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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184983
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Inv Pol ( )

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.

Sou formado em desencontros.

A sensatez me absurda.

Os delírios verbais me terapeutam.

Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso

porque não encontrava um título para os seus poe-

mas. Um título que harmonizasse os seus conflitos.

Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor.

Essa antítese o acalmou.)

 

As antíteses congraçam.

 

(Manoel de Barros, Livro sobre nada.)

Leia o poema, para responder à questão.     Um dos recursos de que se vale o eu lírico para produzir efeitos de sentido poéticos consiste em
  1. Adeclinar de seu ofício de poeta, ao se identificar com a dificuldade de Baudelaire de criar antíteses.
  2. Btratar a poesia como projeto de contestação da linguagem, por meio do emprego de termos em desuso na língua.
  3. Cexpressar sua subjetividade por meio de referências à dificuldade do ofício de ser poeta, de modo a dar-lhe ares de importância.
  4. Dapresentar recriações, tais como a conjugação de substantivos, as quais ele chama de delírios verbais.
  5. Epropor ao leitor uma releitura do conceito de poesia, empregando verbos e adjetivos fora de contexto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — apresentar recriações, tais como a conjugação de substantivos, as quais ele chama de delírios verbais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Recursos expressivos no poema de Manoel de Barros

Gabarito: letra D. O eu lírico vale-se de recriações vocabulares — como transformar substantivos em verbos —, que ele mesmo nomeia de "delírios verbais". A passagem que ancora a resposta é o verso "Os delírios verbais me terapeutam", em que o substantivo "terapia" é recriado como verbo, e também "A sensatez me absurda", em que "absurdo" vira verbo. A alternativa D é a única que identifica esse procedimento de recriação da linguagem, que é a marca central do poema.

O comando pede que se identifique um recurso usado pelo eu lírico para produzir efeitos poéticos. Trata-se de uma questão de interpretação — não basta localizar uma informação literal; é preciso reconhecer o procedimento estilístico que sustenta o poema. A banca quer que o candidato perceba como a manipulação da língua (criar palavras novas, mudar classes gramaticais) gera o sentido poético.

O poema de Manoel de Barros é uma celebração da liberdade criativa da linguagem. O eu lírico não se conforma com o uso convencional das palavras: ele "desarruma" a sintaxe e a morfologia para expressar uma visão de mundo particular. Os versos iniciais já anunciam essa postura: "Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras" — o "inconexo" (o que não segue a lógica comum) é apresentado como algo que "aclara", ou seja, que ilumina. Essa inversão de valores (o que parece absurdo traz clareza) é a chave para entender o poema.

A técnica central do poema é a recriação vocabular: o poeta cria palavras novas ou emprega palavras existentes em classes gramaticais diferentes, forçando o leitor a repensar o sentido. Veja os exemplos:

  • "A sensatez me absurda": o substantivo "absurdo" é transformado em verbo (absurdar), criando um sentido de "tornar absurdo".

  • "Os delírios verbais me terapeutam": o substantivo "terapia" vira verbo (terapeutar), significando "curar por meio da terapia".

  • "Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)": a palavra "esgoto" é usada metaforicamente, e o parêntese reforça a ideia de que a palavra aceita novos sentidos.

Essas recriações são chamadas pelo próprio eu lírico de "delírios verbais" — expressão que resume o procedimento: a linguagem é delirante, criativa, capaz de gerar novos sentidos. A alternativa D capta exatamente isso: "apresentar recriações, tais como a conjugação de substantivos, as quais ele chama de delírios verbais".

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que extrapolam o texto ou trocam o procedimento real (recriação vocabular) por outros recursos (contestação, termos em desuso, verbos fora de contexto). A correta é a única que nomeia o recurso exato usado pelo poeta.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar recursos expressivos, pergunte: "que procedimento linguístico o autor usa?" — não se contente com uma paráfrase do sentido; procure a técnica (criação de palavras, inversão sintática, metáfora etc.).

Recriação vocabular (delírios verbais)
  • 1Substantivo → verbo
    • "A sensatez me absurda"
    • "Os delírios verbais me terapeutam"
  • 2Palavra aceita novos sentidos
    • "Posso dar alegria ao esgoto"
  • 3Efeito poético
    • Liberdade criativa da linguagem
    • Inconexo aclara as loucuras
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o eu lírico "declina de seu ofício de poeta", identificando-se com a dificuldade de Baudelaire de criar antíteses. Isso contradiz o texto: o eu lírico não declina do ofício; ao contrário, ele o exerce de forma criativa. A referência a Baudelaire é uma intertextualidade que ilustra a busca por um título que harmonizasse conflitos ("A beleza e a dor"), mas não há declínio. O eu lírico celebra a criação poética, não a abandona. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o eu lírico "trata a poesia como projeto de contestação da linguagem, por meio do emprego de termos em desuso na língua". O texto não menciona termos em desuso; o que há é recriação vocabular (criar palavras novas, mudar classes). Além disso, "contestar a linguagem" é uma interpretação que extrapola — o eu lírico não contesta, ele brinca com a linguagem, celebra sua plasticidade. Erro: extrapolação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o eu lírico "expressa sua subjetividade por meio de referências à dificuldade do ofício de ser poeta, de modo a dar-lhe ares de importância". O texto menciona a dificuldade de Baudelaire, mas não para "dar ares de importância" ao ofício; a referência serve para ilustrar a busca por uma antítese que harmonizasse conflitos. Atribuir a intenção de "dar ares de importância" é acrescentar opinião que o texto não sustenta. Erro: opinião embutida.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D é a única que identifica o recurso central do poema: "apresentar recriações, tais como a conjugação de substantivos, as quais ele chama de delírios verbais". O texto traz exemplos claros: "A sensatez me absurda" (substantivo "absurdo" conjugado como verbo) e "Os delírios verbais me terapeutam" (substantivo "terapia" conjugado como verbo). O próprio eu lírico nomeia esse procedimento de "delírios verbais", confirmando a leitura. Correta: ancorada no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o eu lírico "propõe ao leitor uma releitura do conceito de poesia, empregando verbos e adjetivos fora de contexto". O texto não emprega verbos e adjetivos fora de contexto; emprega substantivos como verbos (recriação vocabular). Além disso, "propor uma releitura do conceito de poesia" é uma generalização que extrapola — o poema não discute o conceito de poesia de forma teórica; ele a pratica. Erro: troca de conceito + extrapolação.

Conclusão: a questão pede o recurso expressivo usado pelo eu lírico. A alternativa D é a única que nomeia corretamente a recriação vocabular (conjugação de substantivos como verbos), procedimento que o próprio texto chama de "delírios verbais". As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam, ou trocam o recurso real por outro. Gabarito: letra D.

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