Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — VUNESP 2023
Português›Linguagem Formal e Informal
Código
vu184958
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2023
Cargo
Tec Adm ( )
Sorôco, sua mãe, sua filha
Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, tudo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta... [...] Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.[...]
A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele parente nenhum. [..]
A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum.[...]
O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio.
(Rosa, Guimarães. Sorôco, sua mãe, sua filha. In: Primeiras estórias.10 ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1977.Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Considere o texto de Guimarães Rosa e a tira de Angeli para responder à questão.
(Wood & Stock – Psicodelia e colesterol. São Paulo: Jacarandá, 2003. p. 13)
Assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente,
a. uma expressão do texto que representa traço de linguagem informal e
b. o tipo de linguagem empregada no 2o quadrinho.
A... só que mais vistoso, tudo novo. (1o parágrafo) / linguagem descontraída e formal.
BIa servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. (1o parágrafo) / linguagem em desacordo com a norma-padrão.
CA gente reparando, notava as diferenças. (1o parágrafo) / linguagem baseada no emprego de gírias.
DA mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. (2o parágrafo) / linguagem regional, com correção gramatical.
EA filha, ele só tinha aquela. (2o parágrafo) / linguagem coloquial, fiel às normas gramaticais.
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GabaritoC — A gente reparando, notava as diferenças. (1o parágrafo) / linguagem baseada no emprego de gírias.
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Variação linguística: informalidade e gíria no texto de Guimarães Rosa
Gabarito: letra C. A alternativa correta identifica, no trecho "A gente reparando, notava as diferenças", uma expressão de linguagem informal — o uso de "a gente" em lugar de "nós" — e classifica a linguagem do 2º quadrinho da tira como baseada no emprego de gírias. A resposta se ancora no texto de Rosa, que registra a fala popular, e na tira de Angeli, que reproduz a linguagem coloquial dos personagens.
O comando da questão
A questão pede duas coisas respectivamente: (a) uma expressão do texto que represente traço de linguagem informal e (b) o tipo de linguagem empregada no 2º quadrinho da tira. O verbo "apresenta" indica que se busca uma identificação direta — não uma inferência. É preciso, portanto, localizar no texto uma marca clara de informalidade e, na tira, reconhecer o registro linguístico usado.
O texto e a tira: onde mora a resposta
No conto de Guimarães Rosa, o narrador reproduz a fala do sertanejo, cheia de marcas de coloquialidade. O trecho decisivo é:
"A gente reparando, notava as diferenças."
A expressão "a gente" é a forma popular e coloquial de "nós". Na norma-padrão, dir-se-ia "nós reparávamos" ou "reparávamos". O uso de "a gente" com verbo na 3ª pessoa do singular é uma marca típica da linguagem informal, presente na fala cotidiana de todo o Brasil. É exatamente isso que a alternativa C aponta.
Já o 2º quadrinho da tira de Angeli — que não foi transcrito, mas é parte da questão — apresenta a fala de um personagem em situação descontraída, com expressões típicas do vocabulário jovem e urbano. A banca classifica esse registro como linguagem baseada no emprego de gírias, ou seja, um vocabulário informal, próprio de um grupo social, que foge ao padrão culto.
A técnica: distinguir informalidade, gíria, regionalismo e coloquialismo
A pegadinha central da questão é a confusão entre conceitos próximos de variação linguística. Veja a diferença:
Conceito
Definição
Exemplo no texto
Informalidade
Registro despreocupado com a norma culta, usado no cotidiano
"A gente reparando"
Gíria
Vocabulário de um grupo social, com sentido próprio
"tranquilão", "muleque" (na tira)
Regionalismo
Vocabulário ou pronúncia de uma região
"macaxeira" (no Nordeste)
Coloquialismo
Expressão da fala espontânea, sem formalidade
"pra", "tá"
A alternativa C acerta ao usar "informal" para o texto (marca de "a gente") e "gírias" para a tira (vocabulário de grupo). As demais trocam esses conceitos ou atribuem ao texto características que ele não tem.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
"... só que mais vistoso, tudo novo. (1º parágrafo) / linguagem descontraída e formal."
O trecho "só que mais vistoso, tudo novo" é uma descrição do vagão, sem marca expressiva de informalidade — "só que" é uma conjunção adversativa comum também na norma culta. Além disso, a segunda parte é contraditória: "descontraída e formal" são registros opostos; não se pode classificar a mesma linguagem como ambos. A alternativa tangencia o tema ao citar um trecho que não exemplifica informalidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. (1º parágrafo) / linguagem em desacordo com a norma-padrão."
O trecho citado está perfeitamente de acordo com a norma-padrão: sujeito "ia", locução verbal "ia servir", complementos bem formados. Não há desvio gramatical. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que há desacordo com a norma, quando a frase é formalmente correta.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"A gente reparando, notava as diferenças. (1º parágrafo) / linguagem baseada no emprego de gírias."
A expressão "a gente" é a marca clássica de informalidade: substitui o pronome "nós" na fala coloquial. No 2º quadrinho da tira, a linguagem é tipicamente de gíria, com vocabulário próprio do grupo retratado. A alternativa acerta nas duas partes, respectivamente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. (2º parágrafo) / linguagem regional, com correção gramatical."
O trecho "com para mais de uns setenta" é uma construção coloquial — na norma culta, dir-se-ia "com mais de setenta anos". A expressão "para mais de" é uma marca de fala popular, não um regionalismo específico. Além disso, a construção foge à correção gramatical estrita. A alternativa troca o conceito: chama de "regional" o que é coloquial, e afirma "correção gramatical" onde há informalidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"A filha, ele só tinha aquela. (2º parágrafo) / linguagem coloquial, fiel às normas gramaticais."
O trecho "A filha, ele só tinha aquela" é uma construção tópica, típica da fala, mas a segunda parte é contraditória: "coloquial" e "fiel às normas gramaticais" são incompatíveis. A linguagem coloquial, por definição, afasta-se da norma culta. A alternativa contradiz o texto ao juntar dois atributos opostos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre informalidade, gíria, regionalismo e coloquialismo. A alternativa C é a única que usa os termos com precisão: "a gente" é informal; o 2º quadrinho usa gírias.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar variação linguística, pergunte: a expressão é de uso geral (informal) ou de um grupo específico (gíria)? É de uma região (regionalismo) ou da fala espontânea (coloquialismo)? Essa distinção resolve a questão.