Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184989
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Inv Pol ( )
A fuga da autoridade adulta
Eu estava falando em uma conferência em Nova Iorque
durante o verão de 2016 quando descobri o termo “adultar”.
Tomava um drinque em um bar quando vi um jovem na casa
dos 30 usando uma camiseta que dizia “Chega de adultar por
hoje”. Depois, entrevistei uma mulher cuja camiseta transmitia uma mensagem simples: “Adultar é cruel!”.
Caso você não esteja familiarizado com a palavra, adaptada do inglês “adulting”, adultar é definido como “a prática de
se comportar do modo característico de um adulto responsável, especialmente na realização de tarefas mundanas, mas
necessárias”. A palavra é usada para transmitir uma conotação negativa em relação às responsabilidades associadas
à vida adulta. E sugere que, dada a oportunidade, qualquer
mulher ou homem sensato na casa dos 30 preferiria não
adultar, e evitar o papel de um adulto.
A tendência de retratar a vida adulta como uma conquista
excepcionalmente difícil que precisa ser ensinada coexiste
com uma sensação palpável de desencanto com o status
de adulto. Em tudo além do nome a vida adulta se tornou
desestabilizada, a ponto de ter se tornado alvo de escárnio
e, para muitos, uma identidade indesejada. Não surpreende
que adultar seja uma atividade que muitos indivíduos biologicamente maduros só estejam preparados para desempenhar
em tempo parcial.
O corolário da idealização do adultamento em regime
parcial é o desmantelamento da autoridade adulta. O impacto
corrosivo da perda da autoridade adulta no desenvolvimento dos jovens foi uma grande preocupação para a filósofa
política Hannah Arendt. Escrevendo nos anos 1950, Arendt
chamou atenção para o “colapso gradual da única forma de
autoridade” que existiu em “todas as sociedades conhecidas
historicamente: a autoridade dos pais sobre filhos, dos professores sobre os alunos e, em geral, dos mais velhos sobre os
mais novos”. Setenta anos depois, a desautorização da vida
adulta se tornou amplamente celebrada na cultura popular
ocidental. Em vez de se preocupar com as consequências da
erosão da autoridade adulta, esse desenvolvimento é visto
como positivo por partes da mídia, que acreditam que pessoas crescidas têm muito pouco a ensinar às crianças.
O trecho no início do segundo parágrafo – Caso você não esteja familiarizado com a palavra adaptada do inglês “adulting”, adultar é definido como… – consiste em
Auma atitude profissional do autor para esclarecer um assunto que sabidamente é desconhecido do público leitor da revista.
Bum recurso do autor para apresentar a informação de modo cortês, sem aparentar superioridade em relação ao leitor.
Cum modo polido que o autor encontrou para expor o tema, descartando a hipótese de se tratar de novidade para seu leitor.
Duma forma pouco adequada de introduzir uma nova informação para o leitor, haja vista que está explícito que este já a conhece.
Euma estratégia do autor para trazer a informação, embora reconheça que o assunto não é novidade para o leitor.
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GabaritoB — um recurso do autor para apresentar a informação de modo cortês, sem aparentar superioridade em relação ao leitor.
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A função do condicional "Caso você não esteja familiarizado"
Gabarito: letra B. O trecho "Caso você não esteja familiarizado com a palavra" é um recurso de cortesia do autor: ele apresenta a definição de "adultar" de modo polido, sem aparentar superioridade em relação ao leitor. A pista está na própria estrutura condicional — o autor não afirma que o leitor desconhece o termo; apenas supõe a possibilidade de desconhecimento, o que é uma forma de respeitar o interlocutor. Como se lê no 2º parágrafo: "Caso você não esteja familiarizado com a palavra, adaptada do inglês 'adulting', adultar é definido como…".
O comando
A questão pergunta o que consiste o trecho — ou seja, pede que você identifique a função discursiva daquela construção, não o sentido literal de cada palavra. É uma questão de interpretação (inferir a intenção do autor), não de compreensão literal. O verbo "consiste" indica que você deve reconhecer o propósito comunicativo do trecho no contexto.
O texto e a estratégia
O texto discute a "fuga da autoridade adulta" e a palavra "adultar". No 2º parágrafo, o autor introduz a definição do termo. A construção "Caso você não esteja familiarizado" é uma condicional que expressa uma hipótese — não uma afirmação categórica. Ao usar essa estrutura, o autor evita presumir que o leitor conhece ou desconhece o termo, tratando-o com cortesia. Essa é uma estratégia comum em textos expositivos: apresentar informação nova sem impor ao leitor a posição de ignorante.
A modalização é a chave: o autor não diz "você não conhece a palavra" (o que seria uma afirmação direta e potencialmente ofensiva), mas sim "caso você não esteja familiarizado" — uma condição que deixa espaço para o leitor que já conhece o termo. Isso é polidez linguística: o autor protege a face do leitor, não o colocando em posição de inferioridade.
A técnica que decide
A alternativa correta é a que captura exatamente essa função de cortesia. As demais ou extrapolam (afirmam que o autor "sabe" que o leitor desconhece ou conhece o termo) ou contradizem o texto (dizem que o autor "descarta" a hipótese de novidade, quando na verdade ele a levanta).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a diferença entre afirmar e supor. "Caso você não esteja familiarizado" é uma hipótese, não uma constatação. Alternativas que dizem que o autor "reconhece" ou "descarta" a novidade extrapolam o que está escrito.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de função discursiva, pergunte-se: o autor afirma ou apenas supõe? A presença de "caso" (condicional) indica suposição, não certeza.
"Caso você não esteja familiarizado"
1Estrutura condicional
Supõe, não afirma
Deixa em aberto o conhecimento do leitor
2Função discursiva
Cortesia / polidez linguística
Protege a face do interlocutor
Não impõe posição de ignorância
3Efeito
Apresenta informação sem superioridade
Respeita quem já conhece o termo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa diz que o autor tem uma "atitude profissional" para esclarecer um assunto "sabidamente desconhecido". O texto não afirma que o assunto é sabidamente desconhecido — pelo contrário, a condicional "caso você não esteja familiarizado" deixa em aberto se o leitor conhece ou não. A palavra "sabidamente" é uma extrapolação: o autor não sabe, ele apenas supõe a possibilidade.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. O trecho é um recurso de cortesia: o autor apresenta a definição de forma polida, sem aparentar superioridade. A condicional "caso você não esteja familiarizado" não impõe ao leitor a posição de quem desconhece o termo; ela abre a possibilidade de desconhecimento, mas sem afirmá-la. Isso é uma estratégia de polidez linguística, que protege a face do interlocutor. A alternativa B captura exatamente essa função: "apresentar a informação de modo cortês, sem aparentar superioridade em relação ao leitor".
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor "descarta a hipótese de se tratar de novidade para seu leitor". Isso é o oposto do que o texto faz: a condicional "caso você não esteja familiarizado" levanta a hipótese de novidade, não a descarta. O autor não afirma que o leitor conhece o termo; ele apenas supõe que pode não conhecer. A alternativa inverte o sentido da construção.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que é "uma forma pouco adequada" e que "está explícito que este já a conhece". O texto não diz que o leitor já conhece a palavra — pelo contrário, a condicional deixa em aberto essa possibilidade. Além disso, a construção é adequada e cortês, não "pouco adequada". A alternativa acrescenta um juízo de valor negativo que o autor não externou.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor "reconhece que o assunto não é novidade para o leitor". Isso é falso: o autor não reconhece nada disso. A condicional "caso você não esteja familiarizado" não afirma que o leitor conhece o termo; ela apenas supõe a possibilidade de desconhecimento. A alternativa inverte o sentido: o autor não diz que o assunto é conhecido, ele levanta a hipótese de que pode não ser.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de distinguir afirmação de suposição. A condicional "caso você não esteja familiarizado" é uma estratégia de cortesia: o autor não impõe ao leitor a posição de ignorante, apenas abre a possibilidade de desconhecimento. A alternativa B é a única que captura exatamente essa função. As demais extrapolam (A), contradizem (C, D, E) ou invertem o sentido da construção.