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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184951
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Sold ( )

Receita de casa

 

Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão. Esse porão deve ser habitável, porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sob os pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de 1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.

 

Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos, é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinário que pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco tristes, mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas.

 

Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas gargantas negras os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança.

 

Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade.

 

Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê a impressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

 

(Rubem Braga. Um pé de milho. Rio de Janeiro: Record, 1982. Adaptado)

O autor define o porão como o cemitério das coisas, mas ainda assim recomenda que as casas tenham um espaço como esse, visto que
  1. Aos objetos deixados ali, como fantasias, gravatas e sapatos antigos, podem ser reutilizados em algum momento da vida das crianças que moram na casa.
  2. Bas crianças descobrem, nos objetos deixados ali, sinais da presença de invasores na casa, como um ladrão assassino ou um cachorro raivoso.
  3. Cos adultos poderão ensinar às crianças, por meio dos objetos antigos, a darem o devido valor aos bens materiais e, principalmente, às tradições familiares.
  4. Da dignidade dos adultos, aos olhos das crianças, depende de sua capacidade de guardar as memórias e os objetos antigos em suas próprias casas.
  5. Eo porão, por guardar objetos antigos da família, ensina às crianças a reconhecer o passado de seus familiares e a temer a passagem do tempo em suas próprias vidas.
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GabaritoE — o porão, por guardar objetos antigos da família, ensina às crianças a reconhecer o passado de seus familiares e a temer a passagem do tempo em suas próprias vidas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O porão como cemitério das coisas: a função pedagógica do tempo

Gabarito: letra E. O autor recomenda o porão porque ele guarda objetos antigos que ensinam às crianças a reconhecer o passado dos familiares e a temer a passagem do tempo — exatamente o que se lê no 2º e 3º parágrafos: as crianças devem "ter uma certa perspectiva histórica" e sentir "o grande medo do Tempo". As demais alternativas extrapolam o texto, acrescentando motivos que o autor não menciona.

O comando: compreensão com inferência

O enunciado pede que você complete a justificativa do autor: ele chama o porão de "cemitério das coisas", mas ainda assim recomenda que as casas tenham um. Isso é uma questão de compreensão global — você precisa captar a tese do texto (por que o porão é necessário) e reconhecer a paráfrase que a reproduz fielmente. Não se trata de localizar uma frase solta, mas de sintetizar a ideia central que perpassa os parágrafos 2 e 3.

O texto: a tese e o movimento argumentativo

O texto é uma crônica de Rubem Braga, de tom poético e irônico. A tese central: o porão não é um depósito inútil, mas um espaço de memória e de consciência do tempo. Veja o movimento:

  • 1º parágrafo: define o porão como "cemitério das coisas" — lugar de objetos esquecidos.

  • 2º parágrafo: explica a função: as crianças, ao descerem, "hão de ficar um pouco intrigadas" e precisam "ter uma certa perspectiva histórica", descobrindo que "as pessoas grandes também já foram crianças".

  • 3º parágrafo: aprofunda: as crianças devem sentir "um certo medo do porão", que na verdade é "o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come".

A alternativa E sintetiza esses dois parágrafos: reconhecer o passado (perspectiva histórica) e temer a passagem do tempo (medo do Tempo). É a única que abrange os dois elementos centrais.

A técnica: teste cada alternativa com a pergunta "o texto autoriza isto?"

A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca cria alternativas que soam plausíveis no mundo real, mas que não estão no texto. Para cada uma, pergunte: onde o autor diz isso? Se não houver passagem que sustente, está errada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com motivos que parecem razoáveis (reutilizar objetos, ensinar valor material, guardar memórias) — mas o texto só fala em perspectiva histórica e medo do Tempo. Desconfie de alternativas que acrescentam finalidades não mencionadas.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que os objetos ficam "amontoados" e "esquecidos" no porão — não há nenhuma menção a reutilização. A ideia de que "podem ser reutilizados em algum momento" é uma suposição sua, não do autor. O porão é "cemitério das coisas", não um depósito de itens reaproveitáveis.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto menciona "ladrão assassino" e "cachorro raivoso" como hipóteses imaginárias que dão utilidade ao porão ("um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido um ladrão assassino"). Não há nenhuma afirmação de que as crianças descobrem sinais de invasores nos objetos. A alternativa inverte a função: os objetos são memória, não pistas de crime.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: opinião embutida. O texto fala em "perspectiva histórica" e em restaurar "a dignidade corrompida das pessoas adultas", mas não menciona "dar valor aos bens materiais" nem "tradições familiares". Essa é uma moralização que o autor não faz — ele fala de memória e tempo, não de lição de consumo ou tradição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe e distorce. O texto diz que as crianças, ao verem os objetos, restauram "a dignidade corrompida das pessoas adultas" — mas isso ocorre pela descoberta do passado, não pela "capacidade de guardar as memórias e os objetos". A alternativa troca o efeito (dignidade restaurada) pela causa (capacidade de guardar), e ainda restringe a ideia a "suas próprias casas", o que o texto não afirma.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Sustentação direta no texto. O 2º parágrafo afirma que as crianças devem "ter uma certa perspectiva histórica" e descobrir que "as pessoas grandes também já foram crianças" — isso é reconhecer o passado dos familiares. O 3º parágrafo diz que o medo do porão é "o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come" — isso é temer a passagem do tempo. A alternativa E parafraseia esses dois trechos sem acrescentar nada de fora.

"as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos, é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica" "será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come"

A alternativa E é a única que sintetiza as duas funções do porão: memória (passado) e consciência do tempo (medo).

Conclusão

A regra de ouro: a resposta mora no texto. Teste cada alternativa perguntando: "o autor afirma isso, ou eu estou completando com o que acho que ele quis dizer?". A letra E é a única que se ancora em passagens explícitas — as demais ou extrapolam, ou contradizem, ou restringem o alcance do que foi dito.

Gabarito: letra E

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