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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184905
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2023
Cargo
Sup Ens ( )

Os estranhos do bem

 

Pouco me lembro do apartamento onde passei minha infância, mas não esqueci nada da rua onde morava, das casas vizinhas, do quarteirão inteiro onde eu brincava desde o início da tarde até o início da noite e, por vezes, inclusive à noite. Naquela época não havia medo de assaltos, de atropelamentos, de sequestros- relâmpago: a gente pegava a bicicleta e saía com a maior liberdade, sem pânico nem neuras, oposto do que acontece hoje, quando as crianças só podem brincar dentro do prédio, em prisão domiciliar. Porém, mesmo com liberdade, havia um perigo rondando. Você deve lembrar o que nossos pais buzinavam em nossos ouvidos a cada vez que abríamos a porta de casa para sair: “Não dê conversa a estranhos.” Mais uma vez, é o oposto do que acontece hoje. Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos.

 

Quando menina, eu me perguntava: o que será que eles (os adultos) querem dizer com “estranho”? Estranho, para mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse uma bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes. Mas estranho, para eles, ia além: era qualquer um que a gente não conhecesse. Podia ser o pároco do bairro: um estranho, corra!

 

Aí a gente cresce e inventam um troço chamado computador. E os pais somos nós! Conscientes das nossas responsabilidades, batemos à porta do quarto das crianças e damos sequência à tradição, alertando-os: “Não dê conversa a estranhos.” Quá, quá, quá.

 

Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados nas redes sociais, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo.

 

Estranho é mau? Estranho é pior que a gente? Se devemos ter vigilância com nossos filhos – e devemos mesmo –, é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes, e provavelmente jamais verão. E só para lembrar: estranhos, somos todos.

 

(Martha Medeiros, Feliz por nada. Adaptado)

Leia o texto, para responder à questão.

 

O sentido da frase – Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos. –, no final do primeiro parágrafo associa-se, na sequência,

  1. Aao propósito de resgatar a consciência de responsabilidade que os pais sempre terão em relação aos relacionamentos dos filhos.
  2. Bà expectativa de conhecer estranhos de boa índole, deixando de permanecer no isolamento doméstico.
  3. Cao contrassenso de imaginar que o contato com estranhos pode sujeitar as pessoas a assumir riscos desnecessários.
  4. Dà certeza de que a entrada de estranhos na vida de alguém representa um momento de perigo à integridade.
  5. Eà constatação da disponibilidade de, apesar da reclusão, estabelecer contatos com estranhos por meio de redes sociais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — à constatação da disponibilidade de, apesar da reclusão, estabelecer contatos com estranhos por meio de redes sociais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido da frase sobre dar conversa a estranhos

Gabarito: letra E. A frase final do primeiro parágrafo – “Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos” – associa-se, na sequência do texto, à constatação da disponibilidade de, apesar da reclusão, estabelecer contatos com estranhos por meio de redes sociais. Essa leitura se ancora no 4º parágrafo, em que a autora afirma que os estranhos “são buscados nas redes sociais, onde todos se expõem”. A alternativa E é a única que capta a ironia central do texto: a reclusão física não impede o contato com estranhos; ao contrário, ele se dá justamente pelo ambiente virtual.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a associação que a frase do primeiro parágrafo estabelece com o restante do texto. Isso é uma tarefa de interpretação – não basta localizar a frase; é preciso perceber como ela se conecta com as ideias desenvolvidas adiante. A palavra-chave é “associa-se”: a resposta deve apontar a ideia que retoma e desenvolve o sentido da frase, não uma mera paráfrase dela.

O texto e seu movimento argumentativo

O texto de Martha Medeiros constrói uma oposição entre o passado e o presente. No passado, as crianças brincavam na rua com liberdade, mas havia o alerta “não dê conversa a estranhos”. Hoje, as crianças ficam “trancafiadas em casa”, mas, ironicamente, “não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos”. Essa ironia é o coração do texto: a reclusão física não impede o contato com estranhos; ao contrário, ele se dá justamente pelo ambiente virtual.

“Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados nas redes sociais, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo.”

A autora desenvolve a ideia de que, apesar da reclusão, as pessoas buscam estranhos nas redes sociais. A alternativa E capta exatamente essa constatação: a disponibilidade de contato com estranhos apesar da reclusão, por meio das redes sociais.

A técnica que decide

A questão exige inferência – não há uma frase que diga literalmente “as pessoas usam redes sociais para falar com estranhos”. Mas o texto obriga a essa conclusão: a autora afirma que os estranhos “são buscados nas redes sociais”. A alternativa E é a única que parafraseia essa ideia sem acrescentar nada de fora. As demais ou extrapolam (acrescentam opiniões ou fatos que o texto não sustenta) ou restringem o alcance da afirmação.

1Passado
Crianças na rua
Alerta: não dê conversa
2Presente
Trancafiados em casa
Buscam estranhos nas redes sociais
3Crítica da autora
Paranoia dos pais
É preciso relaxar
"Dar conversa a estranhos" (ironia)
LEVELsoulevel.com.br
"Dar conversa a estranhos" (ironia): Passado (Crianças na rua, Alerta: não dê conversa); Presente (Trancafiados em casa, Buscam estranhos nas redes sociais); Crítica da autora (Paranoia dos pais, É preciso relaxar)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A fala em “resgatar a consciência de responsabilidade que os pais sempre terão”. O texto menciona que os pais alertam os filhos, mas não há a ideia de “resgatar” essa consciência. A autora, na verdade, critica a paranoia dos pais, dizendo que é preciso “controlar a paranoia”. A alternativa extrapola ao transformar uma crítica em um elogio à responsabilidade parental.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B fala em “expectativa de conhecer estranhos de boa índole”. O texto não menciona “boa índole” nem “expectativa”. A autora apenas constata que as pessoas buscam estranhos nas redes sociais, sem qualificá-los como “de boa índole”. A alternativa acrescenta opinião que o texto não externa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C fala em “contrassenso de imaginar que o contato com estranhos pode sujeitar as pessoas a assumir riscos desnecessários”. O texto não diz que o contato com estranhos é um risco desnecessário. Pelo contrário, a autora diz que é preciso “relaxar” e “controlar a paranoia”. A alternativa contradiz o texto ao atribuir ao autor uma preocupação que ele critica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D fala em “certeza de que a entrada de estranhos na vida de alguém representa um momento de perigo à integridade”. O texto não afirma isso. A autora reconhece que há “orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados”, mas não generaliza que todo contato com estranhos é perigoso. A alternativa generaliza indevidamente, transformando uma ressalva em uma regra absoluta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E fala em “constatação da disponibilidade de, apesar da reclusão, estabelecer contatos com estranhos por meio de redes sociais”. Isso é exatamente o que o texto afirma no 4º parágrafo:

“eles são buscados nas redes sociais, onde todos se expõem”

A palavra “apesar” capta a oposição entre a reclusão física e o contato virtual. A alternativa E é a única que parafraseia fielmente a ideia do texto, sem acrescentar, restringir ou contradizer.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. As alternativas A, B, C e D parecem plausíveis, mas cada uma acrescenta uma ideia que o autor não externou. A correta é a única que se limita a reescrever o que está no texto.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: “associa-se” pede inferência com pista no texto, não o que está escrito literalmente. Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?

Gabarito: letra E – a única que capta a ironia central do texto: a reclusão física não impede o contato com estranhos; ao contrário, ele se dá justamente pelo ambiente virtual.

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