Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184981
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Esc Pol ( )
Os gatos podem se manifestar?
Um dia, aconteceu isto: um gatito apareceu no nosso
quintal. De abuso, ninguém lhe tinha convidado. Pensei em ir
atirá-lo no fundo da Ilha, onde há sempre restos dos restaurantes e suficientemente longe de casa para não aprender o
caminho de volta. De fome não morreria, se evitasse outras
mortes. Mas ele era engraçado, sem medo do cão nem das
pessoas. E o cão adotou-o. Ficou, que remédio. Cresceu.
Notamos logo a diminuição de ratos no quintal, tentando
entrar em casa. Um dia o gato desapareceu, deixando um
vazio. Mais tarde uma gata vadia pariu no quintal, entre as
plantas. Os gatitos cresceram e deixamos, na esperança de
domarmos algum. Até procurávamos seduzi-los com comida, pois eram muito esquivos, medrosos ou desconfiados.
Tinham as suas razões para desconfiarem dos humanos.
Desapareceram também. É lógico, na vizinhança há quem
não goste de gatos, embora haja ratos que chegue. Havia
também umas obras e parece que os trabalhadores gostam
de atirar ferramentas aos bichos. Pode ser a causa.
(Pepetela. Crónicas Maldispostas, 2015. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Considere as passagens:
• Pensei em ir atirá-lo no fundo da Ilha…
• Ficou, que remédio.
• Os gatitos cresceram e deixamos, na esperança de domarmos algum.
As passagens permitem, correta e respectivamente, as seguintes interpretações:
Ao narrador pretendia garantir o bem-estar do gato; o narrador sensibilizou-se com a opção do gato; o narrador queria acabar com os gatinhos, por saudade do desaparecido.
Bo narrador pretendia deixar o gato onde havia alimentos; o narrador aceitou a situação com resignação; o narrador queria outro gato como animal de estimação.
Co narrador pretendia deixar o gato livre para viver na ilha; o narrador ficou doente com a presença do gato; o narrador queria conter a violência dos gatinhos.
Do narrador pretendia se livrar rapidamente do gato; o narrador mostrou-se incomodado com a presença do gato; o narrador queria desaparecer com os gatinhos.
Eo narrador pretendia exterminar o gato longe de sua casa; o narrador estranhou a permanência do gato; o narrador via outro gato como opção ao desaparecido.
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GabaritoB — o narrador pretendia deixar o gato onde havia alimentos; o narrador aceitou a situação com resignação; o narrador queria outro gato como animal de estimação.
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Interpretação de passagens: o que cada trecho autoriza
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que interpreta as três passagens sem extrapolar: "Pensei em ir atirá-lo no fundo da Ilha" indica a intenção de deixar o gato onde havia alimentos; "Ficou, que remédio" expressa resignação diante da permanência do animal; e "deixamos, na esperança de domarmos algum" revela o desejo de ter um gato como animal de estimação. Cada interpretação se ancora em pistas textuais diretas, como se verá a seguir.
O comando pede que se interprete correta e respectivamente três passagens do texto. Isso significa que cada alternativa propõe uma leitura para cada trecho, e a correta deve ser a que melhor se sustenta nas pistas deixadas pelo narrador. Não se trata de compreensão literal (o que está escrito), mas de inferência — deduzir o sentido implícito a partir de indícios do próprio texto. A banca VUNESP adora esse tipo de questão: oferece paráfrases que parecem plausíveis, mas que acrescentam informações que o texto não autoriza.
O texto narra a chegada de um gato ao quintal, a hesitação do narrador em abandoná-lo, a aceitação de sua permanência e, depois, o desejo de domesticar os filhotes de uma gata vadia. O movimento argumentativo é claro: o narrador inicialmente pensa em se livrar do animal, mas acaba se afeiçoando e aceitando sua presença. A resposta mora exatamente nessa progressão de sentimentos.
A técnica central aqui é testar cada interpretação contra o texto: a alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel do que está implícito, sem acrescentar nada de fora. As distratoras, em geral, cometem um destes erros: extrapolam (inventam uma intenção que o texto não sustenta), restringem (reduzem o alcance do que foi dito) ou contradizem (invertem o sentido de uma passagem). Vamos analisar cada uma.
Interpretação de passagens
1Técnica central
Testar cada leitura contra o texto
Inferência (sentido implícito)
Sem extrapolar, restringir ou contradizer
2Erros típicos das distratoras
Extrapolam (inventam intenção)
Restringem (reduzem alcance)
Contradizem (invertem sentido)
3Passagens do texto
"Pensei em ir atirá-lo no fundo da Ilha"
Deixar onde havia alimentos
"Ficou, que remédio"
Aceitação resignada
"deixamos, na esperança de domarmos algum"
Querer gato de estimação
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A primeira parte diz que o narrador "pretendia garantir o bem-estar do gato". O texto mostra o contrário: ele pensou em "ir atirá-lo no fundo da Ilha", ou seja, abandoná-lo, não garantir seu bem-estar. A segunda parte, "sensibilizou-se com a opção do gato", não encontra apoio: o narrador não fala em sensibilização, mas em aceitação resignada ("Ficou, que remédio"). A terceira parte, "queria acabar com os gatinhos, por saudade do desaparecido", é pura invenção — o texto diz que ele os deixou "na esperança de domarmos algum", ou seja, queria domesticá-los, não acabar com eles.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Interpretação fiel das três passagens. Vejamos cada uma:
"Pensei em ir atirá-lo no fundo da Ilha" — o narrador considerou abandonar o gato em um local distante, onde "há sempre restos dos restaurantes", ou seja, onde haveria alimento. A alternativa diz "pretendia deixar o gato onde havia alimentos", o que é uma paráfrase correta: ele não queria matar o animal, apenas deixá-lo em um lugar com comida.
"Ficou, que remédio" — a expressão "que remédio" indica resignação: o narrador não tinha alternativa, aceitou a permanência do gato. A alternativa diz "aceitou a situação com resignação", exatamente o sentido.
"deixamos, na esperança de domarmos algum" — o verbo "domar" e a esperança de domesticar revelam o desejo de ter um gato como animal de estimação. A alternativa diz "queria outro gato como animal de estimação", o que é uma inferência direta: se ele queria domar, queria tê-lo em casa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e troca de sentido. A primeira parte, "deixar o gato livre para viver na ilha", é uma leitura romantizada: o texto não fala em liberdade, mas em abandono ("ir atirá-lo"). A segunda parte, "ficou doente com a presença do gato", contradiz o texto: o narrador não demonstra doença, mas resignação. A terceira parte, "queria conter a violência dos gatinhos", é invenção — o texto não menciona violência dos gatinhos, apenas o desejo de domá-los.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A primeira parte, "se livrar rapidamente do gato", até poderia ser aceita, mas a segunda, "mostrou-se incomodado com a presença do gato", contradiz o texto: o narrador não demonstra incômodo, mas aceitação ("Ficou, que remédio"). A terceira, "queria desaparecer com os gatinhos", é o oposto do que está escrito: ele queria domá-los, não fazê-los desaparecer.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e troca de sentido. A primeira parte, "exterminar o gato longe de sua casa", é uma leitura exagerada: o texto não fala em exterminar, mas em abandonar em local com comida. A segunda parte, "estranhou a permanência do gato", não encontra apoio: o narrador não demonstra estranhamento, mas resignação. A terceira parte, "via outro gato como opção ao desaparecido", é uma interpretação possível, mas a alternativa como um todo falha por causa das duas primeiras partes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — oferece interpretações que parecem plausíveis, mas que acrescentam intenções que o texto não autoriza (como "exterminar" ou "acabar com os gatinhos"). A correta é a que se limita ao que as pistas textuais sustentam.
PEGA ESSA DICA!
Ao interpretar passagens, pergunte-se: "o texto autoriza esta leitura, ou exige que eu acrescente algo de fora?". Se a alternativa depende de uma suposição não apoiada no texto, ela está errada.
Conclusão: a alternativa B é a única que interpreta as três passagens de forma fiel, sem extrapolar, restringir ou contradizer o texto. As demais cometem erros típicos de interpretação: extrapolam intenções, invertem sentidos ou acrescentam informações ausentes.