-se a não ter passado por essa experiência angustiante. A passagem que confirma isso está no terceiro parágrafo:

“Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega.”

A expressão “caiu do céu” é metafórica e indica que a solução veio sem esforço, como um presente inesperado. Foi isso que o poupou: ele não precisou sair à procura, não enfrentou a “peregrinação em busca de poleiro” que tanto temia. As demais alternativas descrevem aspectos do apartamento ou do comportamento do narrador, mas nenhuma explica o motivo de ele ter sido poupado dos pesadelos.

A técnica para resolver é perguntar: qual passagem justifica a afirmação de que o autor foi poupado? A resposta precisa indicar o evento que evitou o sofrimento. A alternativa C é a única que aponta esse evento — a proposta inesperada. As outras falam de características do imóvel ou de preferências pessoais, sem relação direta com a ideia de “ser poupado”.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar.”

Esta passagem descreve o grupo oposto ao narrador — os que sentem prazer na busca. Não explica por que o autor foi poupado dos pesadelos; pelo contrário, apresenta justamente aqueles que não foram poupados, pois enfrentam a procura. Erro: contradiz o texto — inverte a relação: o narrador é antípoda desse grupo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso…”

Esta passagem confirma a fobia do narrador, mas não explica o “ser poupado”. Ela mostra o que causaria sofrimento, não o que o evitou. Erro: tangencia o tema — fala do medo, mas não do livramento.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega.”

A expressão “caiu do céu” indica que a solução veio sem esforço, como um presente inesperado. Foi isso que o poupou: ele não precisou sair à procura, não enfrentou a “peregrinação em busca de poleiro” que tanto temia. A alternativa C é a única que aponta o evento que evitou o sofrimento.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“… o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica…”

Esta passagem descreve o apartamento, mas não explica o “ser poupado”. O tamanho reduzido é uma característica do imóvel, não o motivo do livramento. Erro: fora do escopo — detalhe descritivo sem relação com a ideia central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.”

Esta passagem descreve um detalhe da vida no apartamento, mas não explica o “ser poupado”. O fogão ocioso é uma observação pitoresca, sem relação com a ideia de livramento. Erro: fora do escopo — detalhe irrelevante para a questão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece passagens que estão no texto, mas que não explicam a frase inicial. A alternativa C é a única que estabelece a relação de causa e consequência: a proposta “caída do céu” é exatamente o que o poupou dos pesadelos.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de inferência, pergunte: “qual passagem justifica a afirmação?”. A resposta precisa indicar o evento que evitou o sofrimento, não apenas descrever características.

Gabarito: letra C.

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