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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184952
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Sold ( )

Receita de casa

 

Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão. Esse porão deve ser habitável, porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sob os pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de 1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.

 

Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos, é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinário que pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco tristes, mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas.

 

Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas gargantas negras os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança.

 

Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade.

 

Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê a impressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

 

(Rubem Braga. Um pé de milho. Rio de Janeiro: Record, 1982. Adaptado)

De acordo com o narrador, é correto afirmar que personagens como “...um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem”
  1. Amoram nos porões das casas nas grandes cidades, motivo pelo qual são sempre atraídas para esses lugares sombrios.
  2. Bcolocam em risco a segurança das casas e, por isso, costumam ser afastadas pelos adultos que preferem não ter casa com porão.
  3. Cpodem servir para educar as crianças sobre os riscos de se dirigir a uma pessoa estranha em um ambiente escondido como um porão.
  4. Dsão exemplos de figuras que causam medo, mas que podem habitar a imaginação das crianças que vivem em casas com porão.
  5. Eestão presentes na maioria das casas com porão, motivo pelo qual o narrador recomenda que se protejam as crianças desses lugares.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — são exemplos de figuras que causam medo, mas que podem habitar a imaginação das crianças que vivem em casas com porão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de texto: o medo e a imaginação infantil no porão

Gabarito: letra D. A alternativa correta afirma que personagens como “um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros” são exemplos de figuras que causam medo, mas que podem habitar a imaginação das crianças que vivem em casas com porão. Essa leitura é autorizada pelo texto quando o narrador diz que as crianças devem sentir “um certo medo do porão” e que esse medo, embora pareça ser do escuro ou de aranhas, é na verdade “o grande medo do Tempo”. As figuras citadas aparecem como hipóteses que alimentam esse medo imaginário, não como ameaças reais.

O comando pede uma compreensão do texto: “De acordo com o narrador, é correto afirmar que...”. Isso significa que a resposta deve estar ancorada em passagens explícitas ou em inferências imediatas que o texto autoriza. Não se trata de deduzir além do que está escrito, mas de reconhecer o que o narrador efetivamente diz sobre essas figuras.

O texto é uma crônica de Rubem Braga que descreve, com tom irônico e poético, a importância de uma casa ter um porão. O porão é apresentado como um espaço de memória e de mistério, onde se acumulam objetos antigos e onde as crianças podem desenvolver uma “perspectiva histórica” e um “certo medo”. O medo, porém, não é de perigos reais, mas do Tempo, metaforizado como “esse bicho que tudo come”. As figuras do ladrão, do cachorro e dos anarquistas são mencionadas como possibilidades que tornam o porão útil para a imaginação: “um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros”.

A técnica central é distinguir o que é literal do que é figurado. O texto não afirma que essas figuras existem de fato; ele as apresenta como suposições que alimentam o medo infantil. A alternativa D capta exatamente isso: são “figuras que causam medo, mas que podem habitar a imaginação das crianças”. As demais alternativas ou extrapolam (afirmam que moram nos porões, que estão presentes na maioria das casas), ou restringem (dizem que servem para educar sobre estranhos), ou contradizem o texto (dizem que os adultos as afastam).

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você levar as figuras a sério, como ameaças reais. Mas o texto as coloca no campo da suposição e da imaginação infantil — repare no verbo “supomos” e na ideia de que o porão “não tem a menor utilidade” sem elas.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que essas figuras “moram nos porões das casas nas grandes cidades”. Elas são apenas suposições que dão utilidade ao porão, como se lê: “um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido um ladrão assassino...”. Não há qualquer menção a “grandes cidades” nem a uma atração real dessas figuras pelos porões.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O narrador não diz que essas figuras “colocam em risco a segurança das casas” nem que os adultos as afastam. Pelo contrário, o porão é desejado justamente por permitir essa suposição. A ideia de “afastar” ou “preferir não ter casa com porão” não encontra respaldo em nenhuma passagem.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema. O texto não menciona “educar as crianças sobre os riscos de se dirigir a uma pessoa estranha”. A função das figuras é despertar medo e imaginação, não servir de lição de segurança. Essa alternativa acrescenta um propósito pedagógico que o narrador não externa.

Alternativa D — ✅ Correta

Fundamento: o texto afirma que as crianças devem sentir “um certo medo do porão” e que esse medo, embora pareça ser do escuro ou de aranhas, é na verdade “o grande medo do Tempo”. As figuras do ladrão, do cachorro e dos anarquistas são apresentadas como suposições que tornam o porão útil: “um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estar escondido...”. Assim, elas são figuras que causam medo, mas que habitam a imaginação — exatamente o que a alternativa afirma.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: generalização indevida. O texto não diz que essas figuras “estão presentes na maioria das casas com porão”. Elas são apenas possibilidades imaginárias, não ocorrências reais. A palavra “maioria” é um absoluto que o texto não sustenta.

Conclusão: a questão testa a capacidade de não confundir o plano da imaginação com o da realidade. O narrador fala de suposições que alimentam o medo infantil, não de ameaças concretas. A alternativa D é a única que permanece fiel a esse plano.

Gabarito: letra D

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