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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu184940
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Alun Of ( )

Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

 

A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2. Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

 

Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

 

Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.

 

(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)

 

1 gramofone: antigo toca-discos.

2 Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.

Para responder à questão, leia a crônica “Bandidos”, de Luis Fernando Verissimo.     Verifica-se a ocorrência da figura de linguagem conhecida como metonímia em:
  1. A“a morte precisa de uma certa solenidade” (1º parágrafo)
  2. B“O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém” (2º parágrafo)
  3. C“enquanto o gramofone tocava Wagner” (2º parágrafo)
  4. D“o herói obviamente escaparia de novo” (3º parágrafo)
  5. E“Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes” (3º parágrafo)
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GabaritoC — “enquanto o gramofone tocava Wagner” (2º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metonímia: a substituição por proximidade

Gabarito: letra C. A metonímia ocorre em "enquanto o gramofone tocava Wagner" porque há substituição de um termo por outro com relação de proximidade: "Wagner" (o compositor) é usado no lugar de "a música de Wagner" (a obra). É a clássica metonímia de autor pela obra, como se lê no 2º parágrafo do texto.

O comando

A questão pede que você identifique a ocorrência de metonímia entre as alternativas. Isso é uma tarefa de conceito aplicado ao texto: você precisa saber a definição de metonímia e, em seguida, testar cada trecho para ver qual apresenta a substituição por proximidade. Não é uma questão de interpretação global do texto, mas de reconhecimento de uma figura de linguagem específica em um trecho dado.

O texto

A crônica de Verissimo discute a "solenidade" com que os vilões de filmes e HQs tratavam a morte, em contraste com a banalização pelo herói. O trecho relevante está no 2º parágrafo, quando o autor descreve a cena do herói suspenso sobre o poço dos jacarés:

"...deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone tocava Wagner."

Aqui, "Wagner" não é a pessoa do compositor, mas a música composta por ele. O autor usa o nome do compositor para se referir à sua obra — uma relação de proximidade típica da metonímia.

A técnica: o que é metonímia

Metonímia é a substituição de um termo por outro, havendo entre eles uma relação de proximidade, contiguidade ou associação — não de semelhança (como na metáfora). As relações mais comuns são:

  • Autor pela obra: "Li Machado de Assis" (li o livro de Machado de Assis).

  • Parte pelo todo: "Várias pernas passavam por ali" (várias pessoas).

  • Todo pela parte: "O mundo caminha para um consumo maior" (a humanidade).

  • Marca pelo produto: "Tomei um Nescau" (tomei o achocolatado).

  • Continente pelo conteúdo: "Bebeu um copo" (bebeu o líquido do copo).

A pegadinha central é confundir metonímia com metáfora. Na metáfora, há comparação implícita entre seres de universos distintos ("Ele é um leão" = valente). Na metonímia, não há comparação: há substituição por associação real — o autor e a obra são coisas distintas, mas associadas pela autoria.

Análise das alternativas

Metonímia
  • 1Substituição por proximidade
    • Autor pela obra
    • Parte pelo todo
    • Marca pelo produto
    • Continente pelo conteúdo
  • 2Difere de
    • Metáfora (comparação implícita)
    • Personificação (qualidade humana)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"a morte precisa de uma certa solenidade" (1º parágrafo)

Aqui não há substituição de um termo por outro. A frase atribui à morte uma característica (solenidade) — isso é uma personificação (ou prosopopeia), pois dá qualidade humana a um conceito abstrato. Não há relação de proximidade entre dois termos; há apenas uma afirmação literal sobre a morte. Erro: troca de figura — a banca quer que você confunda personificação com metonímia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém" (2º parágrafo)

Frase literal, sem substituição. O sentido é direto: o bandido não conseguia matar de forma simples. Não há relação de contiguidade entre termos. Erro: ausência de figura — a frase é denotativa, sem recurso estilístico de substituição.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"enquanto o gramofone tocava Wagner" (2º parágrafo)

Aqui, "Wagner" substitui "a música de Wagner". O compositor é usado no lugar de sua obra — relação de autor pela obra, uma das mais clássicas da metonímia. O gramofone não tocava a pessoa Wagner, mas a música que ele compôs. A substituição é autorizada pela proximidade entre o criador e a criação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"o herói obviamente escaparia de novo" (3º parágrafo)

Frase literal, sem substituição. O sentido é direto: o herói escaparia outra vez. Não há relação de contiguidade entre termos. Erro: ausência de figura — a frase é denotativa, sem recurso estilístico de substituição.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes" (3º parágrafo)

Aqui há uma personificação (o tiro "precisava" de uma frase — qualidade humana atribuída a um ato), mas não há substituição por proximidade. O tiro não substitui outra coisa; ele é apresentado como sujeito de uma necessidade. Erro: troca de figura — a banca quer que você confunda personificação com metonímia.

Fechamento

A regra de ouro: metonímia é substituição por proximidade real (autor pela obra, parte pelo todo, marca pelo produto), enquanto metáfora é comparação implícita e personificação é atribuir qualidade humana a ser inanimado. Teste cada alternativa perguntando: "há um termo sendo usado no lugar de outro com relação de associação?" — só a letra C apresenta essa substituição.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar metonímia, procure por nomes próprios (autores, marcas, lugares) usados no lugar de suas obras ou produtos. "Wagner" no lugar de "música de Wagner" é o exemplo clássico que a banca adora cobrar.

Gabarito: letra C

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