Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184986
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Inv Pol ( )
A igualação e a desigualdade
A ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao de sua irmã gêmea, a ditadura da organização desigual do mundo.
A maquinaria da igualação compulsiva atua contra a mais
bela energia do gênero humano, que se reconhece em suas
diferenças e através delas se vincula. O melhor que o mundo
tem está nos muitos mundos que o mundo contém, as diferentes músicas da vida, suas dores e cores: as mil e uma
maneiras de viver e de falar, crer e criar, comer, trabalhar,
dançar, brincar, amar, sofrer e festejar que temos descoberto
ao longo de milhares e milhares de anos.
A igualação, que nos uniformiza e nos apalerma, não
pode ser medida. Não há computador capaz de registrar os
crimes cotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade.
Mas seus demolidores progressos saltam aos olhos. O tempo
vai se esvaziando de história e o espaço já não reconhece a
assombrosa diversidade de suas partes. Através dos meios
massivos de comunicação, os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num
único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo.
Quem não tem não é: quem não tem carro, não usa sapato de marca ou perfume importado está fingindo existir.
(Eduardo Galeano, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso)
Leia o texto, para responder à questão. De acordo com o texto, a chamada “ditadura da sociedade de consumo” tem expressão
Anas possibilidades de ascensão por meio do esvaziamento do domínio do outro.
Bem delitos comuns contra a humanidade praticados no dia a dia pelos indivíduos.
Cem populações que prestigiam as atividades que produzem mais bem-estar.
Dno progresso que a comunicação de massa é capaz de propiciar à população mundial.
Eem aspirações direcionadas à posse de bens, forma de simulação do estar no mundo.
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GabaritoE — em aspirações direcionadas à posse de bens, forma de simulação do estar no mundo.
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A ditadura da sociedade de consumo e a posse de bens
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que traduz fielmente a ideia central do texto: a "ditadura da sociedade de consumo" se expressa em aspirações direcionadas à posse de bens, que funcionam como uma forma de simulação do estar no mundo. Essa leitura está ancorada na passagem final do texto, em que o autor afirma que "os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo" e conclui: "Quem não tem não é: quem não tem carro, não usa sapato de marca ou perfume importado está fingindo existir". A posse de bens, portanto, não é apresentada como algo que confere existência real, mas como uma simulação — exatamente o que a alternativa E afirma.
O comando da questão é de compreensão/recorrência: o enunciado pede "de acordo com o texto", ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia explicitamente apresentada, sem deduções ou acréscimos. Isso muda a estratégia de resolução: não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de localizar a passagem que diz exatamente o que a alternativa correta afirma. A banca VUNESP, nesse tipo de questão, costuma trabalhar com a reescritura equivalente de uma ideia do texto, trocando as palavras, mas preservando o sentido.
O texto de Eduardo Galeano é uma crítica à sociedade de consumo e à massificação cultural. A tese central é que a "igualação compulsiva" — imposta pela indústria cultural e pela lógica do consumo — destrói a diversidade humana e impõe um modelo único de existência. O autor defende que "o melhor que o mundo tem está nos muitos mundos que o mundo contém", mas a cultura de massas nos obriga a "nos contemplar num único espelho". A consequência dessa imposição é a redução do ser humano àquilo que ele possui: quem não tem os bens de consumo "está fingindo existir". É exatamente essa relação entre posse de bens e simulação da existência que a alternativa E captura.
A técnica que decide esta questão é o teste da paráfrase: para cada alternativa, pergunte "qual trecho do texto autoriza esta afirmação?". A alternativa correta é aquela que encontra um trecho que diz a mesma coisa com outras palavras. As alternativas erradas, por sua vez, ou extrapolam o texto (acrescentam ideias que não estão nele), ou tangenciam o tema (falam de assuntos correlatos, mas que o texto não aborda), ou contradizem o que está escrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com um fato verdadeiro no mundo real, mas ausente do texto. As alternativas A, B, C e D soam plausíveis e até corretas em outros contextos, mas nenhuma delas encontra respaldo no texto de Galeano. A única que se ancora em uma passagem concreta é a E.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a ditadura do consumo se expressa "nas possibilidades de ascensão por meio do esvaziamento do domínio do outro". O texto não menciona ascensão social nem domínio do outro em nenhum momento. A ideia de "esvaziamento" aparece no texto, mas ligada ao tempo e à história ("O tempo vai se esvaziando de história"), não a uma relação de domínio entre pessoas. A alternativa inventa uma relação de poder que o autor não estabelece.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação com troca de sentido. A alternativa fala em "delitos comuns contra a humanidade praticados no dia a dia pelos indivíduos". O texto usa a palavra "crimes", mas em sentido metafórico: "Não há computador capaz de registrar os crimes cotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano". Os "crimes" são cometidos pela indústria da cultura de massas, não por "indivíduos" no dia a dia, e não são "delitos comuns" no sentido jurídico. A alternativa distorce o sujeito da ação e literaliza uma metáfora.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a ditadura do consumo se expressa "em populações que prestigiam as atividades que produzem mais bem-estar". O texto faz exatamente o oposto: a cultura de consumo é criticada por destruir o bem-estar e a diversidade, impondo um modelo único. Não há nenhuma passagem que associe a ditadura do consumo a "atividades que produzem mais bem-estar". A alternativa inverte a valoração do autor.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa fala em "progresso que a comunicação de massa é capaz de propiciar à população mundial". O texto menciona "demolidores progressos" da igualação, mas em sentido negativo: são progressos que destroem a diversidade, não que beneficiam a população. A comunicação de massa é apresentada como instrumento de manipulação ("os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num único espelho"), não como fonte de progresso positivo. A alternativa inverte o juízo de valor do autor.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E é a única inteiramente sustentada pelo texto. Ela afirma que a ditadura do consumo se expressa "em aspirações direcionadas à posse de bens, forma de simulação do estar no mundo". Isso é uma paráfrase direta da passagem final:
"Através dos meios massivos de comunicação, os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo. Quem não tem não é: quem não tem carro, não usa sapato de marca ou perfume importado está fingindo existir."
A passagem mostra que a sociedade de consumo direciona as aspirações das pessoas para a posse de bens (carro, sapato de marca, perfume importado) e que essa posse é uma simulação de existência ("fingindo existir"). A alternativa E traduz exatamente essa ideia: as aspirações são direcionadas à posse de bens, e essa posse é uma forma de simular o estar no mundo. Não há acréscimo, não há supressão, não há inversão — é a reescritura equivalente da ideia central do texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife no texto a passagem que parece corresponder a cada alternativa. A correta é aquela que encontra um trecho que diz a mesma coisa com outras palavras. Se você não encontrar o trecho, a alternativa está errada — mesmo que ela pareça verdadeira no mundo real.