Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184984
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Inv Pol ( )
Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poe-
mas. Um título que harmonizasse os seus conflitos.
Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor.
Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.
(Manoel de Barros, Livro sobre nada.)
Leia o poema, para responder à questão. Os dois últimos versos – Essa antítese o acalmou.) / As antíteses congraçam. – expressam a ideia, desenvolvida no poema, de que a criação poética consiste em
Atraduzir a subjetividade em dados reconhecíveis da realidade do leitor.
Bimitar poetas consagrados, para também alcançar reconhecimento.
Cdesafiar a coerência e produzir efeitos estéticos a partir de expressões inusitadas.
Dconciliar as expectativas do leitor com o máximo de criatividade da linguagem.
Econceber novas formas de abordar os temas, priorizando a clareza das ideias.
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GabaritoC — desafiar a coerência e produzir efeitos estéticos a partir de expressões inusitadas.
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A criação poética como desafio à coerência
Gabarito: letra C. Os versos finais sintetizam a tese do poema: a criação poética consiste em desafiar a coerência e produzir efeitos estéticos a partir de expressões inusitadas. O eu lírico se declara "formado em desencontros", afirma que "a sensatez me absurda" e que "os delírios verbais me terapeutam" — todas construções que rompem a lógica comum para gerar beleza. A passagem decisiva é a que narra a busca de Baudelaire por um título que "harmonizasse os seus conflitos", resolvida com a antítese "Flores do mal", que "o acalmou".
O comando pede uma interpretação — "expressam a ideia, desenvolvida no poema" —, ou seja, exige que se capture a tese implícita que amarra os versos, não uma informação literal. A resposta não está escrita palavra por palavra; ela se constrói pela articulação das imagens paradoxais que atravessam o texto. O caminho é identificar o movimento argumentativo: o eu lírico apresenta sua poética (versos 1–5), ilustra com o caso de Baudelaire (parênteses) e conclui com a generalização "As antíteses congraçam".
O poema inteiro é uma celebração do paradoxo e da junção de contrários como matéria-prima da arte. Veja a sequência de oxímoros e inversões:
"Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras." "Sou formado em desencontros." "A sensatez me absurda." "Os delírios verbais me terapeutam."
Cada verso une termos que a lógica comum separa: "inconexo" que "aclara", "sensatez" que "absurda", "delírios" que "terapeutam". Não há busca de clareza, de imitação ou de tradução fiel da realidade — há a aposta deliberada no inusitado, na combinação imprevista de palavras que produz um efeito estético novo. O caso de Baudelaire confirma: ele sofria por não achar um título que "harmonizasse os seus conflitos", e a solução veio de uma antítese — "Flores do mal" —, que "o acalmou". A beleza nasce exatamente da tensão entre "flores" (beleza) e "mal" (dor).
A técnica que decide esta questão é o teste da paráfrase fiel: a alternativa correta precisa reescrever, com outras palavras, a ideia que o texto sustenta do início ao fim, sem acrescentar nada de fora. As distratoras falham porque extrapolam (trazem noções como "realidade do leitor", "imitar poetas", "expectativas do leitor", "clareza das ideias") que o poema jamais menciona — são opiniões de senso comum sobre poesia, não leituras do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de "completar" o poema com teorias sobre o que a poesia deveria ser. A alternativa C é a única que permanece dentro do que o texto diz: o eu lírico assume o "inconexo", os "desencontros" e os "delírios verbais" como matéria de sua arte.
Criação poética (tese do poema): Desafiar a coerência (Fazer o inconexo, Formado em desencontros, A sensatez me absurda); Efeitos estéticos inusitados (Delírios verbais terapeutam, Antíteses congraçam); Exemplo: Baudelaire ("Flores do mal", Antítese harmoniza conflitos)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Extrapolação. O texto não fala em "traduzir a subjetividade" nem em "dados reconhecíveis da realidade do leitor". O eu lírico não busca reconhecimento externo nem ancoragem na realidade comum; ao contrário, ele se afasta dela — "a sensatez me absurda". A alternativa importa um conceito (a poesia como ponte com o leitor) que não está no poema.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Extrapolação. O poema menciona Baudelaire, mas não para dizer que se deve "imitar poetas consagrados". Baudelaire é citado como exemplo de como a antítese resolve um conflito criativo — não como modelo a ser copiado. A alternativa troca a função do exemplo (ilustrar uma tese) por um conselho de conduta (imitar), o que o texto não autoriza.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel da tese. "Desafiar a coerência" corresponde a "fazer o inconexo", "ser formado em desencontros", "a sensatez me absurda". "Produzir efeitos estéticos a partir de expressões inusitadas" corresponde a "os delírios verbais me terapeutam" e à conclusão "As antíteses congraçam" — a junção de contrários ("Flores do mal") gera beleza e harmonia. A alternativa reescreve, sem acrescentar, exatamente o que o poema defende.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Extrapolação. O texto não menciona "expectativas do leitor" em nenhum momento. A criação poética, para o eu lírico, não é um ato de conciliação com o público, mas uma necessidade interna — "os delírios verbais me terapeutam". A palavra "conciliar" até ecoa "congraçam", mas o objeto é diferente: o poema fala em harmonizar conflitos internos (de Baudelaire), não em agradar leitores.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Contradiz o texto. O poema é um elogio ao que foge à clareza e à lógica: "fazer o inconexo aclara", "a sensatez me absurda". "Priorizar a clareza das ideias" é exatamente o oposto da poética defendida. A alternativa inverte o sentido central do texto — o eu lírico não busca clareza, busca o inusitado que "aclara as loucuras" por outra via.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação de poema, localize a tese (geralmente no início ou no fim) e teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige que eu traga uma ideia de fora?". Palavras como "leitor", "imitar", "clareza" são sinais de alerta quando o texto não as menciona.