Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185026
Banca
VUNESP
Órgão
TRF 3
Ano
2023
Cargo
TJ TRF3
As pitangueiras d’antanho*
Tem seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove,
sempre assim, meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos.
Foi criada, a bem dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu
em uma daquelas ruas que vão de Copacabana a Ipanema,
de praia a praia. A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício.
Certa vez me contou:
– Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo
de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo
acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não
tivesse tido infância...
Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que
parecia eterno sumiu.
Outra senhora disse então que se lembrava muito de
que, quando era menina, apanhava pitangas em Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas na Barra da Tijuca; e hoje
não há mais pitangas. Disse isso com uma certa animação, e
depois ficou um instante com o ar meio triste – a melancolia
de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela
manhã em que foi com o namorado colher pitangas.
Também em minha infância, há pitangueiras de praia.
Não baixinhas, em moitas, como aquelas de Cabo Frio, que o
vento não deixa crescer; mas altas; e suas copas se tocavam
e faziam uma sombra varada por pequenos pontos de sol.
Leia o texto para responder à questão. De acordo com o texto, a falta de base física para a saudade da moça se deve
Aà mudança do Arpoador para um lugar distante.
Bà vida adulta permeada de melancolias.
Cao perfil das praias modernas sem as pitangueiras.
Dàs lembranças causadas pelas pitangueiras.
Eao processo de transformação do espaço urbano.
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GabaritoE — ao processo de transformação do espaço urbano.
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A falta de base física para a saudade: a transformação do espaço urbano
Gabarito: letra E. A falta de base física para a saudade da moça se deve ao processo de transformação do espaço urbano, como se lê no trecho em que ela afirma que "Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores" e que "É como se eu não tivesse tido infância". A alternativa correta é a única que sintetiza, com paráfrase fiel, a causa apontada no texto: a destruição/substituição do ambiente físico da infância pela urbanização.
O comando pede uma questão de compreensão ("De acordo com o texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase de uma informação explícita — não uma dedução, nem uma opinião externa. A tarefa é localizar a passagem que explica o porquê da falta de "base física para a saudade" e reconhecê-la reescrita em outras palavras. Vamos ao texto.
A moça, criada entre Copacabana e Ipanema, narra que a família se mudou "quando a casa foi comprada para construção de edifício". Em seu relato, ela diz: "Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo de menina... Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância...". O narrador então conclui: "Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu." A causa está explícita: o que sumiu foi o espaço físico da infância — casas, jardins, árvores — substituído por edifícios. Isso é exatamente o que a letra E chama de "processo de transformação do espaço urbano".
A técnica que decide esta questão é simples: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é a única inteiramente sustentada pelo texto — nem mais, nem menos do que ele diz. As distratoras ou extrapolam (inventam um motivo que o texto não dá), ou restringem (reduzem a causa a um detalhe), ou trocam a causa pelo efeito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com aparência de verdade: as alternativas A, C e D citam elementos reais do texto (Arpoador, pitangueiras, lembranças), mas os transformam em causa da falta de saudade — quando, no texto, são apenas cenário ou consequência. A letra E é a única que nomeia o processo geral que o texto descreve.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto diz que a família "mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício" — ou seja, a mudança foi dentro do mesmo bairro (de uma rua entre Copacabana e Ipanema para outra), não "do Arpoador para um lugar distante". A alternativa inventa um deslocamento geográfico que o texto não menciona. Além disso, a causa da falta de saudade não é a mudança em si, mas o desaparecimento das casas, jardins e árvores do lugar onde ela viveu.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida / generalização. O texto menciona "melancolia" e "ar meio triste" — mas em relação à outra senhora que colhia pitangas, não à moça. E, mesmo para essa senhora, a melancolia é apresentada como uma possibilidade ("quem sabe, a saudade daquela manhã"), não como uma característica da "vida adulta". A alternativa transforma um sentimento pontual e incerto em uma condição geral da vida adulta da moça — o que o texto não afirma em momento algum.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: restrição indevida (limitar). As pitangueiras aparecem no texto como exemplo do que desapareceu ("hoje não há mais pitangas"), não como a causa da falta de base física. A alternativa reduz todo o processo de transformação urbana (casas, jardins, árvores, quarteirão inteiro) a um único elemento — as pitangueiras — e ainda o atribui às "praias modernas", expressão que não existe no texto. É uma restrição que empobrece e distorce a causa apresentada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: inversão causa/efeito (contradiz o texto). As lembranças não causam a falta de base física; elas são o que a falta de base física impede de existir plenamente. A moça diz: "É como se eu não tivesse tido infância" — ou seja, sem o espaço físico, as lembranças perdem o suporte. A alternativa inverte a relação: coloca as lembranças como causa, quando no texto elas são justamente o que fica prejudicado pela ausência do espaço.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel da causa explícita. O texto diz: "Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores" e "Tudo o que parecia eterno sumiu". A moça perdeu o espaço físico da infância porque as casas antigas foram demolidas para dar lugar a edifícios ("a casa foi comprada para construção de edifício"). Esse é exatamente o "processo de transformação do espaço urbano": a urbanização que substitui o ambiente antigo. A alternativa não acrescenta nada de fora — apenas nomeia, com outras palavras, o que o texto descreve concretamente.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que citam palavras do texto (Arpoador, pitangueiras, melancolia) — a banca as usa para dar aparência de fidelidade. A correta costuma ser a que reescreve a ideia central sem repetir os termos exatos, como a letra E faz com "transformação do espaço urbano".
Gabarito: letra E. A falta de base física para a saudade decorre do desaparecimento do ambiente da infância — casas, jardins, árvores — substituído pela urbanização. As demais alternativas ou extrapolam, ou restringem, ou invertem a relação de causa e efeito que o texto estabelece.