Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184935
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Alun Of ( )
Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos.” Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província! E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer.” Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
(Antônio Vieira. Essencial Padre Antônio Vieira, 2011. Adaptado.)
Leia um trecho do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira, para responder à questão. Endossando a avaliação de Sidônio Apolinar, Vieira caracteriza Seronato como
Aarrogante.
Bconfuso.
Cdesconfiado.
Ddesastrado.
Ehipócrita.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — hipócrita.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Caracterização de Seronato: a hipocrisia denunciada por Vieira
Gabarito: letra E. Vieira caracteriza Seronato como hipócrita porque ele castiga furtos e, ao mesmo tempo, os pratica — condena nos outros exatamente o que ele mesmo faz. A passagem que sustenta isso é a citação de Sidônio Apolinar: “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer.” O próprio Vieira reforça: “Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.” A hipocrisia está na contradição entre o discurso (castigar furtos) e a prática (furtar).
O comando: o que a banca pede
O enunciado pede que você caracterize Seronato com base na avaliação que Vieira endossa. Isso é uma questão de interpretação — não está escrito literalmente “Seronato é hipócrita”, mas o texto fornece pistas que obrigam a essa conclusão. A banca quer que você infira o traço de caráter a partir das ações e das palavras do personagem, não que apenas localize uma informação explícita.
O texto: a tese e o movimento argumentativo
No trecho, Vieira distingue os “ladrões de maior calibre” — aqueles que roubam cidades e reinos — dos ladrões comuns. Para ilustrar, ele cita Seronato, um governante que castigava furtos e, ao mesmo tempo, os cometia. A ironia é evidente: Seronato se apresenta como defensor da justiça, mas é ele próprio um ladrão. Vieira ainda acrescenta que isso “não era zelo de justiça, senão inveja” — ou seja, a atitude de Seronato não vinha de um desejo genuíno de punir o crime, mas de uma inveja que o levava a querer eliminar os concorrentes para roubar sozinho.
A técnica que decide: inferência com pista textual
A questão exige inferência — deduzir uma característica a partir de pistas. A pista central é a citação de Sidônio Apolinar, que Vieira endossa ao reproduzi-la e comentá-la. A contradição entre “castigar furtos” e “os fazer” é a marca da hipocrisia: aquele que prega uma conduta e pratica a oposta. As demais alternativas (arrogante, confuso, desconfiado, desastrado) não encontram respaldo em nenhuma passagem — são extrapolações que o texto não autoriza.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece adjetivos que poderiam “soar” plausíveis para um personagem histórico, mas nenhum deles é sustentado pelo texto. A única característica que o texto obriga a concluir é a hipocrisia, pela contradição explícita entre o que Seronato faz (castiga furtos) e o que ele próprio pratica (furta).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de caracterização, pergunte: “qual passagem do texto prova essa característica?”. Se você não consegue apontar o trecho, a alternativa é extrapolação.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Arrogante não é uma característica que o texto atribua a Seronato. Em nenhum momento há menção a soberba, vaidade ou desprezo pelos outros. A passagem sobre Seronato foca na contradição entre punir e praticar furtos, não em sua postura pessoal. A alternativa extrapola — acrescenta um traço que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Confuso também não encontra respaldo. Seronato não é descrito como alguém que age sem clareza ou que se perde em contradições internas; pelo contrário, ele age de forma deliberada: castiga furtos e os pratica. A confusão seria uma interpretação subjetiva, mas o texto não dá pistas de que Seronato seja confuso — ele é, na verdade, contraditório de forma consciente. A alternativa tangencia o tema, pois a contradição não equivale a confusão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Desconfiado não é mencionado. O texto não diz que Seronato desconfiava de alguém ou que vivia em estado de suspeita. A atitude de castigar furtos poderia sugerir, no máximo, uma preocupação com a ordem, mas isso não é o mesmo que desconfiança. A alternativa extrapola — inventa um traço psicológico sem base textual.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Desastrado é um adjetivo que não se aplica a Seronato. Ele não é descrito como alguém que comete erros por falta de habilidade ou que age de forma atrapalhada. Pelo contrário, sua ação é calculada: ele castiga furtos para eliminar concorrentes e roubar sozinho. A alternativa contradiz a imagem de um ladrão astuto que o texto constrói.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Hipócrita é a característica que o texto sustenta. A citação de Sidônio Apolinar — “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer” — mostra a contradição entre o discurso e a prática. Vieira endossa essa avaliação ao acrescentar: “Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.” A hipocrisia está em condenar o que se pratica — exatamente a definição do termo. Nenhuma outra alternativa é autorizada pelo texto.
Conclusão: a questão testa a capacidade de inferir uma característica a partir de pistas textuais. A resposta correta é a letra E, pois a hipocrisia é a única característica que o texto obriga a concluir, pela contradição explícita entre o que Seronato faz e o que ele próprio pratica. As demais alternativas são extrapolações que não encontram respaldo no trecho.