Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu184993
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
PC ( )
Moscas, e teto azul
Amigos dizem-me: pinte o teto de sua cozinha de azul, assim não entrarão moscas.
Desço a escada sonhador e perplexo; será verdade? Quem descobriu que moscas não amam o azul, esse delicadíssimo segredo da construção civil, fino mergulho na sensibilidade aérea do inseto aborrecido para nós, mas em si mesmo respeitável como todo ser?
Faz o homem a sua casa e não quer moscas, pinta de azul seu teto, moscas chegam até a janela, olham lá dentro para cima, pensam: pintou de azul o teto, ele não nos ama, adeus.
A relação mosca-homem é incessante no mundo, tanto que o homem a chama oficialmente Musca domestica, celebrando seu amor à casa do homem, imaginando talvez que não havia moscas antes de haver casas, como certamente não existiam andorinhas sem beirais para viver e fios telefônicos onde se encontrarem as amigas e bater um papo olhando a tarde; uma criança nascida em Brasília que não sair de lá morrerá sem ver andorinhas, triste sina.
Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas possuem um enredo íntimo.
(Rubem Braga, 200 Crônicas Escolhidas. Fragmento)
Leia o texto para responder à questão. As perguntas presentes no segundo parágrafo do texto devem ser entendidas como
Aacusação contundente que o narrador faz aos amigos, condenando-os pelo fato de pintarem o teto de suas cozinhas para afastarem moscas.
Bdivagação pessoal que o narrador faz a respeito da ideia de que as moscas não entrariam em cozinhas com o teto pintado de azul.
Cconversa imaginária que o narrador tem com as moscas de cozinha para saber se a cor azul do teto realmente é capaz de afastá-las.
Dquestionamento confuso que o narrador faz aos seus amigos, quando eles lhe esclarecem que teto azul nas cozinhas espanta moscas.
Econjectura pessimista que o narrador faz em relação à pintura do teto para afastar as moscas, que pode tirar a beleza das cozinhas.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — divagação pessoal que o narrador faz a respeito da ideia de que as moscas não entrariam em cozinhas com o teto pintado de azul.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
As perguntas do segundo parágrafo: divagação pessoal do narrador
Gabarito: letra B. As perguntas do segundo parágrafo devem ser entendidas como divagação pessoal do narrador, pois ele questiona a veracidade da informação recebida dos amigos, refletindo sobre a ideia de que moscas não entrariam em cozinhas com teto azul. O texto mostra o narrador "sonhador e perplexo", indagando: "será verdade? Quem descobriu que moscas não amam o azul...?" — perguntas que expressam sua reflexão íntima, e não uma acusação, conversa com moscas, questionamento confuso ou conjectura pessimista.
O comando pede que se identifique a função das perguntas no segundo parágrafo. Isso é uma questão de interpretação — não se trata de localizar uma informação explícita, mas de depreender o efeito de sentido que as perguntas produzem no texto. A banca quer saber como o leitor entende a atitude do narrador ao formular aquelas indagações.
No segundo parágrafo, o narrador desce a escada "sonhador e perplexo" e se pergunta: "será verdade? Quem descobriu que moscas não amam o azul, esse delicadíssimo segredo da construção civil, fino mergulho na sensibilidade aérea do inseto...?". As perguntas não são dirigidas a ninguém em específico — são reflexões internas, uma divagação sobre a plausibilidade da informação. O tom é de encantamento e curiosidade, não de acusação ou pessimismo.
A técnica para resolver: identifique o sujeito das perguntas (quem pergunta e para quem) e o tom que elas carregam. No texto, o narrador pergunta a si mesmo, em tom de admiração e dúvida, não a terceiros. Isso elimina as alternativas que atribuem as perguntas a uma acusação aos amigos (A), a uma conversa com as moscas (C), a um questionamento confuso (D) ou a uma conjectura pessimista (E).
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador não acusa os amigos; ele recebe a informação deles e a recebe com curiosidade. O texto diz: "Amigos dizem-me: pinte o teto de sua cozinha de azul, assim não entrarão moscas." — e o narrador reage "sonhador e perplexo", perguntando-se se é verdade. Não há condenação, apenas admiração e dúvida. A alternativa extrapola ao transformar a reflexão em acusação.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta: é uma paráfrase fiel. O narrador "desce a escada sonhador e perplexo" e se pergunta: "será verdade? Quem descobriu que moscas não amam o azul...?". Essas perguntas são divagação pessoal — reflexões íntimas sobre a ideia recebida, sem destinatário externo. O texto autoriza: "Desço a escada sonhador e perplexo; será verdade?" — a dúvida é interna, pessoal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. Não há conversa com as moscas. O narrador não dialoga com os insetos; ele apenas reflete sobre eles. A alternativa extrapola ao inventar um diálogo que não existe no texto. As perguntas são dirigidas a si mesmo, não às moscas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador não questiona os amigos de forma confusa; ele recebe a informação e a pondera. O texto mostra "sonhador e perplexo", mas a perplexidade é de quem reflete, não de quem está confuso. A alternativa restringe o sentido ao chamar de "questionamento confuso" o que é uma divagação clara e encantada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. Não há pessimismo nem preocupação com a beleza das cozinhas. O narrador está "sonhador", admirado com o "delicadíssimo segredo da construção civil". A alternativa extrapola ao acrescentar uma preocupação estética que o texto não menciona. O tom é de encantamento, não de pessimismo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o sujeito das perguntas (quem pergunta) e o tom (admiração × acusação/pessimismo). Fique atento: perguntas retóricas do narrador consigo mesmo = divagação pessoal.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a função de perguntas, pergunte-se: quem pergunta? para quem? com que tom? Se as respostas apontarem para reflexão interna, a função é divagação.
Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a B, pois as perguntas do segundo parágrafo são uma divagação pessoal do narrador, que reflete com admiração sobre a ideia de que moscas não entram em cozinhas com teto azul. As demais ou contradizem o texto ou extrapolam informações não presentes.