Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184947
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Sold ( )
Não sei fazer poemas sobre gatos
Não sei fazer poemas sobre gatos
se tento logo fogem
furtivas
as palavras
soltam-se ou
saltam
não capturam do gato
nem a cauda
sobre a mesa
quieta e quente
a folha recém-impressa
página branca com manchas negras:
eis o meu poema sobre gatos
(Ana Martins Marques. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015)
No poema, o último verso contraria o primeiro, em que o eu lírico afirma não saber fazer poemas sobre gatos. É correto afirmar que essa contradição se deve ao fato de que o eu lírico
Aprocura escrever um poema sobre gatos que explique como, por meio de seus movimentos e de suas características físicas, esses animais instigam a curiosidade humana.
Bnega que possa haver um poeta capaz de escrever um poema a respeito dos gatos, já que esses animais, em razão de sua postura arredia, são naturalmente inapreensíveis à poesia.
Capresenta uma visão particular sobre os gatos, segundo a qual estes seriam animais difíceis de serem descritos, ideia que se diferencia daquilo que usualmente se pensa sobre eles.
Dreconhece que as palavras do poema, que lhe escapam, e a própria folha que acabara de imprimir, a qual ainda está quente e com as marcas de tinta preta, possuem características semelhantes às de um gato.
Etem dificuldade de fazer um poema sobre um gato abstrato e, por isso, sente a necessidade de ter um gato concreto para poder descrever o formato de sua cauda e as manchas negras de seus pelos.
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GabaritoD — reconhece que as palavras do poema, que lhe escapam, e a própria folha que acabara de imprimir, a qual ainda está quente e com as marcas de tinta preta, possuem características semelhantes às de um gato.
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A metáfora do poema-gato: quando a folha vira o animal
Gabarito: letra D. A contradição entre o primeiro verso ("Não sei fazer poemas sobre gatos") e o último ("eis o meu poema sobre gatos") se resolve porque o eu lírico reconhece que a própria folha recém-impressa, com suas manchas negras de tinta, é o poema-gato — ou seja, o poema que ele não sabia fazer acabou sendo feito, e ele o identifica na página. A alternativa D é a única que capta essa metáfora central: as palavras que escapam ("furtivas", "soltam-se") e a folha quente com manchas negras são apresentadas como semelhantes a um gato.
O comando pede uma interpretação ("É correto afirmar que essa contradição se deve ao fato de que o eu lírico"), ou seja, exige que você depreenda a relação entre os versos, não apenas localize uma informação literal. A resposta não está escrita palavra por palavra; ela está implícita na imagem final do poema.
O poema de Ana Martins Marques brinca com a dificuldade de escrever sobre gatos: as palavras fogem, "soltam-se ou saltam", como o próprio animal. Mas, no final, o eu lírico aponta para a folha recém-impressa — "página branca com manchas negras" — e a declara seu poema sobre gatos. A chave está na comparação implícita: a folha com manchas de tinta parece um gato (o corpo branco com manchas pretas), e as palavras que escapam são como os movimentos felinos. Assim, o poema que ele "não sabia fazer" é exatamente aquele que está diante de seus olhos.
A técnica para resolver: identifique a metáfora central e teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta leitura?" A alternativa correta é a que sintetiza a imagem final, sem acrescentar elementos de fora. As demais ou extrapolam (trazem ideias não presentes), ou restringem o sentido, ou contradizem o texto.
Poema-gato (metáfora central)
1Primeiro verso
"Não sei fazer poemas sobre gatos"
2Último verso
"Eis o meu poema sobre gatos"
3Resolução da contradição
Folha recém-impressa
Página branca com manchas negras
Parece um gato
Palavras que escapam
"Soltam-se ou saltam"
Como movimentos felinos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o eu lírico procura escrever um poema que explique como os gatos instigam a curiosidade humana. O texto não menciona curiosidade humana nem qualquer intenção explicativa. O poema é sobre a dificuldade de escrever e a descoberta do poema na folha, não sobre o comportamento felino. Erro: extrapolação — acrescenta um propósito que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o eu lírico nega que possa haver um poeta capaz de escrever sobre gatos, por serem "naturalmente inapreensíveis". O texto não faz essa negação absoluta; pelo contrário, o último verso afirma que há um poema sobre gatos ("eis o meu poema sobre gatos"). A palavra "naturalmente" também é uma generalização sem base no texto. Erro: contradiz o texto — inverte a conclusão do poema.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala de uma "visão particular" sobre os gatos, de que seriam "difíceis de serem descritos", diferenciando-se do que "usualmente se pensa". O texto realmente sugere dificuldade, mas a alternativa não explica a contradição entre o primeiro e o último verso — ela apenas descreve uma opinião genérica. Além disso, a comparação com o "usual" é uma extrapolação (o texto não discute o que se pensa comumente). Erro: tangencia o tema — não responde ao que o enunciado pede.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D afirma que o eu lírico reconhece que as palavras do poema, que lhe escapam, e a própria folha recém-impressa, ainda quente e com marcas de tinta preta, possuem características semelhantes às de um gato. Isso está diretamente ancorado nos versos finais:
"a folha recém-impressa / página branca com manchas negras: / eis o meu poema sobre gatos"
A folha branca com manchas negras metaforiza o gato (corpo claro com manchas escuras), e as palavras que "soltam-se ou saltam" lembram os movimentos felinos. O eu lírico, ao apontar para a página, reconhece que ali está o poema que julgava não saber fazer. A alternativa parafraseia essa imagem, sem acrescentar nada de fora. Correta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "gato abstrato" e na necessidade de um "gato concreto" para descrever a cauda e as manchas. O texto não menciona gato abstrato nem gato concreto; essa distinção é uma invenção do examinador. Além disso, o eu lírico não "sente a necessidade" de ter um gato — ele descobre o poema na folha. Erro: extrapolação — introduz uma oposição conceitual que não existe no poema.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a dificuldade de perceber a metáfora central (folha = gato). Alternativas que descrevem o gato de forma literal (A, B, C, E) ou que acrescentam ideias (curiosidade, negação absoluta, gato abstrato) são distratoras. A correta é a que sintetiza a imagem final.
PEGA ESSA DICA!
Em poemas, procure sempre a imagem central (metáfora) e veja como ela se relaciona com o título e com o desfecho. A contradição aparente entre o início e o fim geralmente se resolve por uma leitura figurada.
Gabarito: letra D — a única que reconhece a metáfora do poema-gato na folha impressa.